
Nina Araujo
Candeeiro
Jaz na luz da noite
O
candeeiro dos seus olhos
Fértil
sobre mim
Ver o peso
dos seus braços
Laço forte
assim
Como fosse
o aço em bloco
Um
alicerce enfim...
Miro o seu
sorriso
Que
prefiro flutuante
A nadar em
mim
Que
preciso navegante
A zarpar
assim
No meu
coração sedento
Vendo o
amor enfim...

Desejo e arte
Ah...
Quantos
desejos
Darão
passos neste dia ?
Capas nos
sonhos...
Impermeabilizar a dicotomia
E muitas
canções dirão coisas
De
combinar com a alegria
E muitas
decisões fluirão
Belas
conversações...
Ou
burocracia
Meu
objetivo final,é o jambo...
O pé de
samambaia...
A orquídea
vasta que descambo
Sujando
outra vez a saia
O sucesso
deste dia
É o fim da
tarde
Bolo de
cenoura e arte
Que
vasculha e parte
No íntimo
da poesia...

Gitano
Não anelo mais teu perfume
Porque até
já vendi nosso canto
Mas dou
meu Vapor Barato
Por mil
recordações de ti...
Tu és um
Louvre com Goya
Meu
amanhecer sem cortina
Um plano
perfeito de Tróia
O meu
rubor cor de China
Vejo o teu
amargor chicória
Combinar
na minha rima
Em
quintessência de Gaia
Em
Bolshois de bailarina
Amo o teu
vigor praiano
Velejando
sóis de espaço
Num
paso-doble cigano
Batendo
sombra e regaço
Amo teu
andar bolero
O teu
beijo sempre arisco
Dentro
dele ainda espero
Singrar
novos mares de risco.

Lasca
Sabes do tempo e da trena
Que plaino
no rumo do pé...
Conceda
então uma prosa
Um pedaço
de sombra,um igarapé...
Mesmo
exausto,afônico
Como um
saltimbanco
Afoito
,entroncado...
Vejo um
encontro de águas
Dois pares
de asas,
De estar
do teu lado...
Ainda que
ande apressado
Muitos
sóis...muitos verões
Conceda
então uma lasca
Me leve ao
Alasca
Com cores
e sons...

Ilação
Adoraria voar...
Ser
abduzida nas asas,
Dum sabiá,
Ver as
casas,
Lá de
cima, do mar...
Falar com
Niterói,
Cagarras...ver
Paquetá...
Entrar na
pele de Alencar,
Praia da
Moreninha,
Romances
gritam,
No ar...
Ah,adoraria chegar...
Depois do
dia voado,
E
descansar, à beira lua,
Na várzea,
Pedra da Gávea...
Onde é
permitido
Voar ...
De asa
delta,
Como Deusa
celta...
Perséfone
ou Rhiannon,
Que meu
coração,
Tenha
dom...
Permaneça
ilação,
Do canto
do sabiá,
Que me
levou,
A
voar...voar...

Passarinha
Ouça bem sabiá!
Aqui onde ponho o verso,
Sempre tem um lugar,
Não imite o beija-flor,
João-de-barro ou carcará,
Venha como andorinha,
Que sou dessas passarinhas,
Que demoram pra voar,
Vivo nomeando vento
Chamo graveto de tempo,
Faço uirapuru cantar,
Sou comadre duma águia,
De olho no pintassilgo
Que vem sempre passear,
Tropico com a cegonha,
Ouço muito a cotovia,
Pra de noite ir corujar...

É lá...
Lá onde a poesia se pronuncia
Mágica
pulsão que canta,
É preciso
dizer seu nome alto,
Mato,
calcário, flor de planta,
Lá onde
mote sara a mialgia
Minimalista artista da escrita,
É preciso
viver seu pesadelo,
Pêlo,
pandeiro, marguerita
É lá onde
vovô Geppetto aluou,
Num boneco
que é gente e fala,
Que é
preciso mala pra ver a rima,
Clima,
botina, boca que embala...
Ou então
se cala a mal dormida
Que
versava, sem fala... sem fala...

Distrai
Aquilo que me distrai nos versos
É uma
eterna puberdade
Folhas
secas no ancinho
O cravo
daquele docinho
A carícia
da verdade
A castanha
do recheio
A
diversão,o recreio
A volúpia
de ir à rima
A palavra
qual buzina
O rastilho
de uma pólvora
No celeiro
do poeta
Todo
frescor é aroma
A preguiça
da poltrona
A
felicidade concreta
O cantar
do canarinho
O açúcar
do vizinho
No caminho
da bicicleta...

DesconVerso II
As vezes não vou direto
Escrevo no
olho tonto
De soslaio
cato o tranco
Ponho
ponto ou contraponto
Tiro trema
e circunflexo
Desconverso o tema longo
Dou linha
se ele é complexo
Comungo
depois de pronto
Nem sempre
pontuo o tempo
Sonego no
breu do conto
Com a rima
travo encontro
No suspiro
...réu confesso...
Sendo
fruto bom eu peço
Pra versar
no escaninho
Piso lenta
este caminho
Que é pra
não espantar o verso...
Sigo luz
de vaga-lumes
Nas
entrelinhas no teto
Respiro o
ar do Universo
Sem
esquecer meu perfume...

Via
Num dente trincado
Na frase dita na rua,
O verso é capturado
Levantado pela grua,
Atirado na fornalha
Navegante pau a pique,
Solta fogo de palha,
Na canção pra Mucuripe,
Segura bala perdida
Dialoga com o cão,
É incremento de vida,
É bertalha com açafrão,
Um Romeu da Julieta
A caatinga chuvosa,
Termina rimando têta,
Começa rimando rosa,
Tem parte na Conchinchina,
Assunta o frio e a vala,
Vai no laço da menina
No violino do spalla,
É aplaudido e aflito
Ou traduzido e odiado,
Caminha onde é parado,
Encarcerado faz grito,
O verso olha e assovia,
Penetra forte com calma,
Quem dera fosse a via,
Pra gente que suja a alma...

Denguinho
Meu amor quando merenda
E vê um pé
de sapucaia
Sonha que
está me amando
Com a
malícia duma arraia
Colhe a
fruta mais linda
Que é pra
me degustar
Traz-me o
hálito fresco
Doce como
abelha uruçu
Forte como
pau de jatobá
Quando me
trunca no peito
Tonto de
ter convulsão,
É feito
formiga no corpo
Sopro de
asas de viração
Um punhado
de destino
Não cabe
na minha mão
Nem com
cigana e domínio
Nem com
profeta e visão
Nada nos
separa o ninho
Nada nos
põe ciúmes
Nem uma
gata no cio
Nem o vôo
de arribação...

Musa Lua
Tu que és grua poeta
Alerta o
andar de quem passa
Tuas
partes são tão pétalas...
Cantigas
de todas as fases
Por ti
velejam triunfantes
Os
náufragos todos achados...
Todo
cantor te cobiça
Muitos
sóis são enamorados
Teus
versos fazem poemas
Pessoas
traçam o mapa astral
Crianças
sempre desenham
O mar sob
o teu visual...
Alma de
mulher é lua
Que fita
do meu quintal...
Nina Araújo, poeta
carioca nascida em Botafogo, nos anos 60.
Autodidata, compositora, fã incondicional de choro
e samba carioca e do poeta Manoel de Barros.
Versa o seu cotidiano e a natureza pela visão de seus
intermináveis passeios de bike pela Cidade Maravilhosa,
e pelo Leblon, bairro onde reside há 25 anos.
Contatos com a autora:
ninaaraujopoesia@hotmail.com
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endereço:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
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