Poetas 3 x 4


Rogério Sacchi



Nunca Cheirei Rapé

Com carranca novecentista
Creio em considerações, nas grandes e nas pequenas
Nas atenções românticas
Cedo o primeiro lugar às damas
Procuro não correr
Degusto com vagareza
Aprecio sucos de fruta
E guloseimas assadas
A biblioteca que anseio é maior do que os livros que terei tempo de ler
Há um gabinete
A escrivaninha
Um bom vinho e um lampião

Não sei jogar gamão
Mas arrisco uns passos de minueto
Ouço valsinhas e maxixes
Tenho gosto por serenatas
E tísicas boemias
Por olhar a lua
Por contar estrelas com receio

Ai, minha amada
Tão dispersa
Tão desatenta aos adornos com os quais eu a enfeito e possuo
Ela nunca me percebe realmente
Não responde às minhas deixas
Esta Lucíola com febre de orgias e amigos

Eu, em segundo plano, sempre, pego minha casaca e chapéu
Para tomar uma fresca no Passeio
Para ver a moda e as coquetes da Ouvidor
Ando cansado por esperar o seu retorno
Que nunca vem
Carioca, só por hoje, Casmurro

Nunca cheirei rapé
E acredito que não haverá mais tempo para isso
-Vou-me que já chega o bonde.

 



Não-dito

Quero escrever-lhe todo o não-dito
Exorcizar meus sonolentos demônios
Desta forma serei melhor
Mais vazio
Trago na garganta os tremores do mundo
Nos olhos, a ressaca de um tsunami
No corpo, o calor de cinco desertos
Nas patas, os desejos das sagradas putas
Há de se calar mesmo o dito

Não posso eu morrer por isso
Desdita
Pela última vez
Calo
Para dizer, sem vergonha,
Amo
Porque sou às avessas
Porque assim eu pulso

 



Lobo

Olhos de lobo, os meus
Águam a púbis urbana
Seca na entrega
Corpo branco
Bem logo o dilacero
o asso em fogo brando

Lábios de carne em dezoito
Saliva cristal cristalina
Adocica esses ouvidos
Cansados de cera e embates
São quase trinta

Fiel,
Aproximo-me da caça
Coisa miúda
Pêlo eriçado
Espreito a fera
E sou eu o devorado
frescor arcanjo
Sou comida
Tragada
Içada a um paraíso
Que nem a Deus pertence
 



Rogério Sacchi de Frontin Werneck

 

 

 

 

 

Nasceu na cidade de São Paulo, em 23 de abril de 1964. Cresceu no Rio de Janeiro, cercado por livros da biblioteca de seu pai, através dos quais tomou gosto pela leitura. Morou dois anos em Areal - RJ e passou sua adolescência em Niterói. Tornou-se, como costuma dizer, um caipira urbano. Formou-se como bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica - RJ, e como mestre em Letras, área de concentração em Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Sua dissertação “Entre castelos, serras, beliscões e pisadelas - figurações do português no romance romântico brasileiro” obteve grau 9,5 (nove vírgula cinco) – ela encontra-se à disposição para consulta na biblioteca da instituição. Trabalhou durante 12 anos para o jornalismo impresso. Em 1997, ingressou na TV Globo como autor-roteirista. Hoje atua como professor dos cursos de Comunicação Social e Cinema da Universidade Estácio de Sá, roteirista, dramaturgo, poeta e escritor. Tem publicado três livros de não-ficção, com os quais contribuiu como autor: Almanaque da TV, Introdução à História da Comunicação e Enciclopédia Verbos das Literaturas de Língua Portuguesa. No momento, está desenvolvendo projetos na área de literatura, teatro e TV.
 

 

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Ou escreva para o e-mail do autor: rogeriosacchi@globo.com

 
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