Poetas 3 x 4

Nancilia



O instante vivido

Ninguém poderá me tirar

O instante vivido,

O prazer de ter sido tua

E plenamente te possuído.

 
Ainda que me acorrentem

Eu te preservarei

Inteiro, vivo.

No meu interior

Eu te cultivarei

Ainda que me atormentem.

 
Podem quedar o meu corpo,

Maltratar minha mente,

Anular-me como mulher

E até mesmo como gente,

Mas nunca, nunca conseguirão roubar

O teu gosto na minha boca,

O teu toque na minha pele,

A tua palavra,

O teu sorriso,

A tua entrega.

Isto ninguém,

Ninguém poderá me furtar.


Estes detalhes

São partes integrantes de mim.

Estas coisas pequenas e infinitas

São minhas, são benditas,

Eu as conquistei através do amor,

Através da dor.

Delas não abro mão,

Não faço opção.


Daí a certeza intensa e forte

De seres meu eternamente.

Mesmo dentro da impossibilidade

E até depois da morte

Continuarei te amando intensamente

Nos mistérios da eternidade,

Porque...o instante vivido

Pode já não ser,

Mas sempre terá...sido.
 



Buquê de... beijos


Sabendo que vago pelas noites a lhe procurar,

Pegou o endereço certo do meu coração

E enviou um buquê de beijos para me consolar

Com a clara e firme prescrição:


“Deite-se com os olhos cerrados,

Com a alma  de sonhos, repleta,

Desfaça o buquê, tire os amarrados,

Os beijos vá espalhando irrequieta

Pelo corpo ávido de prazer

Que só no meu corpo se aquieta

E constata a razão do viver”.


Obediente, um a um os beijos vou pegando

E, prazerosamente, no corpo espalhando.


As pernas, o ventre, o rosto, os seios,

Cada parte de mim vai recebendo como pétalas de flor

Um beijo carinhoso, em suaves devaneios

Na certeza que são beijos de amor.

 
Depois deste ímpar ritual, prazeroso e quente,

Me sinto mais feminina, mais gente.

Estou pronta para dormir tranqüila, feliz,

Não sentirei angústia, medo ou frio

Pois você afastou meu amanhecer sombrio

Com o buquê de beijos que sempre... quis.
 



Ausência é falta


Minto quando escrevo

Que ausência não é falta.

É falta sim.

Falta dolorida,

Sentida.

Só hoje me atrevo

A dizer que é falta

Que me toca a entranha,

Me esgarça de maneira estranha.

 
Tua ausência é falta.

É querer sorrir

E não ver nos teus olhos

Este sorriso refletido.

É querer dar carinho

E não ter este carinho retribuído.

É querer falar

E só o eco escutar.

 
Ausência só não é falta

Quando existe a possibilidade,

Quando não é prolongada

E tem, iminente, a chegada.


Na tua ausência, na tua falta

Tento enganar minha mente

Com tuas lembranças,

Com falsas esperanças,

Mas meu corpo sente

E reclama

Tua presença na cama.


Tua ausência é falta sim.

Preciso do teu corpo dentro de mim.
 

 


Nancilia, escritora, poeta e pedagoga. Possui 20 obras publicadas. Gosta de estreitar a relação autor/leitor através das palestras, debates, conferências ou seminários que realiza nas escolas, bibliotecas e espaços culturais onde seus trabalhos são adotados ou utilizados. É Membro de diversas Academias e Instituições Culturais e/ou Sociais do País. Coordenou o 1º Fórum Cultural da Zona Oeste/RJ; participou de vários Congressos, do Fórum Cultural Mundial 2006 e do Seminário Planos Nacionais de Livro e Leitura do Mercosul. Orgulha-se de ser autora do Projeto de Descentralização da Cultura através de Coordenadorias Regionais, implantado em 2001, no Município do Rio de Janeiro. Em 1995, foi agraciada com a Medalha Tiradentes, concedida pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro; em 2004 honrada com o Prêmio Internacional Lions de Cultura e em 2003 e 2006 recebeu Moção de Louvor da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
 


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E-mail: nancilia.pereira@terra.com.br 

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