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Mario Quintana
(1906 – 1994) |
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Dulce
Helfer
Poesia
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
AH! OS RELÓGIOS
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...
O SILÊNCIO
Convivência entre o poeta e o leitor, só no
silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer
saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O
verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...
EU ESCREVI UM POEMA TRISTE
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de
madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem
compreender
nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um
espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.
RECORDO AINDA
Recordo ainda... e
nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS
A vida é uns deveres que nós trouxemos para
fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente ...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
SIMULTANEIDADE
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu
creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
Um bom poema é aquele que nos dá a impressão
de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!
PEQUENO ESCLARECIMENTO
Os poetas não são azuis nem nada, como
pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de
que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer
escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em
que escrevo e em que tu me lês.
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
OBSESSÃO DO MAR OCEANO
Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
DA OBSERVAÇÃO
Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...
DOS MUNDOS
Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.
DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
O MAPA
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
OS DEGRAUS
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
POEMINHA SENTIMENTAL
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
SEMPRE QUE CHOVE
Sempre que chove
Tudo faz tanto tempo...
E qualquer poema que acaso eu escreva
Vem sempre datado de 1779!
INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE
CEMITÉRIO
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"
O PIOR
O pior dos problemas da gente é que ninguém
tem nada com isso.
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde
encontrar o meu semelhante?
A GRANDE SURPRESA
Mas que susto não irão levar essas velhas
carolas se Deus existe mesmo...
EVOLUÇÃO
O que me impressiona, à vista de um macaco,
não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a
ser nosso futuro.
MÚSICA
O que mais me comove em música
São estas notas soltas
- pobres notas únicas -
Que do teclado arranca o afinador de pianos.
CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
PRESENÇA
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas
perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
IDADE DE SER FELIZ
Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar
e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito
de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos
os amores sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais
um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar
algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE
e tem a duração do instante que passa.
CLAREIRAS
Se um autor faz você voltar atrás na
leitura, seja de um período ou de uma simples frase, não o julgue profundo
demais, não fique complexado: o inferior é ele.
A atual crise de expressão, que tanto vem
alarmando a velha-guarda que morre mas não se entrega, não deve ser propriamente
de expressão, mas de pensamento. Como é que pode escrever certo quem não sabe ao
certo o que procura dizer?
Em meio à intrincada selva selvaggia de
nossa literatura encontram-se às vezes, no entanto, repousantes clareiras. E
clareira pertence à mesma família etimológica de clareza... Que o leitor me
desculpe umas considerações tão óbvias. É que eu desejava agradecer, o quanto
antes, o alerta repouso que me proporcionaram três livros que li na última
semana: Rio 1900 de Brito Broca, Fronteira, de Moysés Vellinho e
Alguns Estudos, de Carlos Dante de Moraes.
Porque, ao ler alguém que consegue
expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é
como se o estivéssemos pensando.
E, como também estive a folhear o velho
Pascall, na edição Globo, encontrei providencialmente em meu apoio estas
palavras, à pág. 23 dos Pensamentos:
"Quando deparamos com o estilo natural,
ficamos pasmados e encantados, como se esperássemos ver um autor e
encontrássemos um homem".
CARTA
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido
resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não
possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de
escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde
parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo);
é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de
instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma
descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga
emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso
há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os
pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a
posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é
tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio
Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito
bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única
contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque
estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos
, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E
eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me
ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O
Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais
humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o
poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que
seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é
essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim
autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam
apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te
aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre
poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste
conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas
meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer
pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como
escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se
discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que
poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é
que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às
vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em
qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por
vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de
associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira
conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo
para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a
falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois
noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão
bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento
lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o
essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for
com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais
belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta
constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto.
Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há
na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando
Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me
abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o
poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada
poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves
desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e
trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a
métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar
dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes,
obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham
ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia
nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria,
espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem
capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um
soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns,
as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos
(ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal:
não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te
recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá
seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o
espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia;
mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os
poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a
eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece
consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas
confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome
nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém.
É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus
versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
MARIO QUINTANA POR MARIO QUINTANA
(texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906.
Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale
sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela
arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo,
nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são
detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades
só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois
foi-nos prometida a eternidade.
Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1
grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois
achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo
como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac
Newton! Excusez du peu.
Prefiro citar a opinião dos outros sobre
mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que
escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de
auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada
disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos
a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a
longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma
(não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o
fato de ter sido prático de farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso
de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo – que
bem sabem ( ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.
Seguem
abaixo dois textos que circulam pela net, que dizem ser de Mario Quintana,
mas em sua obra não existe registro deles.
UM DIA (ou UM DIA DESCOBRIMOS)
Autor Desconhecido - Não é de
Mario Quintana!
Um dia descobrimos que beijar uma pessoa
para esquecer outra é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela....
Um dia nós percebemos que as mulheres tem
instinto "caçador"
e fazem qualquer homem sofrer...
Um dia descobrimos que se apaixonar é
inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de
amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos
atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como o
"bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca
te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase:
"Tu
te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Um dia percebemos que somos muito
importantes para alguém,
mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz
falta, mas aí já é tarde demais...
Enfim... um dia descobrimos que apesar de
viver quase um século
esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos
os
nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas
que nos atraem, para dizer tudo o que tem que ser dito naquele momento.
Não existe hora certa para dizer o que
sentimos se quem estiver te
ouvindo não te compreender, não te merecer...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de
algumas coisas na nossa
vida ou lutamos para realizar todas as nossas
loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco
compreenderá uma longa explicação.
Autor Desconhecido
O TEMPO
Autor Desconhecido - Não é de Mario Quintana!
Com o tempo, você vai percebendo que para
ser feliz com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar, não precisar
dela.
Percebe também que aquele alguém que você
ama (ou acha que ama)
e que não quer nada com você, definitivamente não é o
alguém da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e,
principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das
borboletas...
é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem
você estava procurando,
mas quem estava procurando por você!
Autor Desconhecido
A maior parte do material
apresentado nessa página foi obtido no excelente site:
http://www.releituras.com/index.asp
Alma de
Poeta
© Copyright 2000 / 2007 by Luiz Fernando Prôa