
Sê bem-vindo, o que se foi
E agora volta,
E entre os seus,
É recebido em relevância.
Acolhe-o em abraço,
Toda pompa e circunstância,
Na precisa hora em que
O poema já se entorta.
Ao vir à praça, no nascer
Da rosa pública,
Cruza as aleas de flores vãs,
Na avenida,
Quando se vê o advento,
Retorno eterno,
Et por cause, vence lirismos
De toda gama,
Construindo a poesia
Que caminha sem ter termo.
E, já de volta, o que
Vai-se, e o que vem vindo.
Ou então, num ai, o sentimento
Sobe ao tino, e a emoção
Desencadeia a verve solta,
Na alegria desvairada
De um menino.
Que o saúdem e o velem
Em canto antigo,
Quando se vê na fonte orgiástica
E urbana, o verter-se d’alma,
E da densidade de um amigo.

De teu imortal ciúme.
Senão, cumpre a dor o lugar da morte e da vida,
E a morte é pouca em tal vaticínio,
Diante do negrume de tão sórdida pena,
Calcinando as intenções, qual pálida erva
Em chão de betume.
Persistente viandante, sigo em busca,
Nesta senda do amor fundo que é vergasta,
Quão maior e verdadeiro se acerca,
Desenovelando a dor que ao corpo custa.
Oh, musa intensa! Com teu brilho de Acaçás,
Cravas no meu íntimo a adaga triste quando esfumas
Tua solerte leveza, duração matinal da bruma.
Quando a alegria, pálida se desfaz, o infame aperto
Quase sempre ao peito trava.
Oh, musa intensa! Meu amor por ti, como bálsamo,
Queria a curar teus queixumes. Em mim curar a vida.
Farol em teu olhar, guiar meu rumo.
Um sentir fecundo, transposto em lume.
Quedar-me em teu colo, em acalento, na paz de um lago,
Como em sonho, acompanhando sem pensar o perfeito plano,
E a eternidade intocada de um momento.

POEMETO SOBRE O AMOR
O amor, quando acontece,
pode ter a genética de um
tornado, arrasador e insólito.
Mas, há o que amarelece
no sorriso do rapaz, e o que,
no esperar da moça, empoeira-se.
Que pode ser de acontecimento,
mesmo marcante e tão forte,
como um sentir de gosto, que,
ainda assim, é de tal fragilidade,
que nasce musgueando pelos cantos
das ruas, dentro dos becos da cidade,
na relva das tundras, no charco das
várzeas, e que a tudo toma conta,
qual uma hera de parede?
É preciso proteger tal sentimento fragil,
do impiedoso jardineiro, que, senhor da razão,
mora num estóico rancho, lá no fundo
do bosque sombrio, e sempre vem a lume
aparar
as ramagens novas de um coração descuidado.

nem regras do vernáculo
nesta forma do natural do dia
desdobrar seu destino de ocorrências
Dado fosse ao homem a ciência
para a virtude alcançar em
seu ofício de viver, fincaria
este, seus pés no barro
deixando a vida acontecer
um semideus,
simples homem sou,
e com toda falha.
Meu corpo, vagando,
vai sem rumo, para
a prova se aprumando.
Com arpejo e linimento,
vou subir o Monte Olímpo,
e, desde a cimeira nevada,
conduzir meu pensamento,
para o vazião, pra o nada.
……………………
Efetivei, já, o tento, e de todo,
quedei-me exausto,
muito embora, há tempo cavo,
e já em plenitude.
Mortal, retomei a carcaça rude,
para, num canto pagão, tecer
loas à humanidade.
Súbito, à flor da pele,
pude sentir o ciúme
das sensuais deusas helênicas.
Derrotado, acedi ao enlaces
dos amores divinais, mesmo
temendo os ardores
do fogo ativo do Hades.
Foi prazer de trovoada,
o estar assim com as tais musas.
ali, entre contínuos êxtases.
Apurando a escuta, pude ouvir
o sonir mavioso da Ave-Ibis, que cantou
no longe, enquanto eu rompia o
renovado hímem da deusa Aurora.
Por leito, extasiado, tomei-lhe
nos contrafortes das serras gregas
E foi quando lhe dei prazer,
que todo o céu se avermelhou.

COPACABANA
O bairro de Copacabana
pleno de luz diáfana
vive carregado de sua
preguiça diurna, de seus
pecados soturnos, de noite
com suas emoções prévias.
Ai de ti, Copacabana
que em tudo te perdoam
os devotos da tua elegia
para que disponhas
eternamente a tua passarela
de pedras portuguesas
para o cair da tarde
e te permitas às lascivas
línguas das ondas brancas
do mar, que te sorvem
como a uma mulher
desfazendo o contorno
duro das formas
e fazendo-te entranhar
mais e mais, em nossas
almas citadinas.
Sim. Ai de ti, mulher mundana
vestal senhora, caminhando
nua pela noite. Eros não te condena
antes, comemora
teu trotoir de malícias
e abriga-te em colo divinal.
Não irão, também
macular-te os homens
pretensamente severos
pois és afinal, Copacabana.
Apenas, permaneces
digna e condenada
à insonata secularidade.

CINZA INTERIOR
a Ferreira Gullar
a casa é sempre presença
chão com falhas
que esconde o cisco de ovo
não varrido
a casa recende a café da manhã
e a outros cheiros
de um dia começando
misturado aos ficados da noite
a casa é o trabalho dos anos
a oclusão dos cantos
a ruminação dos insetos
a casa é o vento da tarde
é a espera pela chuva
para o viver do telhado
a casa é a saudade
é o beiral de abrigar ninhos
a algaravia das andorinhas
amor de pai/prontidão de filho
promessas de eternidade
a casa é vinho do porto
acalentando a noite fria
noite de amor lúbrico
a casa é choro de criança
lugar de morte e vigília
a casa é a casa da fazenda
avistando da varanda
os pastos no vale umbrífero
lá no longe da memória
a casa é útero ubérrimo
a parir aconchegos e a
preguiça doce do não-ser
O CICLO
A noite vai alta, perseguindo o fim
do dia.
Cães e gatos pardos, fugidios, se confundem,
errantes, entre almas desencarnadas na praça provincial.
Faz silencio na noite, inquieta e insone.
Já se abre a Lua cheia, hora da ronda do lobisomem.
As mães correm, a fechar as janelas, para que a luz da Lua,
não lhes atiçe libertinagens às filhas.
Fora os tremores próprios à idade moça,
onde os cuidados se mostram sem valia,
as crianças há muito já foram dormir,
protegidas pela doce Ave Maria.
Pelas frestas, se observam aos passantes solitários.
Os vultos apressados, os bebados em arruaça,
e os que, mesmo caidos nas calçadas,
vão sonhar com as alturas do Aconcágua,
e no sopé, vales de prados floridos.
Na praça, também, somente as flores do canteiro,
indefectíveis, cumprem seu ciclo sem dor,
mitigadas desde sempre, pelas gotas orvalhadas,
que caindo, anunciam o alvorecer.

A VELHA CASA
De navio, volto à velha casa,
e à mesma traça, num canto,
a velha herança, e a vida breve,
que a morte, decisivamente leva.
Há a crença revisitada,
e que ainda arde, e a esperança
de que o amor pese e se confirme
sobre a intolerância.
O porto, na letargia da tarde,
é o sono leve de uma criança.
Está alí o mesmo gen, trazendo a eira,
na marcha estradeira, picando a mula,
no vasto mundo, cruzando a noite,
rompendo o dia que a vida anula.
Meu navio encalhado, já não quer
navegar sem fronteiras.
IMAGEM EM CROMACOLOR
uma foto colorida
mostra uma profusão
de corpos pela areia da praia,
sob um céu incomum
onde se azulam
incontáveis desejos
em primeiro plano
um homem olha ao longe
no horizonte
com seu olhar triste
no canto esquerdo
outro homem
(um menino, na verdade)
olha ternamente o protagonista
em prontidão compassiva de filho
trazendo no olhar a loucura do afeto
no mar,
a anulação total
dos sentidos

GRÃO
Minha pátria é um rio,
um monte verde,
um cio, a chuva e o estio.
Minha pátria me ensina
a evitar a morte.
Na permanência e na poeira,
a minha pátria rasteira.
No teu corpo, carpindo,
faço brotar o grão.
Minha pátria é o teu beijo,
que me ativa, alimenta,
saliva, feita de vinho,
boca, com gosto de pão.

UMA NAU INSONE
Ainda é cedo para carpir
todas as mortes sobre
a terra, mas já se faz tarde
para aprender com a chuva
fina e fria, que abre sulcos
no meu rosto.
Torço-me das dores do
parto, ainda, e meu coração
transpassado, varado, vaza
sangue pisado.
Ouço ecos dos sôfregos passos
de meu pai, quando já me chamam
ao cuidado arquetipico, da densidade
e do destino dos filhos, no amor paridos.
Morro a diária morte dos justos,
aos ímpios sobrevivo à sorte,
e mesmo me desconhecendo,
ainda embrulho minha vida
em celofanes de prata.
Outra vez, sem porto, parto
para não encontrar quem já fui.
NO UMBRAL DA SORTE
Não cabe aqui, suster à coisa
óbvia.
Fazer, não cabe, versos em redondilha,
impressões tão vastas transbordo de tonel.
Sou incapaz da paisagem que se forma
na janela. De fora à dentro, esmaece tudo,
ao léu. Antes, sou lume, lusco-fusco,
tênue raiar da aurora, incandescendo,
desde a alma, têmpera e pincel.
Foste-te um dia, sem porque e sem para onde.
Deixou-me só, sem norte e torto neste mundo,
qual menino, que com Erínies, nas aléias se defronte.
Ver-te de novo, não mais etérea / imaginada,
retorna o viço do meu íntimo atavismo,
devolve a brisa da manhã, à madrugada.

Ricardo
Sant´Anna Reis é formado em sociologia pela UFF/RJ,
especialista em Ciência Política pela UFRJ/RJ,
professor, ator e poeta,
está editando seu primeiro livro de poesia.
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