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Maria Helena Sleutjes
VÔO LIVRE
Sobre
Portas abertas
E portas fechadas.
Sobre
Gritos que tumultuam
E vozes que agasalham,
Todas as minhas janelas
Estão escancaradas.
Dividida
Entre o medo e a ousadia,
Entre a realidade e a utopia,
Vou prosseguindo
Pela minha estrada.
Onde começa o céu,
Onde começa o mar,
Não sei direito.
Só sei que me vejo,
Noite e dia,
Em vôo livre projetada.

Amor Adolescente
O pior
não é envelhecer.
O pior é que não se envelhece.
Oscar Wilde
Por mãos
trêmulas
De negativas receosas
Um sonho
Num papel dobrado
É entregue
furtivamente
A quem se ama.
Seriam sonhos ou
poemas?
São poemas e
sonhos
Que caminham
juntos
Que se misturam
Como antigamente
Como sempre.
No papel dobrado
Uma pergunta:
Poderíamos em
algum
Momento sermos um?
Do alto do
campanário
Pequenos sinos
dobram
O universo
responde
Repetindo
loucamente
SIM! SIM! SIM!

Passaporte para o Nada
Caminante no hay camino,
sino estelas en el mar.
Antonio Machado
Sigo adiante
para fechar mais este capítulo
Incinero os lamentos do tempo
despeço-me das
palavras tortas
Escrevo para mim mesma
versos tristes
Meu tempo de chorar ausências
é chegado
Por um breve momento
no ar, a umidade pesa
e um vazio abissal
varre todas as minhas formas
Hoje, apenas hoje,
visto roupas desbotadas
e cerro minhas portas.
Uma sabiá molhada
saúda-me da janela
Meu pai me sorri
pelos seus olhos
ternamente.
Na rosa que orna a mesa
minha mãe me acena
suas mãos podem tocar as minhas
Choro
lágrimas nunca imaginadas
mas me recupero logo
não tenho vocação para tristezas
Olho a vida...
Por certo, com desconfiança
absurda que é
Como é absurda a morte
Apanho meu passaporte
para o nada
e sigo.

Três Pedrinhas
No arco do tempo
lá, onde o vento
faz a curva
Havia três pedrinhas
no rio da minha vida
Redondinhas
Lavadas
Lisinhas
Eram pedrinhas-passarinho
que pulavam
de galho em galho
Bicavam
gotas de orvalho
Bebiam
águas de chuva
Uma se chamava
Paixão
a outra se chamava
Dolores
e a última
Doce Ilusão.

No Ônibus
No ônibus,
Adormecida,
Sonho um verso
Maior que o poema,
Sonho uma estrela
Maior que a noite,
Sonho um castelo
Maior que a areia
E um sol
Maior que o infinito
Porque no sonho tudo é permitido.
Acordada,
Paro no tempo,
Observo as pessoas.
A parada no ponto,
O cochilo interrompido,
O sonho inacabado,
Os ideais adiados,
Os painéis da cidade.
A solidão das pessoas,
a poesia começada,
o barulho do asfalto,
O amor
Fugindo a galope,
As planícies passando,
A vida que voa.
No ônibus
Adormecida,
Sonho um sonho
Maior que o sono,
Sonho um dia
Maior que a eternidade,
Sonho um adeus
Maior que a saudade
E um amor
Maior que tudo
Porque no sonho tudo é permitido.
Acordada,
Sigo a estrada
Pensando na vida.
E a vida
Não troca de roupa,
E as pessoas
Não se despem das máscaras.
Acordam vencidas,
Vencidas adormecem,
A cada passo,
Vencidas
O olhar fugindo pela vidraça
E tudo que brilha
São luzes que passam.

Borboletas São?
Borboletas, como explicar?
São insetos...
Nem pensar!
São pedaços coloridos
Que voam.
Isto sim!
São as almas das flores
Visitando os jardins.
Isto sim!
Borboletas, como explicar?
São Lepidópteras...
Nem pensar!
São reflexos de anjos
Que flutuam.
Isto sim!
Borboletas
São pequenas bailarinas
São crianças dançarinas
Pedaços de serpentinas
No canto do meu olhar.

Nada Sei da Vida
Máscaras diferentes
desfilam
e
meus sentidos
se perdem
entre seus rumores.
Meus olhos...
Fecho meus olhos constantemente,
mas eles teimam
em perseguir algumas cores.
Querem ser os olhos avermelhados
do sol poente
atravessando os eucaliptos.
Querem ser os grandes faróis
da lua
perseguindo alguns amores.
Acham que podem
esquecer
que tudo desliza
e tomba
sob o alfange da morte.
Acham que podem
transformar
a vida
numa palavra escrita
à lápis
para passarem a borracha
sempre que errarem.
Mas o certo é que
desperto incerta
e imersa na mesma
amplidão
que não fixa
nem dá significado
a minha vida.

Agora
No passado nada está irremediavelmente
perdido mas tudo está
irrevogavelmente guardado.
Victor Frankl
No anoitecer
nossas almas se procuram
bailam e cantam eterna melodia.
No amanhecer
nossas almas se encontram
e mergulham nas cores
que matizam a vida.
Sorridente
a natureza emoldura a foto.
Somos.
Ventos festejam
misturando aromas.
Os dias têm sabor
de poesia
as noites
sabor de madrigais.
Ao desmistificar o tempo
nossas almas desabrocham
rindo.
Sabemos
o sol de hoje
não pode aquecer
sonhos de outrora
Mas aquece
docemente
o nosso agora.

Não Tenho Sonhos
...aqui me tenho sem mim.
Ferreira Gullar
O silêncio invadiu a
noite.
Pouco a pouco
o negrume tudo consome.
Meus olhos acesos,
lamparinas,
lutam contra o sono.
Não quero dormir,
não tenho sonhos.
Uma névoa úmida,
fria, desconhecida
ocupa os espaços,
toma conta de tudo.
Tenho pequena estrela
no céu das lembranças.
Que tremula,
prestes a apagar
na noite escura.
Tenho uma saudade
aninhada nos braços.
Que se debate
a esperar
sem esperança.
Furtivamente
reviro as gavetas do tempo,
à procura de um fósforo.
A névoa úmida,
como estátua, imóvel,
senta-se sobre meus escombros.
- Uma ilusão poderia me
fazer companhia agora?
Não mais poderia.
-
Estou aqui,
como sempre estive
olhos fosforescentes
Insones
Com a solidão
única amiga
constante
em minha vida.

Simplesmente Passarinho
A andorinha saiu correndo
atrás do vento
enquanto
entardecia.
Quanto mais o
tempo
passava, mais ela
o perseguia.
Deu voltas e mais
voltas
na varanda
e sob o telhado
da porta
fingiu não
conhecer
sua moradia.
Andorinha...
Andorinha...
Volta pr'a casa,
Andorinha!
Vai perder sua
morada!
Voando para o
galho da árvore
meus olhos de
menino
encontraram
bicando pitangas
meu coração
passarinho.

Oração de Poeta
No gramado
o sol nascente do Japão.
Lugar perfeito para
uma oração.
Mas como rezar
se ainda não sei amar?
Começarei perguntando:
Alguém viu o dono da vida?
Aquele que criou o mar
que hoje canta assustador?
Aquele que criou estas ondas
tão altas, espetáculos de luz e cores?
Alguém viu o dono da vida?
Aquele que criou estas flores
que me falam de renovação e poesia?
Aquele que desenhou este Rio das Ostras
para consolo das minhas esperanças idas?
Mas como rezar
se ainda não sei amar?
Então, apenas caminho
e abro meu coração ao vento:
- Alguém viu o dono da vida?
Não sei onde Ele está
mas posso ver as flores...
Não sei onde Ele está
mas posso admirar as ostras.
Não sei onde Ele está
mas posso sentir a brisa
E respirar profundamente,
A essência perfeita da vida.

Transformação
Colar
a face na terra
-
teu
rosto -
Sentir
tua
essência
Até me transformar
Num ser de argila
Novamente.
Atravessar descalça
Uma nascente pura
- teu corpo -
Até me transformar
Num ser aquático
Novamente.
Ou apenas,
Voar serenamente
Sobre o deserto
- tua alma -
Ultrapassar o frio
Vencer a fome
Domar o vento
Incinerar o sol ardente
Ousar seguir adiante
Simplesmente
- sem você de novo -
Imagens: Luiz F. Prôa
Maria Helena
Sleutjes é este sussurrar nas dobras do tempo.
Seqüência infinita do sonho de um sonho, de um sonho que não cessa...
Livros publicados:
Universidades Federais Brasileiras na berlinda – UFRRJ, 1998;
Presença: poesia – UFRRJ, 2001
(com Marcelo Ayala) - no prelo; Ana Balão - conto infantil ( no prelo).
Participa dos sites:
Usina das palavras: www.usinadaspalavras.com.br
Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/maria_helena_sleutjes.htm
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