Saudades, nada
mais...
Almíscar, Artemísia, hortelã,
arruda, manjerona, cidreira,
Sonhos antigos semeados
Por canteiros e orações.
O colibri entre seduções,
Descansa na mangueira,
A tarde parece descer a serra,
Como se em prece, tão serena,
A noite logo chega,
O vazio na rede, tange o coração,
Lembra o amor que não se fez,
Voa colibri, um dia eu vôo de vez.

Domingo
Os domingos passam por mim,
Não pedem licença,
Não perguntam dos meus hábitos,
Passam por mim,
A revelia, autoritários,
Eu não vivo aos domingos,
As lembranças, as cicatrizes
São profundas,
Eu alterei meu calendário,
Hoje eu sou segunda.

Cores...(dores)
A tarde repousa no quintal
Púrpuros tons de anjos
Folhas e flores brincam ao vento
Como a se recolher da noite
Fecho as janelas,
(protejo-me de mim mesmo)
Vinho e cigarro e a mesma tosse,
A mesma música e os olhos fixos
Na tela que descansa em tons claros
Tua imagem,
O tempo não tira isso de mim,
Éramos azuis, e tínhamos a profundidade do mar.
Éramos rosa, e tínhamos o mesmo olhar,
Éramos lilás e sabíamos dançar
(vinho, cigarro e a tosse que insiste).
Éramos furta-cores, todas as cores, aquarela.
Hoje lembranças, onde sangro, sagradamente,
Tua imagem em tons claros na mesma tela.
Fim de outono
Nuances de cinza pinceladas no firmamento,
densa e fria névoa serena sobre os telhados
as mesmas cantigas do passado,
pela janela observo o tempo
severo, ríspido, fugaz
e as marcas tão vivas em mim
você não mais
você não mais
você não mais
Difícil viver assim,
ainda tudo no mesmo lugar
ainda tudo no mesmo lugar
ainda tudo no mesmo lugar
intacto
difícil viver assim,
coração amputado
de mim.

Blues à tarde (com flauta doce...)
Pausa à tarde ecoa flauta doce
Pelos canteiros da avenida
Brilha um alecrim-de-angola distraído
O charuto cubano mantém-me sóbrio
Apesar do cheiro de anis
(não aspiro à pressa dos prédios e dos homens)
Os elevadores presos no subsolo
Deixa-me com sensação de liberdade e improviso
(lembra-me blues, solos de blues)
Ainda tenho uma ampulheta,
Uma estatueta de louça
Fotos onde amarelam sorrisos brancos de tantos amigos
(todos ali estáticos como se não houvessem partido)
Um sax americano dos anos sessenta
E alguns selos antigos
(o camelô da esquina vendia-me até sonhos...)
mas o charuto cubano é legítimo
essa lágrima que verte sozinha, é legitima
o verso que hoje não escrevi
fez-se por si e é legítimo
e essa pausa na tarde que ecoa flauta doce,
faz o sol pôr-se em mim, sol em mim
solos de blues,
solos de blues,
solos de mim...


