Poetas 3 x 4

Pedro Lyra
Campos - RJ



A noite absoluta

Era uma noite solta pelo tempo
- liberta da passagem do tempo - em que a vida
durava apenas por si mesma.

Num leito de paz, solto pelo espaço
- liberto dos limites do espaço - tu dormias
nua, serenamente nua.

Desprendida do além, qualquer coisa vaga
- um sonho, uma alegria, uma esperança -
qualquer coisa vaga, indefinida como o teu estar-ali,
flutuou lentamente pelo ar,
buscando forma.

A teu lado, oculto
numa nuvem de sombra, eu
nem sequer contemplava o teu corpo
nem sequer contemplava o teu ser:
- apenas
o teu abandono,
o teu olímpico abandono, insinuado
entre iluminações e encantamentos.

Ah, o doce desprendimento dos sentidos!

Do abismo do mim,
nem desejo que turvasse o meu enleio,
nem gesto que abolisse o teu encanto:
- apenas
a minha simples respiração,
talvez, que tocando na tua alma, lentamente,
te devolveu à vida
lentamente.

Vinhas livre,
livre e bela, no esplendor
da liberdade e da beleza, transfigurada
em luz
como um sonho acontecendo,
em sonho
como uma alegria se espalhando,
em alegria
como uma esperança se cumprindo.

Então te vesti d'esta ternura.

E naquela noite desprendida do tempo,
naquele ponto desprendido do espaço,
a vida ressurgiu por si mesma, lentamente
- das escarpas do sonho
para a nuvem do real.
 



Anunciação

Aqui, eu.

Neste mesmo lugar
tão diferenciado pela poesia da tua passagem.

Dentro de mim
meu coração bate tranqüilo,
meu sangue circula normalmente,
minha alma sabe que sou eu.

Lá fora
a lua espraia encanto pela terra,
o vento larga uma canção pelo infinito,
o mar enrola um apelo no silêncio.

Todos os elementos
seguem
cumprindo como sempre as suas funções.

Mas
aos poucos
o coração começa a bater como temendo,
o sangue começa a queimar dentro da espera,
a alma começa a me desconhecer.

Por quê?

Pode ser a lua que viola a sua rota.
Pode ser o vento que ultrapassa os horizontes.
Pode ser o mar que se estrangula além da terra.

Ou pode, simplesmente,
pode ser apenas, simplesmente, o espaço
que se abra - anunciando
a tua volta.

 



Pedro Lyra, natural de Fortaleza, Ceará, é poeta, crítico e ensaísta.
Pós-Doutorado em Tradução Poética pela Universidade de Paris-III/Sorbonne Nouvelle,
onde foi "Chercheur Invité" (2004-05). Professor Titular de Poética da
Universidade Estadual do Norte Fluminense, em Campos-RJ (desde 2001).
Antologia poética (Visão do Ser) publicada pela Editora Topbooks do Rio em 1988, com versão francesa (Vision de l´être) em 2000 pela Editora l´Harmattan de Paris.
Publicação mais recente: Argumento - Pormythos globais (Rio, Íbis Libris, 2006).


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E-mail: pedrowlyra@hotmail.com

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