Ricardo Reis
              
     
 


 


TANGO VOLVER


Ao longe, campeando plagas
Em bom tordilho,
Desde a portenha estância,
Ei-lo que aqui se apeia.


Sê bem-vindo, o que se foi

E agora volta,
E entre os seus,
É recebido em relevância.


Acolhe-o em abraço,
Toda pompa e circunstância,
Na precisa hora em que
O poema já se entorta.


Ao vir à praça, no nascer

Da rosa pública,
Cruza as aleas de flores vãs,

Na avenida,
Quando se vê o advento,
Retorno eterno,
Et por cause, vence lirismos

De toda gama,
Construindo a poesia
Que caminha sem ter termo.


E, já de volta, o que
Vai-se, e o que vem vindo.
Ou então, num ai, o sentimento

Sobe ao tino, e a emoção

Desencadeia a verve solta,
Na alegria desvairada
De um menino.

Que o saúdem e o velem

Em canto antigo,
Quando se vê na fonte orgiástica
E urbana, o verter-se d’alma,
E da densidade de um amigo.
 


 

 


 
EM ACALENTO


Se turva é a fonte de teus olhos mareados,
E o ardor, então, negritude perene,
Fulge impávida tua bela figura,
Musa fugidia, derradeira e plena.

Se a floresta é prenhe de naturais dádivas,
Sede, mulher, etérea, pluma, insone,
A ponte mínima à superar abismos.
Purgue, mulher, os seminais

De teu imortal ciúme.

Senão, cumpre a dor o lugar da morte e da vida,
E a morte é pouca em tal vaticínio,

Diante do negrume de tão sórdida pena,

Calcinando as intenções, qual pálida erva

Em chão de betume.

Persistente viandante, sigo em busca,
Nesta senda do amor fundo que é vergasta,
Quão maior e verdadeiro se acerca,
Desenovelando a dor que ao corpo custa.

Oh, musa intensa! Com teu brilho de Acaçás,
Cravas no meu íntimo a adaga triste quando esfumas
Tua solerte leveza, duração matinal da bruma.

Quando a alegria, pálida se desfaz, o infame aperto
Quase sempre ao peito trava.


Oh, musa intensa! Meu amor por ti, como bálsamo,
Queria a curar teus queixumes.  Em mim curar a vida.

Farol em teu olhar, guiar meu rumo.
Um sentir fecundo, transposto em lume.
Quedar-me em teu colo, em acalento, na paz de um lago,
Como em sonho, acompanhando sem pensar o perfeito plano,
E a eternidade intocada de um momento.
 




POEMETO SOBRE O AMOR


O amor, quando acontece,
pode ter a genética de um

tornado, arrasador e insólito.
Mas, há o que amarelece
no sorriso do rapaz, e o que,
no esperar da moça, empoeira-se.


Que pode ser de acontecimento,
mesmo marcante e tão forte,
como um sentir de gosto, que,
ainda assim, é de tal fragilidade,
que nasce musgueando pelos cantos

das ruas, dentro dos becos da cidade,
na relva das tundras, no charco das

várzeas, e que a tudo toma conta,
qual uma hera de parede?

 

É preciso proteger tal sentimento fragil,
do impiedoso jardineiro, que, senhor da razão,
mora num estóico rancho, lá no fundo

do bosque sombrio, e sempre vem a lume aparar
as ramagens novas de um coração descuidado.
 




O OFICIO DE VIVER


a disposição dos espaços
o burburinho ativo
das borboletas corais
o paciente trabalho dos besouros
que a lenha vão roendo aos nacos
pelas servidões, nos caminhos
nas aléas aceradas, pelas relvas
sorvem os passarinhos
para o seu canto matinal
as gotas de orvalho
reminiscências da noite
o filhote gorjeia no ninho
no alto de um pé de pau
um balido gesto, seja, um ato
introduzindo na cena diária
o princípio do entardecer
pela sinfonia gutural dos insetos
grilos e cigarras, para ser exato
ao céu, corta-lhe o vôo planador
da seriema, olhos de lince,
caçando a cobra buraqueira
no longe, as crianças brincando
e celebrando a vida inteira.
e o dia, então se exerce
de um modo pluriforme
sob o impacto da perfeição
daquele único momento.
não há tragédias, nem dor
também não há crueldade
nem anulação dos sentimentos

nem regras do vernáculo
nesta forma do natural do dia

desdobrar seu destino de ocorrências
Dado fosse ao homem a ciência
para a virtude alcançar em
seu ofício de viver, fincaria

este, seus pés no barro
deixando a vida acontecer
 



A IBIS


Porquanto não sou

um semideus,
simples homem sou,
e com toda falha.

Meu corpo, vagando,

vai sem rumo, para

a prova se aprumando.

 

Com arpejo e linimento,
vou subir o Monte Olímpo,
e, desde a cimeira nevada,
conduzir meu pensamento,
para o vazião, pra o nada.

……………………


Efetivei, já, o tento, e de todo,

quedei-me exausto,
muito embora, há tempo cavo,
e já em plenitude.

Mortal, retomei a carcaça rude,
para, num canto pagão, tecer

loas à humanidade.

Súbito, à flor da pele,
pude sentir o ciúme
das sensuais deusas helênicas.

Derrotado, acedi ao enlaces
dos amores divinais, mesmo
temendo os ardores
do fogo ativo do Hades.


Foi prazer de trovoada,
o estar assim com as tais musas.
ali, entre contínuos êxtases.


Apurando a escuta, pude ouvir

o sonir mavioso da Ave-Ibis, que cantou
no longe, enquanto eu rompia o 

renovado hímem da deusa Aurora.

Por leito, extasiado, tomei-lhe

nos contrafortes das serras gregas

E foi quando lhe dei prazer,

que todo o céu se avermelhou.
 




SONETO DO LAGO ESPECTRAL

a Edgard Alan Poe

Extenuado, buscava o descanso, a paz e a meditação
Para obrar poemas em bucólico remanso, bem ermo da cidade.
Fui parar em terra (depois o soube) de ancestral assombração
Frente a qual, pouca monta faria à urbana veleidade.

Já que ali me encontrava, melhor seria a prontidão
Deste meu torto espírito, nada afeito à deidade.
Ter em minha mente, toda a luz, mero regalo vão.
O ceticismo é sem valia, mais que a crente simplicidade.

Chegando à Casa do Lago, miríades de insetos flamejantes
Reluziam em névoa imersos, como em velhos pântanos da Escócia.
Vi entes fantasmáticos, tambourilos secos ouvi, e mais, silvos ciciantes.

A noite já se ia densa e os sapos alardeavam os encontros espectrais,
Tanto que furtou-se-me o sono, pois em vigília, no frigir desta algazarra
O medo tão só me alentava o estar vivo na aurora, ademais.

 



COPACABANA


O bairro de Copacabana

pleno de luz diáfana

vive carregado de sua

preguiça diurna, de seus

pecados soturnos, de noite

com suas emoções prévias.  

 

Ai de ti, Copacabana

que em tudo te perdoam

os devotos da tua elegia

para que disponhas

eternamente a tua passarela

de pedras portuguesas

para o cair da tarde

e te permitas às lascivas

línguas das ondas brancas

do mar, que te sorvem

como a uma mulher

desfazendo o contorno

duro das formas

e fazendo-te entranhar

mais e mais, em nossas

almas citadinas.

 

Sim. Ai de ti, mulher mundana

vestal senhora, caminhando

nua pela noite.  Eros não te condena

antes, comemora

teu trotoir de malícias

e abriga-te em colo divinal.

 

Não irão, também

macular-te os homens

pretensamente severos

pois és afinal, Copacabana.

  

Apenas, permaneces

digna e condenada

à insonata secularidade.
 




CINZA INTERIOR

a Ferreira Gullar


a casa é sempre presença

chão com falhas

que esconde o cisco de ovo

não varrido

a casa recende a café da manhã

e a outros cheiros

de um dia começando

misturado aos ficados da noite

a casa é o trabalho dos anos

a oclusão dos cantos

a ruminação dos insetos

a casa é o vento da tarde

é a espera pela chuva

para o viver do telhado

a casa é a saudade

é o beiral de abrigar ninhos

a algaravia das andorinhas

amor de pai/prontidão de filho

promessas de eternidade

 a casa é vinho do porto

acalentando a noite fria  

noite de amor lúbrico  

a casa é choro de criança

lugar de morte e vigília

a casa é a casa da fazenda

avistando da varanda

os pastos no vale umbrífero

lá no longe da memória

a casa é útero ubérrimo

a parir aconchegos e a

preguiça doce do não-ser
 



O CICLO


A noite vai alta, perseguindo o fim do dia.

Cães e gatos pardos, fugidios, se confundem,

errantes, entre almas desencarnadas na praça provincial.

Faz silencio na noite, inquieta e insone.

 

Já se abre a Lua cheia, hora da ronda do lobisomem.

As mães correm, a fechar as janelas, para que a luz da Lua,

não lhes atiçe libertinagens às filhas.

 

Fora os tremores próprios à idade moça,

onde os cuidados se mostram sem valia,

as crianças há muito já foram dormir,

protegidas pela doce Ave Maria. 

Pelas frestas, se observam aos passantes solitários.

 

Os vultos apressados, os bebados em arruaça,

e os que, mesmo caidos nas calçadas,

vão sonhar com as alturas do Aconcágua,

e no sopé, vales de prados floridos.

 

Na praça, também, somente as flores do canteiro,

indefectíveis, cumprem seu ciclo sem dor,

mitigadas desde sempre, pelas gotas orvalhadas,

que caindo, anunciam o alvorecer.
 




A VELHA CASA


De navio, volto à velha casa,

e à mesma traça, num canto,

a velha herança, e a vida breve,

que a morte, decisivamente leva. 

Há a crença revisitada,

e que ainda arde, e a esperança

de que o amor pese e se confirme

sobre a intolerância. 

O porto, na letargia da tarde,

é o sono leve de uma criança.

Está alí o mesmo gen, trazendo a eira,

na marcha estradeira, picando a mula,

no vasto mundo, cruzando a noite,

rompendo o dia que a vida anula.

Meu navio encalhado, já não quer

navegar sem fronteiras.
 



IMAGEM EM CROMACOLOR


uma foto colorida

mostra uma profusão

de corpos pela areia da praia,

sob um céu incomum

 

onde se azulam

incontáveis desejos

 

em primeiro plano

um homem olha ao longe

no horizonte

com seu olhar triste

 

no canto esquerdo

outro homem

(um menino, na verdade)

olha ternamente o protagonista

em prontidão compassiva de filho

trazendo no olhar a loucura do afeto

 

no mar,

a anulação total

dos sentidos
 




GRÃO


Minha pátria é um rio,

um monte verde,

um cio, a chuva e o estio.

 

Minha pátria me ensina

a evitar a morte.

Na permanência e na poeira,

a minha pátria rasteira.

 

No teu corpo, carpindo,

faço brotar o grão.

 

Minha pátria é o teu beijo,

que me ativa, alimenta,

saliva, feita de vinho,

boca, com gosto de pão.
 




UMA NAU INSONE


Ainda é cedo para carpir

todas as mortes sobre

a terra, mas já se faz tarde

para aprender com a chuva

fina e fria, que abre sulcos

no meu rosto.

 

Torço-me das dores do

parto, ainda, e meu coração

transpassado, varado, vaza

sangue pisado.

 

Ouço ecos dos sôfregos passos

de meu pai, quando já me chamam

ao cuidado arquetipico, da densidade

e do destino dos filhos, no amor paridos.

 

Morro a diária morte dos justos,

aos ímpios sobrevivo à sorte,

e mesmo me desconhecendo,

ainda embrulho minha vida

em celofanes de prata.

Outra vez, sem porto, parto

para não encontrar quem já fui.
 



NO UMBRAL DA SORTE


Não cabe aqui, suster à coisa óbvia.

Relatar os tons, entre o azul e o gris do céu.

Fazer, não cabe, versos em redondilha,

impressões tão vastas transbordo de tonel.

 

Sou incapaz da paisagem que se forma

na janela.  De fora à dentro, esmaece tudo,

ao léu.  Antes, sou lume, lusco-fusco,

tênue raiar da aurora, incandescendo,

desde a alma, têmpera e pincel.

 

Foste-te um dia, sem porque e sem para onde.

Deixou-me só, sem norte e torto neste mundo,

qual menino, que com Erínies, nas aléias se defronte.

 

Ver-te de novo, não mais etérea / imaginada,

retorna o viço do meu íntimo atavismo,

devolve a brisa da manhã, à madrugada.




Ricardo Sant´Anna Reis é formado em sociologia pela UFF/RJ,
especialista em Ciência Política pela UFRJ/RJ, professor, ator e poeta,
está editando seu primeiro livro de poesia.


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E-mail:
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