Poetas 3 x 4

Maristela Trindade



Vermelho
 

O amor, mesmo o branco é vermelho.

Vermelho.

Eu digo que te amo e digo "não te quero".

Não quero seu amor nem quero o meu.

Eu muito menos "quero" do que amo.

Não quero sua gaiola na minha cabeça.

Tão pouco nossas cabeças em nenhuma gaiola.

O amor sendo mundano te penetra,

sem pertences, sem tridentes, me acerta.

Faz parte do "eu amo" e não do “eu quero”.

Eu muito menos "quero", do que amo.

O amor, mesmo o branco é vermelho.

Vermelho.

Te amo.

 



Danço mais

 

Minha mente inventa amor, meu corpo, não.

Nada de amor quero inventar sozinha,

como não quero um corpo magro,

ressentido sem carícias.

 Prefiro o desmanche de tudo que provocas.

Ouço "vamos com calma", do mesmo que me acelera.

Confusa, lembro a mim que minha calma é plena de sentir,

 beijar, acoplar, dormir...

mas é em mim.

 

No outro, é outro jogo.

Eu não sei dançar bem esse carteado de homem caloso.

Sou dança espontânea com pés descalços.

Você vem, eu danço também.

Você vai, eu danço mais.

 



Pedrapalavra


Você escreve poemas

Por vezes escrevo pedras.

Elas pontiagudas me encontram

acústica.

 

Escrevo duro fazendo barulhos!

Dou minhas pedras as águas,

aos animais,

às possibilidades.

Escrevo e dou.

 

Provoco sons

com escrita dura.

Você escreve,

o outro inspira e eu

expiro pedraspalavras

 

Pego o soro como um bicho sedento,

coloco na narina e agüento.

Debocho do contínuo ....

pois, amanhã,

o que será?

 

Zombo dessa desordem orgânica

que me faz quase calcário em mutação.

Um pedaço de tonteira na beira do rio.

 

Rolo as pedras sem discernimento

do lugar para onde vamos.

Com pedras se pode brincar.

Já eu, por vezes.

escrevo pedras,

construo pedras

pedrapalavras

 

  



Maristela Trindade
é taurina, carioca, moradora de Botafogo,
terapeuta e preparadora corporal, atriz, educadora artística, produtora,
diretora e autora teatral ...  poetisa, sim senhor!

 Rainha da gang de poetas Ratos Di Versos ...

essa senhora mátria, rotineiramente sai dos bueiros da cidade,

toda rima, roe e corroe, redentora, as desesperanças da ratoeira e

 é salva pela poética da alma brasileira!

 Que os deuses do asfalto protejam os passos da bailarina encantada

 sob as poças de luz da cidade maravilhosa!
 


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