POETA

Paulo Leminski

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l

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

confira                        tudo que respira                        conspira



Amor, então
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


vão é tudo
que não for prazer
repartido prazer
entre parceiros

vãs
todas as coisas 
que vão

passa e volta                         a cada gole                         uma derrota


passos lentos
escrevem
VONTADE DE CHEGAR

precisa andar
como quem já chegou

chega de chegar

depressa
é muito devagar
 

não fosse isso      e era menos           não fosse tanto       e era quase           


apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

entro e saio                       dentro                     é só ensaio


parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta



quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e um olhar vira romance

 

hoje à noite           lua alta            faltei               e ninguém sentiu               a minha falta


Erra Uma Vez


nunca cometo
o mesmo erro
duas vezes

já cometo duas
três quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez


soubesse que era assim

não tinha nascido

e nunca teria sabido

ninguém nasce sabendo

até eu que sou meio esquecido

mas disso eu sempre me lembro


maldito
o que não deixa cantar
o canto é fraco
maldito
o que não deixa cantar
o canto é forte

maldito
o que não deixa cantar
o canto gera outro cantar
maldito
o que não deixa cantar
o canto nunca deixa de cantar

nuvens brancas                    passam                       em brancas nuvens


as cidades do ocidente
nas planícies
na beira mar
do lado dos rios
feras abatidas a tiro
durante a noite
de dia
um motor mantém todas
vivas e acesas
LUCRO
à noite
fantasmas das coisas não ditas
sombras das coisas não feitas
vêm

ante pé
mexer em seus sonhos
as cidades do ocidente
gritam
gritam
demônios loucos
por toda a madrugada

o poema            na página           uma cortina                        na janela            uma paisagem         assassina


Estupor

esse súbito não ter
esse estúpido querer
que me leva a duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir



desta vez não vai ter neve 
como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos 
como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando 
como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia 
como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo
 

esta vida é uma viagem            pena eu estar           só de passagem


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

você pára                  a fim de ver                    o que te espera                     só uma nuvem            te separa               das estrelas

de repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que eu te vi
o dia em que me viste
de repente
vendi meus filhos
a uma família americana
eles têm carro
]
eles têm grana
eles têm casa
a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar um sol em copacabana

a vida varia                o que valia menos                     passa valer mais                 quando desvaria

nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixa os ponteiros

meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa
presença
olhar
lembrança
calor
meu amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão

o barro               toma a forma             que você quiser                           você nem sabe                 estar fazendo apenas                o que o barro quer


você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

 


eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

já fui coisa

escrita na lousa

hoje sem musa

apenas meu nome

escrito na blusa


um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra
 

não discuto          com o destino             o que pintar             eu assino

 

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

- que se foda,                    disse ela,                   e se fodeu toda

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.


já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

nada me demove          ainda vou ser o pai          dos irmãos Karamazov


voar com a asa ferida?
abram alas quando eu falo.
que mais foi que fiz na vida?
fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.

fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
a asa arde. 
voar, isso não dói.

a estrela cadente                me caiu ainda quente                 na palma da mão

eu ontem tive a impressão
que Deus queria falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu
para falar com Deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu 
cuido dos meus.

 

para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

a noite            me pinga uma estrela no olho              e passa


um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

inverno                  primavera                   poeta é quem                    se considera


en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
moches
poemas
 

isso de querer         ser exatamente aquilo           que a gente é            ainda vai            nos levar além


LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

aqui jaz um grande poeta.
nada deixou escrito.
este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em disfarces
 
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao enfarte
Deus tenha pena
dos seus disfarces

ameixas                          ame-as                          ou deixe-as

Paulo Leminski

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1944. 
Aos 20 anos começa a publicar poemas 
na revista "Invenção", em São Paulo. 
De 1970 a 1989, ano de sua morte, trabalha, 
em sua terra natal, como redator publicitário. 
Em 1975 publica o romance "Catatau".
Também músico e letrista, 
Leminski tem suas obras gravadas 
por nomes como Caetano Veloso e 
o grupo "A Cor do Som". 
Traduziu de Beckett a John Lennon. 
Colaborou em importantes revistas e jornais, como 
"Veja" e "Folha de São Paulo". 
Sua obra vem influenciando todos 
os movimentos poéticos dos últimos 20 anos.

1944, Curitiba, Paraná, 24 de agosto, 
nascimento de Paulo Leminski Filho. 
Filho de Paulo Leminski e Áurea Pereira Mendes Leminski
1964, São Paulo, SP, publicação de poemas na revista Invenção, porta voz da poesia concreta paulista.

1968, casamento com a poeta Alice Ruiz. 
Filhos: Miguel Ângelo, falecido aos 10 anos; 
Áurea Alice e Estrela.

1970/1989, Curitiba, Paraná, redator de publicidade. 
Músico e letrista. Canções gravas por Caetano, 
A Cor do Som.

1975, Curitiba, PR, publicação de Catatau, um romance experimental.

1980/1986, São Paulo, colaborador do suplemento 
Folhetim, do jornal Folha de São Paulo; 
também colaborador da revista Veja.

1984/1986, Curitiba, PR, tradutor de Alfred Jarry, 
James Joyce, John Fante, John Lennon, 
Samuel Becktett e Yukio Mishima

1986, São Paulo, SP, publicação do livro 
infanto-juvenil Guerra dentro da gente.

1989 – Curitiba, PR, 07 de junho: morte.

Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura 
japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. 
Sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos.

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