ESPERANÇAS MORTAS
Casas operárias
aportam na tela
da minha alma.
Nelas, o anoitecer
aguarda sob telhados
compridos
e olhares mudos
o adormecer das dores
Na brisa da manhã
raiada
pinta-se o nada
em todas as cores.
Nas enseadas abertas
de um céu deserto
todo o sentir é proibido.
Uma mirada apenas...
uma mirada
no compasso longo
dos adeuses...
Uma flor despedaçada
que não volta,
uma lágrima furtiva
que escapa de um olho.
Morro acima
ribanceira abaixo
a esperança
é uma joaninha perdida
em seu próprio vôo.
ESTAÇÃO 56
"... as têmporas da romã, as têmporas
da maçã, as têmporas da hortelã.
As pitangas temporãs. O tempo temporão..." Murilo
Mendes
Clamo no deserto
tardes inteiras...
Se você me ouve
saiba que o tempo,
delicada corda,
roubou a minha lira.
Minha voz,
em ecos repartida,
perde-se.
Mesmo assim,
reclamo minha herança:
esta terra desolada
que herdei dos meus
contemporâneos
plena de angústias.
Minha sede
minha fome
enganadora.
Enquanto burilo a alma
a vida salpica-me o rosto
de terra
areia lavada
barro
e cimento.
Resisto...
Faço as malas
Pego o trem da minha história
- Para onde?
Sou
Este sussurrar nas dobras
Do tempo - Sou
O que seria?
Seqüência infinita do sonho
De um sonho, de um sonho
Que não cessa...
[onda do mar que ressoa].
Sopro de um deus
Que nos caminha
Como um rio que não tem repouso...
[fogo indecifrável do deserto].
Anjo demenciando
incontáveis desvios para sorrir,
para chorar e esconder o rosto...
[neve deslizando das montanhas].
Acaso que apenas se cumpre
Acaso que se multiplica
Na profusão do querer ir e querer ficar...
[pássaro ferido em seu vôo].
Soma zero de uma equação
Abandonada
Enigma que não se explica
Ar que se respira...
Sou...
Até quando?

