CINCO ESTAÇÕES
Era
madrugada, noite estrela-ardente
quando, às vezes, os gatos são pardos,
mas uma luz tão forte se projetou na gente
que me perdi do benefício dos sensatos.
Tudo era luz. Você era a luz. Eu acesa da sua luz.
Era madrugada, noite inverno-bacante
quando, às vezes, o fio do verso engana,
mas a boca era de contorno tão fascinante
que me perdi nos beijos do assaltante perverso. .
Tudo era boca. Você era a boca. Eu tonta da sua boca.
Era madrugada, noite outono-deserto
quando, às vezes, o homem esquece a aliança,
mas um frenesi tão louco dominou o canal aberto
que me perdi na dança sem passo certo nem prece.
Tudo era frenesi. Você era o frenesi. Eu presa do seu frenesi.
Era madrugada, noite primavera-solidão
quando, às vezes, não voltamos para casa,
mas na vontade do corpo tanta determinação
que me perdi nas asas da combustão que alcançamos.
Tudo era desejo. Você era o desejo. Eu dona do seu desejo.
Era madrugada, noite verão-sem-cura
quando, às vezes, a madrugada inventa sensações,
mas o amor grita tanto, precipitada tanta loucura
que me perdi da clareza de toda razão apontada.
Tudo era amor. Você
era o amor. Eu só era se sua amada.
DESESPERAS DO CORPO
Toda água é pouca para esfriar a pedra,
quando vira lava a carne que é minha.
Falta o passo lento da lua ao meu corpo
e com lua cheia, só se escuta o uivo do lobo.
Engulo desertos e desavisos mal adivinhados,
o corpo rogando o cumprimento do desejo.
Tento apagar a loucura que pisca ligeira,
mas o desejo rijo se firma que nem horizonte
e mais não cresce
porque há sempre um firmamento que é mais distante.
Encomendo calma ao meu apetite e resgato distrações,
mas tudo me escapa diante da urgência em movimento.
Remôo juras morais e renovo outras saudades,
invocando antigos silêncios,
outrora aplacadores das minhas ânsias.
Todo os vãos do pensamento já foram tentados.
Desespero na calma do corpo que parece chegar nunca mais.
Nem outras fomes, nem outros lumes,
resultam mais fortes que os úmidos apelos.
É preciso deitar amando
para amainar os ardores desta terra
que se avermelha da queimação
que toma os pés pela cabeça.
Quando assim, nem ócio ardendo poesia,
nem outras dores devassas, abraçam meu corpo
porque não se mata quando já nascemos com ele,
o fato do fogo do corpo sempre aceso.
Só o galope da chuva que encharca desde dentro,
desfazendo-se em amor infinitas vezes,
celebra a calma na carne, até daqui a pouco, outra vez.


