Poetas 3 x 4

Salgado Maranhão



Pária


                                                                    Para  Moacyr Costa e Domingos Fernandes


Onde eu nasci a servidãoreinava

insone (ao rés do lentovaivém

dos dias) e estar vivo jábastava.

Onde eu cresci meu reino eraninguém.

Eu sou aquele a quem não seesperava

com a chave de um nome ou dovintém

e se algum rito interno merondava

era uma reza que só tinhaamém.

Viver era avançar emretrocesso

por entre rotas ínvias, semacesso,

a desbravar o mar semcaravelas:

qual pária, que ao nutrir-seem seu reverso

- o nada ter lhe tendo e portabela -,

só restem as palavras e asestrelas.

 



Mangue


Despido de defesa ao que me é dano

já nem sei se me elevo ou me alucino

ou se entro – simplesmente – pelo cano

onde sonhar pareça um desatino.

A doer-me a dor tornou-me um decano

no vício da virtude em que me assino

não sei se pobre diabo ou santo insano,

seria eu – talvez – um assassino?

(...) e rolam-se os dados ao vão da sorte

ficando a vida à sanha do mais forte

e o sonho ao rés da vala e ao bang-bang

da usura cega e do seu passaporte.

E onde o que me cabe nesse mangue,

que planto flores quando pedem sangue?

 



Do Sopro


O sopro que intercepta

o self dos meninos

                              avança

as águas turvas

e o rasgo

               da mirada.

 

(Límpido perfil do gesto

atado ao transe.)

 

O sopro lume

                     e lavra

pedra

         sangue

                     flor

 

face ao que consagra

e nutre,

face ao vário

                     desvario

onde anjos rotos

rezam aos abutres.

 

Há uma zona

em que os cristais

se partem

sob essa aragem ancestral

do sangue.

Há incêndios na raiz

Do gesto. Vestígios

de pólvora nas palavras.

E quando há voz,

É a cicatriz que canta.

 


Salgado Maranhão (José Salgado Santos) nasceu em Caxias, no Maranhão,
tem 48 anos e vive no Rio de Janeiro desde 1973.  
Seus primeiros poemas saíram na antologia Ebulição da Escrivatura,
editada pela Civilização Brasileira em 1978.

A partir de 1989, Salgado teve 7 livros publicados:
Punhos da Serpente, (Achiamé, 1989), 
Palávora, (Sette Letras, 1995), O Beijo da Fera (Sette Letras, 1996),
Prêmio da União Brasileira dos Escritores, em ( 1998 ), Mural de Ventos,
(José Olympio , 1998), Prêmio Jabuti, de 1999 e Sol Sanguíneo,
(Imago, 2001); Solo de Gaveta  (Sesc.Som, 2005).

Salgado Maranhão é também letrista e tem parcerias com Ivan Lins, Paulinho da Viola,
Ney Matogrosso, Zizi Possi, Elton Medeiros, Xangai, Herman Torres, entre outros.
 



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