Poetas 3 x 4

Mônica Montone



Meu jardim


Eu daria o mundo

Por um canto em mim

Um pedaço de alma qualquer

Onde eu pudesse plantar a calma

Enfeitar meus afetos

E caber dentro do meu coração


Mas minha terra úmida

Está sempre tomada por outros grãos

Sementes de medo

Casulos de seda

Sede de ser única

 
Vago pelas noites

Como um vaga-lume pelas manhãs

 
No espelho, não me vejo

Pressinto, apenas, o gosto do gozo

O delírio de aceitar-me

E caber, finalmente

Neste corpo quente que me aquece

 



Balada do ser errante



Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa

Que tudo o que você fez ou faça

É tão somente para ser bem visto e bem quisto pelos outros

 
Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia

Nada mais é do que um pretexto para se esquivar da própria agonia

Da terrível e temível sensação

De não ser aceito

Não ser perfeito

 
Descobre que até as roupas que USA

São escolhidas por você como um passaporte

Um cartão de ouro

Capaz de abrir as portas do matadouro social

 
Descobre que seus amigos estão a seu lado

Não por admiração ou carinho

Mas porque você se esforça para ser especial

E porque eles podem lucrar algo

Nem que seja um telefonema no natal

Um cartão postal de viagens invejadas

 
Descobre que as pessoas não o conhecem

E não tem a menor idéia de quem você seja

Mas que no fundo elas não têm culpa disso

Pois foi você quem sempre fingiu ser o que não é


Depois de um tempo

Você descobre que nada disso faz sentido

Mas como está distante de tudo o que realmente é importante

Já não consegue voltar atrás!


Vive seus dias como um ser errante

À espera de um "milagre":

Casamento, parceiro, dinheiro, emprego, filhos, felicidade

 
E enquanto a cidade se agita

Sozinho no ninho

Você grita

E sente as dores de um parto que jamais aconteceu:

O seu!!!
 



Insistência


Da nuvem, a chuva

Do cacho, a uva

Da cidade, as ruas

Do anel, o dedo

Da tempestade, o medo

 
Todas as noites quando me deito

Quero saber o porquê das coisas

Insisto

Apesar de sentir que só existo

Por não saber de nada

E que por não saber

A poesia em mim deságua
 



Mônica Montone é formada em psicologia pela PUC-RIO. Autora do livro de poesia
"Mulher de Minutos". Está presente em diversas antologias poéticas e tem atuação
destacada na Internet, sendo
coordenadora e editora da coluna PONTO M no site de cultura www.culturall.com.br ,  tendo atuado como consultora sentimental, respondendo cartas dos
leitores e escrevendo matérias e artigos sobre relacionamentos, no site
www.vaidarcerto.com.br ,
e como editora de seu próprio Blog o Fina Flor
www.finaflormonicamente.zip.net .
 
Atuação constante na cena poética carioca, apresentando-se nos mais importantes recitais
de poesia na cidade. Além de atuar em diversos eventos poéticos pelo Brasil afora e no
Congresso de Cultura e Desenvolvimento de Cuba, 2003.  Colunista colaboradora
do fanzine PNOB, São Paulo. Produziu o Palavrão, primeiro programa
de poesia da TV brasileira; Canal Brasil, 2005/2006.


Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
E leia mais sobre a autora: http://www.almadepoeta.com/monica_montone.htm
E-mail: monicamontone@yahoo.com.br

Alma de Poeta
 
© Copyright 2000 / 2007 by Luiz Fernando Prôa