GAZAL DE APRENDIZ
Quisera ser
como tu queres
Um ser perfeito e feliz.
Iria, tão pleno de haveres
Movido por força motriz.
Cinético, em tais projetos
A me perder, por um triz.
Fincando raízes por nada.
Jamais esculápio, eterno petiz.
Mas, hoje sei, poeta sou convicto.
E bem mais do que se prediz:
- O ente perdido no mundo
Seguindo, por tudo, infeliz.
Dirte-ei, neste gazal quebrado
Ou a espectral sombra me diz
Corrigindo este meu vaticínio
Pois, tu és minha musa, e me sorris.
Faz-me, ledo, alumbrar o lirismo
Neste oficio de aprendiz.
Pode-se tudo, ou, se então, nada posso
Valeu ter tentado as coisas que fiz.
Baldadas mil e uma verdades
Ao íntimo, algo na poesia me diz:
- Que só tem apego à plena vida
Quem, continuum, reinventa o mundo
Quem, vagando, da terra ao limbo
Vai muito além de Cadiz.
AL MARE
O mar.
Não é só o mar que percebo
é o mundo que ele abraça e rega.
São as temperas lunares que o prateiam
o rondó dos pássaros, os linimentos
e as algas, que nos trazem as ondas
além delas próprias, vagas autócnes
e dessemelhantes.
Os mares.
São todos os ares que nos cercam
e não só por serem mares alheios
mas, também, por serem mares-anseios
em nossos olhares
mesmo os de curto alcance
com pretensões de horizonte.
