Éramos
Apenas Estudantes

Pelos
Laços de Amor
Éramos Apenas Estudantes
Para sua comodidade, copie o conto para o Word e depois imprima.
Voltar
Aquele era um dia festivo. A cidade de Tebas, antiga capital do Egito, estava toda enfeitada. Suas ruas apinhadas de gente alegre, enchia-se de cores, adornando a rica e bela arquitetura Tebana.
As margens do rio Nilo estavam lotadas, a população assistia ao desfile das luxuosas embarcações, ricamente adornadas para o evento, transportando os nobres cidadãos, os sacerdotes de diversos templos, e a corte faraônica.
Era a Festa do Nilo, onde comemorava-se o transbordamento de suas águas, que fecundavam e nutriam os campos ressecados, preparando-os para um ano de fartura e excelentes colheitas.
Quando a embarcação real aportou, de lá saíram o Faraó, sua filha e um numeroso séquito. Foram transportados até o formoso palácio em que residiam, postando-se na elegante sacada, de onde poderiam assistir, próximo e confortavelmente, ao grande desfile promovido pelo Faraó. Quando, com opulência. ele demonstrava a força de seu exército, suas conquistas e a abundância de recursos de que dispunha.
O desfile iniciou-se com o exército e as armas de guerra, depois os tesouros das terras conquistadas, de seu imenso império. Tinha de tudo, ouro, prata, tapetes, tecidos, iguarias, tigres, leões, símios, cavalos, camelos, girafas e uma infinidade de outros animais e objetos diversos. Em seguida, diversos animais de carga trouxeram no lombo vários tecidos, tipos de cereais, grãos, frutas e comida preparada. Que eram distribuídos para a população, como de hábito nas festas da cidade, onde também da casa dos nobres e nos templos era ofertada grande sorte de alimentos e roupas.
Por fim, o nefando desfile dos derrotados de mais um povo despojado de sua independência. A Ásia, conquistada e tornada tributária dos Faraós, supria com vastos recursos o luxo e a riqueza da época, assim como introduzia no Egito, um pouco de seus refinamentos culturais e exóticos dos povos vencidos.
Neferti, a filha do Faraó, tinha o pensamento distante dali. Não lhe agradava aquele tipo de demonstração de força e riqueza, não se sentindo bem na posição de dominadora de outros povos. Porém sua condição não lhe deixava outra opção, já que dentro de pouco tempo assumiria a função de Faraó, pois seu pai estava muito velho e doente e ela era sua filha única.
Sua atenção foi atraída pelo prisioneiro, agora feito escravo, que vinha amarrado à frente dos outros. Seu porte belo de Apolo e suas feições emoldurando dois grandes olhos verdes a impressionaram, porém sua expressão digna e nobre, foi o que mais chamou sua atenção. O desfile enfim terminou, agora iria começar uma opulenta festa no palácio, que se estenderia noite a dentro, até o último participante desmaiar de embriaguez.
Passados alguns meses, Neferti ficou sabendo do virtuosismo de um jovem escravo na arte da pintura e da escultura. Como ela mesma era uma grande escultora, resolveu trazer o tal escravo para trabalhar em seu ateliê, onde criavam-se grandes obras de artes.
Foi com espanto que ela viu chegar o jovem escravo, era o mesmo que a impressionara no dia do desfile.
Logo de início ele mostrou-se arredio, dificultando uma maior aproximação. Porém os seus trabalhos eram de admirável beleza, encantando a todos que os viam.
Passado quase dois meses, Neferti resolveu retomar seu trabalho artístico, interrompido por outros afazeres.
Vendo que o escravo, que chamava-se Kenian, continuava arredio, resolveu aproximar-se.
- Kenian, seus trabalhos são maravilhosos, todos admiram sua criatividade e seu toque de artista.
O jovem não respondeu, deixando Neferti chateada.
- Podes dizer o que te fiz, para agires assim.
- Tirastes minha liberdade, sufocastes meu povo e tornastes um rei num reles escravo.
- Uma pessoa só pode ser julgada por seus atos e não pelas circunstâncias que a cercam. Por acaso este rei é você?
- Sim! Apesar de estar na pele de um escravo, um homem é aquilo que carrega em seu interior. Mesmo que sob o jugo de seu opressor.
- Vejo que me falas num tom de desafio, quando devias retribuir a forma pacífica de como me dirijo a ti. Sim, um homem é aquilo que carrega em seu interior, mas também aquilo que devolve ao exterior. Não concordo com a política de minha nação em subjugar outras e não lhe considero um escravo mas sim um ser humano, um espírito de valor e não me incomodo de reverenciá-lo como um rei, pois pelo menos nas artes, és rei. Quando julgamos alguém ou algo precipitadamente, corremos o risco de sermos injustos. A sabedoria recomenda paciência e observação, para podermos canalizar nossas intuições no rumo certo.
O comentário desarmou Kenian, pois viu que conversava com alguém de espírito nobre e de idéias ponderadas.
- Desculpe-me princesa Neferti se a julguei mal, mas ainda não me acostumei a minha nova condição.
- Está bem, então pelo menos aqui, neste espaço livre da arte, considere-se um homem livre e nos acaricie com suas obras. Que tal se formos amigos?
- Amigos então.
Livres da tensão do instante anterior, distenderam as feições, sorriram e pela primeira vez seus olhos encontraram-se.
Kenian nunca tinha visto beleza igual a de Neferti. Sua pele morena, seus cabelos castanhos, seus olhos amendoados, cor de mel, transmitiram-lhe uma tal mansuetude e bondade que o impressionaram tremendamente.
Trabalhando juntos quase todos os dias, uma forte união estabeleceu-se, que foi derivando para uma forte atração e daí para uma grande paixão foi um pulo. Os jovens não conseguindo controlar seus impulsos, deram vazão aos seus sentimentos, acabando por amarem-se livremente, porém, as escondidas.
Dois meses passaram. Aquele era um final de tarde onde o calor convidava a um descanso à sombra. Os dois estavam sentados num fresco caramanchão sossegado no extenso jardim da residência oficial do Faraó, na capital, trocando confidências amorosas.
- Trouxe-te um presente, toma.
- Obrigada! Nossa como é lindo Kenian! O que ele representa?
- É uma pequena escultura em mármore, como podes ver, com um casal unido pelas mãos e admirando-se nos olhos, unindo seus espíritos pela porta da íris. Somos nos dois.
- Meu amado, como fico feliz com esta prova de seu amor. Guardarei este mimo para a eternidade.
Enquanto trocavam juras de amor, não viram aproximar-se um sacerdote do Templo de Amon, que como suspeitando de algo, ficou escondido escutando a conversa íntima e comprometedora dos dois jovens namorados.
Despediram-se com ternura, já ansiosos para verem-se no dia seguinte.
Pela manhã Neferti foi despertada por uma serva de confiança, relatando-lhe a prisão de Kenian. Poucos instantes após entrava em seu aposento o Faraó em pessoa, dando ordem para que todos se retirassem.
- Neferti, com que direito desonras teu pai, o Faraó, senhor de todo o Egito? Não vez que com o poder que tenho posso te fulminar neste mesmo instante? Tens a sorte de seres a filha única e teres em seu destino o prosseguimento de meu reinado, se não lhe matava com minhas próprias mãos. Mas se não posso te tocar, me vingarei no escravo desprezível que tentou desonrar minha família.
- Não faça isto meu pai, ele não tem culpa.
- Cala-te! Não abras mais a boca, se não é tu quem serás emparedada e verás que quando a fome e a sede tornarem-se insuportáveis, o próprio organismo se auto digerirá, trazendo-lhe uma morte deveras apavorante e dolorosa. Amanhã será a execução da sentença, seu queridinho, ainda ganhará mais uns dias de vida. Por sinal, bem divertidos.
Quando o Faraó se retirou, Neferti entrou em desespero. Amava a Kenian com louca paixão, não suportava a idéia de vê-lo sofrendo uma morte cruel como aquela. Tinha de fazer alguma coisa. Lembrou-se que num esconderijo secreto em seu quarto, ela guardava num vidro um poderoso veneno, que imaginou nunca precisar usar, mas por precaução o mantinha guardado.
Seu amor por Kenian era maior que tudo. Maior que o poder material representado pelo cedro de comando do alto e do baixo Egito, que dentro em pouco carregaria como Faraó. Maior que qualquer um de seus mais íntimos desejos. Maior que sua própria vida.
O preço que seu amado pagaria por amá-la era muito alto. A morte pelo emparedamento era uma morte horrível. E ficar sem o homem que amava representava o fim de seus sonhos e da motivação para a vida.
Esta noite ela resolveria as coisas de sua maneira. Se a morte do corpo não representava o fim do espírito, como diziam os sacerdotes, um dia voltariam a se encontrar e essa esperança já a bastava.
Quando todos já dormiam no palácio, Neferti dirigiu-se a ala onde ficavam as celas dos prisioneiros. Chegando lá ordenou ao carcereiro que a levasse à cela de Kenian.
- Perdoe-me Neferti, filha do nosso grande Faraó, - que Amon o conceda longa vida - tenho ordens para não deixar ninguém ver o prisioneiro.
- Seu tolo, não temes por sua vida, sabes bem que dentro de pouco tempo o Faraó voltará para o mundo dos mortos e quem governará sou eu. Se não me permitires passar, prepare-te para apodrecer até a morte numa dessa celas imundas.
- Não faça isso princesa, sei ser um servo leal, te levarei agora mesmo à presença do prisioneiro. Ninguém precisa saber que vieste aqui.
Entrando na cela viu um vulto deitado ao chão. Dispensou o guarda e dirigiu-se ao preso.
- Kenian?
- Você aqui? Não devias ter vindo!
- Meu amor, não é hora de discutirmos, amanhã serás executado de uma forma terrível. Não quero que sofras, nem quero deixar-te ir sozinho. Trouxe aqui nossa libertação, bebamos e partamos juntos deste mundo.
- Nunca! Enfrentarei tudo e se eu sucumbir quero que vivas.
- Desta vez, dono de meu coração, não poderei te obedecer.
E tomando de seu frasco, ingeriu o nefasto veneno.
- Bebe meu amado, meu senhor, meu rei. Vem comigo agora para que nos encontremos em outra vida.
Falando isso deu um grito surdo levando a mão à garganta. Kenian a segurou nos braços e sem pensar mais em nada ingeriu a bebida venenosa.
- Beija-me que quero morrer em seus lábios.
A sombra do cárcere, o jovem casal se despedia num longo e apaixonado beijo. Em instantes ela foi ao chão e ele sem conseguir firmar-se também caiu.
Um carro seguia veloz por uma estrada de barro, deixando uma grande nuvem de poeira em seu rastro. Dentro dele um jovem de vinte e três anos com a expressão deprimida. Sentia-se como se já houvesse vivido uma eternidade. Dentro de seu peito uma saudade sem explicação. Sentia-se numa constante procura por alguém que não sabia nem se existia.
- Tem de haver, tem de existir quem procuro. Sinto-me perto e ao mesmo tempo longe dela, mas sinto no ar o cheiro e o sabor de alguém, que também me procura, me pressente, mas não me acha. Tenho de acreditar que minha alma gêmea existe, que está por perto, se não, como posso entender e suportar meu coração que chora e clama por ela, sem conseguir encontrá-la.
De repente um estouro, o carro derrapa na terra e somente com grande perícia, Edgar consegue controla-lo e parar. Desceu dele e constatando que um pneu havia furado, preparou-se para fazer a troca.
Efetivamente aquele não era seu dia de sorte. Havia se metido naquela estrada de barro, a caminho de Búzios, por vontade própria, mas arrependera-se pois ela estava toda esburacada. Furara um pneu e quase batera com o carro. Teria que trocá-lo embaixo de um sol das três da tarde em pleno verão. A sensação térmica naquele momento fazia a temperatura aparentar uns cinqüenta graus, um sufoco total.
- Boa tarde!
Edgar não entendeu nada, uma voz irreal soava às suas costas num tom quase angelical. Virou-se e viu uma menina com uniforme escolar montada em uma bicicleta.
- Boa tarde, apesar de não achar a tarde tão boa assim.
- Um ambiente se forma pelo fluxo que damos à energia que nos cerca.
- Como?
- Nós é que fazemos o ambiente que nos cerca bom ou mal.
- Talvez você tenha razão.
- Você quer um pouco de água fresca.
- Te agradeceria pois estou derretendo, o calor está horrível.
- Como disse, tudo depende de como vemos as coisas. O que vejo no momento é essa paisagem magnífica a nossa volta, o verde contrastando com o azul do céu. Se reparares, poderás ver pássaros em revoada soltando seu canto ou borboletas multi-coloridas a bailar entre as flores. O Sol gera a vida que vês, assim como o calor valoriza o frescor da noite.
Edgar ouvindo a moça parou o que estava fazendo e começou a reparar no ambiente que o cercava. Esqueceu o calor e constatou a sorte de ter sido obrigado a parar, para que pudesse observar a beleza da paisagem natural do lugar, que ao volante do carro em movimento, acabava passando despercebida. Aquela menina demonstrava uma grande sabedoria em suas palavras.
Pela primeira vez olhou-a de frente. Ela era muito bonita e bem maior do que aparentava de início. De repente sentiu um arrepio percorrer sua coluna, aquele não era o rosto que vira algumas vezes em seus sonhos? Aqueles olhos, cor de mel amendoados, de um olhar doce e inesquecível, aquela pele morena e os cabelos negros e longos, lisos e brilhantes, como alguém que algumas vezes invadia suas noites através dos sonhos. Ficou impressionadíssimo, mas tentou não deixar transparecer.
- Concordo contigo, eu estava tão preocupado com esses contratempos, que nem reparei no que estava a minha volta. Contudo, se não fossem eles, não a teria reencontrado.
- Reencontrado?
- É, mais ou menos isso, é que tenho a impressão que já a conhecia antes, apesar de nunca ter estado aqui.
Karina não disse nada, fingindo não dar atenção ao que ele dissera, mas por dentro dela um sinal dava o alarme. Ele havia chegado.
- Como você se chama?
- Karina. E o seu, qual é?
- Meu nome é Edgar. Desculpe a sinceridade, mas você é uma menina muito bonita.
- Não sou mais uma menina, sou uma moça e tenho dezesseis anos. Gostaria de saber se você precisa de ajuda e se quer mesmo um pouco de água fresca.
- Sim, claro, estou morto de sede!
- Então beba.
Enquanto bebia o copo d’água e depois quando trocava o pneu furado, os dois ficaram se olhando em silêncio.
- Se não fosse este pneu furado não teríamos nos encontrado, foi uma tremenda coincidência, e por sinal muito boa coincidência.
- As coincidências nunca acontecem por acaso, elas cruzam nosso caminho para nos mostrar uma direção a seguir.
- O que você quer dizer com isso?
- Que certamente não nos encontramos por acaso.
- Sim, também penso assim. Estou encantado com a forma com que expõe seu pensamento. Acredito que seja uma pessoa bastante bonita interiormente.
- Uma pessoa é aquilo que carrega dentro de seu interior, e principalmente, aquilo que irradia de si para o exterior.
- Um dia alguém já me disse isso e, apesar de não lembrar quem nem quando, concordo plenamente.
Eles estavam bem próximos um do outro, olhando-se fixamente e tentando decifrar o que lhes ia na alma. Usavam a porta da retina para adentrar no espírito um do outro. A proximidade fez com que seus corações disparassem e sensações esquisitas tomassem conta dos dois, como se lembranças e impressões do passado viessem a tona.
- Gostei realmente de você Karina, pena que esta tarde não será eterna.
- Edgar, quer ir a um lugar bonito?
- Agora?
- Sim!
- Então vamos.
Colocaram a bicicleta no bagageiro do carro e partiram. Eles estavam bem próximos à Arraial do Cabo e Karina levou-o ao Pontal do Atalaia, um local onde um braço montanhoso de terra invadia o mar, formando um acidente geográfico de rara beleza. Grandes penhascos se projetavam para o mar, entremeados de lindas praias selvagens de águas azuis e cristalinas.
Estacionaram num mirante natural que se projetava por sobre uma pequena praia. A vista era deslumbrante e agreste. Convidava a contemplação da paisagem.
Sentaram-se juntos e entregaram-se aos devaneios da mente, viajando na liberdade de seus pensamentos, para muito além do horizonte que fitavam.
- Karina, não sei o que se passa comigo. Nunca em minha vida senti meu coração tão calmo e harmonizado como agora. Apesar de ser novo, passei toda a minha vida em busca, pois uma necessidade que eu não sabia explicar, uma ansiedade permanente, me fazia ir atrás de uma coisa que eu não sabia o que era. Só que agora algo me diz, possivelmente minha intuição, que essa busca chegou ao fim.
- Suspeitei disto assim que te vi, pois também o procurava apesar de não ter certeza se o encontraria. A imagem de seu rosto não me é desconhecida. Já o vi algumas vezes em sonho, outras em desdobramento.
- Em desdobramento, o que é isto?
- Não sei explicar, mas posso tentar fazer com que você sinta.
- Quando puder, me ensine.
- Agora mesmo. Quer experimentar?
- Quero!
- Então vire-se para mim e me dê suas mãos. Feche os olhos e deixe livre sua mente, não pense mais em nada, somente sinta. Sinta o ar puro invadir seus pulmões, sinta o calor da tarde aquecendo seu corpo e a energia que cerca esse ambiente invadindo seus poros. Agora ouça os pássaros a cantar em revoada, o som distante do mar a banhar as pedras e a areia da praia, o som da brisa e das folhagens a balançar harmoniosamente. Agora vá aos poucos se desligando deste ambiente e comece a escutar somente o som do silêncio, o som que vem de seu interior, diretamente de sua alma e embarque docemente na viagem onde ela o levar. Este é um lugar mágico, sobre esta rocha durante séculos os membros da nação Tupy-guarani, vinham reverenciar a mãe natureza, este lugar está impregnado da energia que eles deixaram, mesmo depois deles, os verdadeiros donos dessas terras, terem sido exterminados pelo invasor europeu.
Edgar deixou-se levar pelas sensações, permitindo sua mente vagar pelos caminhos em que Karina o levava. De repente sentiu-se levemente atordoado, uma sensação de dormência tomou conta de seu corpo. Assustado abriu os olhos e sem que conseguisse acreditar no que via, viu Karina magnificamente vestida e coberta de jóias de imenso valor, piscou os olhos mas a visão continuou. Não era possível, mas a vestimenta era real, como trajes muito antigos, tipo egípcios. Reparou espantado que sua vestimenta também era antiga.
- Kenian, que emoção em te reencontrar, a tanto te procuro sem sucesso.
- Neferti meu amor, não acredito no que estou vendo, depois de tanto tempo voltamos a nos reencontrar.
- O tempo passou, mas meu amor por ti só fez crescer.
- O nosso amor atravessou milênios, e certamente reforçou-se com o tempo. Te prometo que nunca mais nos afastaremos.
Abraçaram-se e beijaram-se com a intensidade do amor e da saudade milenar que guardavam no peito. Deram-se as mãos e correram felizes, descendo a trilha natural que levava à pequena praia, bem abaixo do penhasco em que se encontravam. Como o calor ainda se fazia presente, tiraram as roupas e entraram na água fria e refrescante daquela linda praia. Brincaram à vontade, como crianças felizes quando ganham um presente. Depois cansados, deitaram-se na sombra de uma grande árvore.
- Kenian, o amor verdadeiro é a mais pura das energias e a ponte de ligação entre os espíritos, ultrapassando tudo. Nada pode destruí-lo. Está acima da racionalidade da matéria e da cronologia do tempo. Te amo com toda a força de meu ser. Minha energia está impregnada pela tua. Nunca mais nos separaremos, porque aquilo que a força divina uniu, nada será capaz de separar.
- Neferti, toda a minha essência está preenchida pelo amor que tenho por ti e sinto-me o homem mais feliz do universo. Não peço mais nada a divindade, somente que me deixe viver para sempre no paraíso de teus braços, de teus beijos e de teu amor.
A energia densa materializada em seus corpos, não precisava mais de palavras para expressar a energia sutil do amor que os unia. Amaram-se plenamente, colocando para fora toda a energia acumulada pelas dezenas de séculos que os separaram. A conjunção carnal e energética daquele momento, simbolizava a união perfeita do corpo e do espírito, da energia sublime e invisível do amor, com a densidade da atração sexual produzida pela matéria.
Extenuados pela troca e pelo desgaste de energia, acabaram adormecendo, acordando assustados quando já era de noite.
- Edgar, acorda que já está de noite e está fazendo um pouco de frio.
Edgar vendo Karina levantando-se nua como veio ao mundo, admirou a visão, mas um tanto atordoado, não entendeu nada.
- Karina, acabei de ter um sonho e gostaria muito que ele fosse de verdade. Agora acordo, vejo que tivemos momentos de intimidade mas não consigo me lembrar de nada.
- Edgar, e por que não dizer Kenian, o que viste não foi um sonho, somos nós que estamos aqui, eu sou a sua Neferti, só que agora com outra indumentária carnal. Entendes?
- Não muito, mas estou super feliz por ter a encontrado.
- Amanhã é sábado, quando você voltar de Búzios podemos nos ver.
- Combinado.
- Então me dê um beijo, já está muito tarde e tenho que voltar para casa.
Vestiram-se e trocaram um longo beijo.
- O que você tem no bolso?
- É uma escultura que vem passando pelas mãos das mulheres de minha família há séculos.
Kenian quando viu a escultura do casal de mãos dadas olhando-se nos olhos, lembrou-se do dia que a esculpira.
- É difícil de acreditar que uma escultura feita a milhares de anos, simbolizando nosso amor, esteja agora em nossas mãos. É realmente uma grande coincidência.
- Coincidências não existem.
Edgar levou-a até bem próximo de casa. No dia seguinte voltaram a encontrar-se no mesmo local, permitindo-se amar livremente como no dia anterior.
- Daqui a uns quinze dias no máximo, voltarei para cá e gostaria de conhecer seus pais e também pedi-la em casamento. Se isso for de seu agrado.
- Isso me deixa muito feliz, não quero perder você novamente.
- Prometo a você que nunca mais vamos nos separar.
Despediram-se demoradamente. Edgar saiu de lá radiante, não podia acreditar na sorte, encontrara o amor de Karina e resgatara o amor de Neferti. Depois de retornar pela agora agradabilíssima estrada de barro, atingiu o asfalto na direção do Rio. Não havia andado nem dois quilômetros quando uma grande carreta vinda na mão oposta invadiu sua pista e atingiu em cheio seu carro, destruindo e incendiando-o. Edgar foi lançado para fora do veículo voando, caindo desmaiado por sobre o asfalto. O auxílio veio rápido e ele foi removido para um hospital, quase sem vida. Ele resistiu aos ferimentos, mas caiu num coma profundo, ficando doze meses desacordado sobre uma cama de hospital. Um dia quando ninguém mais esperava, ele abriu os olhos saindo daquele estado, como quem tira uma soneca. Estava por demais debilitado e completamente esquecido de grande parte de sua memória. Aos poucos conforme começava a ser visitado por pessoas conhecidas, ia recuperando a memória dos fatos relacionados às pessoas que via. Somente uns vinte dias após ter acordado é que começou a lembrar dos dias anteriores ao acidente. Começou a ter sonhos em que se via na pele de Kenian e reencontrava sua amada Neferti. Aos poucos foi lembrando-se dos dias que antecederam o acidente. Lembrou de seu encontro com Neferti em Arraial e sentiu uma enorme vontade de ir procurá-la. Ao mesmo tempo achava tão surrealista aquele encontro, que julgava até não ter acontecido. Mas a sensação de vazio que sentia em relação à vida, não lhe deixava outra alternativa a não ser acreditar na possibilidade. Já que essa era a única coisa que importava e que ainda lhe prendia ao mundo.
Um mês e meio após o despertar, Edgar recebeu alta hospitalar, e apesar de ainda estar bastante debilitado, alugou um carro e partiu em direção a estrada de barro, que levava à Búzios. Ele não lembrava bem da localização da casa de Neferti, mas tinha certeza que a encontraria.
Chegando próximo ao local onde a encontrara, passou por três pequenos povoados muito parecidos. Não conseguiu lembrar-se qual dos três era o certo, acabou resolvendo procurar em todos.
Perguntou de casa em casa no primeiro e nada, fez o mesmo no segundo e também nada. Pela primeira vez começou a acreditar, que tudo aquilo deveria ter sido um sonho, porém não desistiu, perguntou novamente de casa em casa e ninguém sabia lhe informar. Bateu na porta da última casa, já totalmente desanimado. Uma senhora idosa abriu a porta com um largo sorriso, aquele era o primeiro sorriso que recebera naquele dia. - Como as pessoas andavam fechadas atualmente, - ele pensou - se soubessem o bem que faz dar ou receber um sorriso, suas vidas seriam melhores.
E realmente aquele sorriso o animou.
- Por favor senhora, há horas que procuro por uma pessoa, esta é a última casa que tenho para visitar, mas ninguém diz conhecê-la.
- Quem procuras, meu filho.
- É uma moça chamada Neferti.
A senhora sorriu enigmaticamente.
- Essa é a única referência que tens dela.
- Sim, sei que ela morava por aqui, mas até parece que ela nunca existiu. É uma moça de 16/17 anos, morena clara com os cabelos longos, negros e brilhantes. Seus olhos são amendoados, cor de mel.
- Havia uma moça que morou aqui com essa descrição, só que chamava-se Karina. Ela mudou-se com a mãe para Italva, cidade próxima a Itaperuna. Não sei o endereço certo, mas parece que ficava bem perto de um Ciep.
- Obrigado senhora, me ajudaste muito, pois agora sei que quem procuro existe, mesmo que com outro nome. Que Deus lhe pague esta informação.
Partiu na mesma hora para Italva, no norte fluminense. Hospedou-se num pequeno hotel. Iria a primeira hora do dia seguinte iniciar sua procura.
Logo pela manhã dirigiu-se ao Ciep e de lá começou as buscas. Foi novamente de porta em porta, sem sucesso. Ninguém tinha notícias da moça. Sentou-se na escadaria da pequena igreja daquele bairro, cabisbaixo, uma imensa tristeza envolveu-lhe totalmente.
- Meu filho, que tristeza é essa que contamina todo o ambiente.
Virando-se, Edgar viu a seu lado um homem já idoso vestido com trajes de padre.
- Desculpe padre se lhe importuno, já vou andando.
- Espere, não vais sair daqui como chegou, vamos conversar. O que lhe aflige meu jovem.
- É que procuro uma pessoa, que morava próximo à Búzios e me informaram que aqui eu a acharia, mas pelo visto ela não existe.
- Como é o nome desta pessoa?
- Me informaram que ela se chama Karina, é uma jovem linda a qual me apaixonei.
- Conheceste ela quando?
- Faz mais ou menos um ano e dois meses.
- Então saibas que o poder divino colocou-me a sua frente.
- Sério, o senhor conhece ela?
- Sim conheço, como conheço um cafajeste quando o vejo. Você desgraçou a vida daquela menina, em minhas preces, roguei para um dia te encontrar, pois queria ver o rosto desse sujeito mal e aproveitador, que usou da inocência de uma menina, para satisfazer seus mais baixos desejos. Sua inconseqüência provocou um enfarte no pai daquela menina, deixando-a órfã de pai. A mãe, morta de vergonha e desgosto, chegou nesta cidade em completa miséria carregando sua filha, uma menina ainda, grávida e desonrada. E foi você que provocou isto tudo. Por favor agora que já sabes das conseqüências de teus atos nefandos, suma daqui e nunca mais voltes.
- Mas...
- Vá agora se não chamo a polícia ou eu mesmo lhe expulso a tapas daqui.
- Espere, eu sumi pois sofri um acidente! Veja as marcas na minha cabeça e em meu peito, fiquei em coma por doze meses. Saí do hospital fazem três dias e a primeira coisa que resolvi fazer foi procurar por Neferti, digo, Karina, pois quero me casar com ela.
O padre não esperava por esta resposta. Sua consciência lhe doeu por ter julgado por tanto tempo erroneamente aquele rapaz, sem conhecer sua verdade.
- Desculpe meu filho se te julguei precipitadamente, as coisas agora mudam de figura. Vejo que não és culpado pelo infortúnio do destino. Sinto que tens um coração nobre, coberto de boas intenções. Ela mora um pouco longe daqui, mais iremos agora mesmo até lá.
- Vamos em meu carro.
Dirigiram-se a um sítio a meia hora de distância da cidade. Pararam em frente a um casebre extremamente pobre. De lá saiu uma senhora com os cabelos em desalinho e vestindo quase que farrapos. O padre pediu para que Edgar esperasse enquanto conversava com a mãe de Karina. Depois chamou-o para conversar com a mulher.
- Escute aqui meu rapaz, nós somos pessoas pobres e honestas. Não sei se acredito em sua história, mas se você fala a verdade e se me provar que ama mesmo minha filha, terá em mim a melhor das amigas, mas se estiver mentindo, prepare-se, pois me vingarei de você.
- Minha senhora, lamento tudo o que aconteceu com vocês, mas eu posso provar o que digo. Espero com o tempo lhe demonstrar o amor que sinto por sua filha.
Da porta do casebre ele viu surgir sua amada trazendo nos braços uma pequena criança. Aproximaram-se e se olharam firmemente nos olhos. Edgar deu um beijo na testa de seu filho, abraçou os dois com carinho e falou ao ouvido de Karina.
- Neferti, eu disse para você que nunca mais nos separaríamos. Estou aqui para cumprir minha palavra.
- Eu sabia que você voltaria, agora meu coração agora está em paz, Kenian.
O padre feliz com a boa ação praticada e o bom final daquele drama familiar, retirou-se com o sentimento do dever cumprido.
Naquela mesma noite Edgar convidou-as a voltar para região onde viviam. Compraria uma boa casa na cidade de Arraial do Cabo e poria fim à miséria enfrentada por elas. Ele dispunha de amplos recursos, deixados em seu nome por sua mãe como herança, dinheiro não faltaria para começarem uma nova vida juntos.
E tudo ocorreu como o planejado. Em tempo recorde adquiriram a casa e mobiliaram-na. O aspecto das duas mulheres e do menino, tornou-se outro, roupas novas e limpas, e uma expressão de alegria e tranqüilidade que a nova condição os trazia.
- Neferti, finalmente estamos juntos. A vida nos pertence, basta agora que saibamos vivê-la.
- Sim Kenian meu amor, que saibamos aproveitar a oportunidade de vivermos juntos novamente. Como disse, a vida nos pertence, assim também como o futuro.
- Que tal se fossemos agora para o Pontal, naquele mesmo local onde você me fez a reconhecer.
- Agora que as coisas se acomodaram e a mudança terminou, está na hora de voltarmos a aquele lugar mágico, onde nos revelamos.
A tarde caía emoldurada por um esplêndido pôr de sol, quando encostaram o carro à beira daquele penhasco de vista deslumbrante.
Felizes da vida e embalados por um longo beijo, que como se adivinhassem, de despedida, não perceberam que o carro, mal freiado, começou a movimentar-se. Antes que se dessem conta, o veículo precipitou-se e desabou no precipício, indo esborrachar-se em explosão na praia bela e selvagem, onde um dia haviam se amado.
Kenian acordou atordoado, não sabia onde estava, nem tinha consciência do que havia acontecido.
Um ancião vestido com uma simples túnica clara, aproximou-se dele.
- Como sente-se meu filho?
- Esquisito. Onde estou, o que se passou? Quero sair daqui e retornar a minha casa.
- Isto é impossível, pois já não pertences àquele mundo.
- Como? Então morri?
- Seu corpo carnal extinguiu-se,
- Não acredito, logo agora que encontrei Neferti, tínhamos uma vida inteira pela frente, como me separar dela novamente.
- Um dia vocês dois renunciaram a vida através do suicídio, quando deveriam tê-la vivido até o seu final, independentemente das circunstâncias. Em função disso, retardaram demasiadamente seu reencontro.
- Sim, mas agora era diferente, queríamos por demais viver, ter uma vida decente, não mais errar.
- Com certeza, porém às vezes é preciso perder uma coisa, para percebermos o valor real que ela tem. Somente tendo a consciência da morte do corpo físico a nos espreitar a cada instante e da urgência de executar a missão que nos foi programada para a vida atual, enquanto é tempo, saberemos que cada dia é o dia mais importante a ser vivido. Que cada momento é o momento de fazermos o melhor que pudermos. Que cada segundo deve ser valorizado como um pedaço do universo, que temos em nossas mãos para utilizar da melhor maneira, com justiça e dedicação, com prudência e coragem. Fazendo-o útil a humanidade e impregnando-o de amor, para que seja belo na conjunção dos segundos completando o minuto, dos minutos completando as horas, os dias, semanas, meses, anos, séculos, milênios e até a eternidade."
"Agora vocês sabem o valor da vida que retiraram no passado, pois adquiriram a consciência da perda, era necessário resgatar essa mancha que a milênios os acompanha, para que pudessem prosseguir na caminhada evolutiva, não desperdiçando um segundo sequer."
- Agora compreendo, essa é a lei do retorno, errei e devo pagar por meus erros. Mas e o menino, o que tem a ver com isso, ficará órfão e sofrerá as conseqüências dos erros dos pais?
- A lei do retorno não é uma sentença, mas uma oportunidade para revermos nossos erros e procurar consertá-los. Ela é individual, pois cada um traz consigo uma história do passado, uma missão e alguns acertos a serem feitos. A missão deste menino é junto a sua avó, em outra existência ela como mãe, e ele como filho, abandonou-o muito cedo a própria sorte, agora reencontram-se, para que ela cumpra o que não cumpriu no passado.
- Mas e Neferti, onde se encontra?
- Bem próxima a você. Nada mais impede que caminhem juntos. Vocês têm muito trabalho pela frente. A energia de luz que carregam, estará agora unida pelos laços do amor e multiplicada em suas potencialidades, tornando mais fácil e feliz o caminhar e mais útil e produtivo o trabalho."
"Siga por essa alameda até o final do jardim, lá chegando vire à esquerda e caminhe pela trilha mais uns trezentos metros até encontrar um caramanchão. Lá encontrarás uma pessoa que te espera."
"Que daqui para a frente o caminho dos dois siga sempre por uma estrada de luz e que vocês sejam muito felizes."
Kenian não pensou duas vezes e correu para encontrar aquela que magnetizara seu coração.
Encontrou-a deitada num banquinho junto ao caramanchão. Parecia estar adormecida, mantinha sobre seu peito, junto ao coração, um objeto seguro por suas duas delicadas mãos.
Kenian aproximou-se em silêncio, parou a seu lado e ficou a observá-la. Amava com toda intensidade aquela mulher e isso a fazia a mais bonita entre todas. Beijou-lhe delicadamente os lábios, fazendo involuntariamente que ela tomasse um pequeno susto, deixando cair o pequeno objeto, tão cuidadosamente guardado. Kenian com rapidez segurou-o antes que atingisse o chão. Era a pequena escultura que a alguns poucos milênios atrás, vivendo na pele de um escravo artesão, esculpira em homenagem ao amor que sentia por uma princesa.
- Kenian, nosso amor é forte e duradouro como esta escultura, resistindo à milênios sem perder sua intensidade e pureza. Que possamos seguir nossa caminhada conjugando cada vez mais nossa energia, unidos como as partículas deste mármore, de forma densa e impenetrável. Só assim poderemos prosseguir em escalada evolutiva, sublimando cada vez mais nossos espíritos, aperfeiçoando-nos através do trabalho e do amor que sentimos um pelo outro, utilizando esta energia nobre em benefício dos irmãos que nos cercam e da humanidade como um todo.
- Neferti, meu amor. Como sempre acaricias meus ouvidos com palavras sábias. Enfim estamos livres e conscientes para dar curso ao nosso amor. Nada mais pode nos separar, pois somos o todo, a união de duas partes, almas gêmeas, como estrelas, que por longo espaço de tempo vagaram dispersas pelo universo e agora encontram-se, unem-se, completam-se. Nada mais pode conter o brilho que se forma com a explosão de luz, produzida por dois corações que se amam com intensidade, que se amam na entrega, no respeito e na confiança mútua. Espero que o brilho do Sol possa nos mostrar o rumo, que é seguir em direção a luz, transformando-nos de cintilante estrela, num grande sol a iluminar os passos das demais estrelas.
- Que
sejamos então uma única energia, que por onde passar deixe em seu rastro, como
pétalas de amor, um pouco de sua essência, contribuindo de alguma forma para
embelezar e melhorar o universo em que vivemos.
Nós éramos apenas jovens. Amantes da vida, idealistas, visionários. Adeptos da música, da diversão e do amor livre. Não fazíamos mal a ninguém.
Nos conhecemos num acampamento em Búzios, na época em que aquela região ainda era pouco badalada e sua beleza agreste nos causava admiração e encantamento.
Éramos apenas estudantes. Sonhávamos com um mundo melhor, mais justo, mais humano. Lutávamos pela liberdade, contra o opressor, contra o tirano. Éramos pouco mais que crianças.
Eu tocava violão e ela adorava dançar. Eu tinha cabelos claros e olhos verdes, ela era morena, bonita, quase uma índia. Tínhamos apenas 17 anos e um milhão de planos.
Naquele final de semana prolongado, um grupo grande de estudantes armara acampamento na praia de Geribá. Era a calmaria antes da tempestade. Vivíamos tempos difíceis, o ano era 1968. A estudantada estava toda agitada. Queríamos democracia, lutávamos pelo fim da ditadura. O movimento estudantil estava em ebulição. O país prestes a pegar fogo.
Aquele feriadão parecia irreal perante à realidade em que vivíamos. Um paraíso em meio ao inferno que começava a surgir e que cobriria nosso país com uma nuvem negra de sangue e vergonha, durante um longo tempo.
Luana era seu nome, o meu, Rodrigo. A noite chegara e com ela um mar de estrelas a fundir-se ao mar gelado a nossa frente.
Vários grupos se formavam em volta das fogueiras acesas na praia.
A maioria tecia planos de luta para enfrentar o regime militar. Outros, como eu, preferiam se divertir e relaxar aproveitando aqueles agradáveis momentos de tranqüilidade. Instantes em que esquecíamos do mundo e, aos vapores do álcool e nas sensações da alegria, nos soltávamos de pudores, vergonhas e bobeiras nos divertindo e rindo à vontade.
Eu estava tocando violão. De olhos fechados viajava na melodia da música. O sonho ainda não havia acabado. John e Paul falavam através de suas canções a mesma linguagem que a nossa.
Abri os olhos e lá estava ela, com uma sensualidade que eu ainda não havia visto, dançando como que para mim. Agia como a cobra naja ao som da flauta. Viajei naquela imagem/miragem enquanto pude. Não ousei daí para frente dar intervalo entre as músicas. Queria eternizar aquele momento não parando de tocar.
Quando meus dedos ficaram cansados, parei e passei o violão para um amigo. Ele começou a tocar MPB. Minha deusa sentou-se e passou a me fitar docemente.
Meio sem jeito sorri, sendo retribuído pelo sorriso mais lindo que vi em minha vida. Não resistindo levantei-me, fui até ela e chamei-a para dar uma volta.
Saímos caminhando pela areia em silêncio, cada qual entregue à profundeza de seus pensamentos. Fomos até o costão, onde uma pedra enorme subia imponente em direção ao céu. Uma nascente corria encostada na pedra em direção ao mar, depois virava à direita ameaçando voltar e novamente seguia em direção à água. Na curva produzida pelo desvio uma pequena piscina se formara. Suas bordas pareciam bancos a nos convidar a sentar. E foi o que fizemos, tiramos os tênis, sentamos e colocamos os pés na piscina. Ao primeiro contato com a água, gelaram, mas poucos instante depois, adaptando-se, sentiram-se como que abrigados, e a água antes parecendo fria tornou-se morna, pois o vento a seu exterior tinha a temperatura bem mais baixa.
Luana, com extrema naturalidade, foi tirando a roupa e entrando lentamente na pequena piscina, submergindo até cobrir o pescoço. Olhava-me ternamente como que esperando que eu também entrasse.
Apesar de achar uma loucura, também fui tirando a roupa e entrando. Após o choque inicial, a brandura da água me envolveu e comecei a senti-la morna e protetora.
Por incrível que pareça, apesar da beleza estonteante de minha nova amiga, nossas ações eram tão naturais, que não abriam espaço para pensamentos maldosos. Estávamos ali não como um homem e uma mulher, mas como dois amigos de afinidade instantânea. Compartilhávamos momentos de interação com a mãe natureza, integrados num de seus principais elementos, a água. E com a cabeça encostada no pequeno barranco daquela alva areia, observávamos a maior expressão de infinitude e grandeza da natureza, o universo. Um imenso oceano de estrelas era testemunha muda de nossa nudez, de nossa ingenuidade, de nossa pureza.
Após cerca de meia hora, saímos da água e um vento frio gelou-nos. Vestimos as roupas, colocamos os casacos e voltamos a andar.
Depois de um tempo ela parou, olhou fundo em meus olhos e convidou-me a sentar. Sentamos.
- Meu nome é Luana, e o seu, qual é?
- O meu é Rodrigo.
- Obrigado pela música, você toca muito bem.
- Obrigado pela dança, você é excelente dançarina.
Nós dois rimos bastante. Era o início de um entendimento.
- Sabe Rodrigo, na vida às vezes precisamos nos deixar guiar pela intuição. A pouco eu estava sentada próximo à beira d'água, sozinha, entregue aos devaneios de minha alma. Sentia-me triste e um tanto preocupada. Não sei até onde essa situação irá nos levar. A barra está ficando pesada. Sinto vontade de me afastar por completo desse cenário político atual.
- Acalme-se Luana, os estudantes estão unidos, a união faz a força, a ditadura não vai nos dobrar. Este é um momento histórico e mesmo que não queira você já faz parte dele, não há como fugir.
- Infelizmente eu sei, mas não era isso que queria falar. Como disse, eu estava me sentindo solitária, triste e incompleta. Conversava com o universo, buscando uma indicação de rumo para minha vida. Foi quando tive a impressão de escutar uma voz dizer a meu ouvido: Siga seu instinto, siga sua intuição!
"Olhei para os lados e não vi ninguém. Outra vez ouvi a mesma voz e a mesma frase. Procurei concentrar-me para ver se escutava mais alguma coisa. Foi quando escutei o som de um violão que tocava uma canção dos Beatles. Era minha música preferida. Daí deixei meu instinto me levar. Entreguei meu corpo à sua melodia. Quando vi, dançava para você, hipnotizada e entregue. Quando me dei conta, eu estava dentro d'água e observava nua o universo, não mais triste, mas alegre, forte, inteira. Senti você bem próximo de mim, compartilhando a mesma energia e sintonia em que me encontrava. Agora sinto você ao meu lado, me transmitindo paz e segurança. Minha roupa está toda úmida, estou com frio, mas aqui juntinho de você capto o calor que emana de seu corpo e a energia de seu espírito. E gosto do que estou sentindo.
- Luana, só tenho a agradecer ao universo por trazê-la para tão perto de mim. Quando a vi ali dançando, pensei ter visto uma deusa, uma miragem. Era como se você fosse a própria essência da música a bailar em ritmo sensual. Contudo você é real e recebe minha amizade com a espontaneidade de velhos amigos. Mostra-se sensível e me trata com carinho em suas palavras. Confesso que não quero só sua amizade. Me apaixonei assim que a vi. Se me aceitar serei o mais feliz dos namorados.
- Não sei o que o destino nos reserva, mas alguma coisa me diz que você será o único amor de minha vida.
- Assim espero.
O pacto de amor estabeleceu-se num longo e apaixonado beijo.
O vento frio aumentou sua intensidade.
- Rodrigo, eu estou congelando, é melhor nos recolhermos.
- Eu também acho, não vejo a hora de tirar essa roupa gelada e entrar num cobertor quentinho e seco.
- Agora é a pior hora, minha barraca está lotada e eu só trouxe esta roupa.
- É, eu também só trouxe esta roupa, mas estou sozinho na minha barraca. Quer dormir comigo? Garanto que você não vai se resfriar.
Os dois trocaram um sorriso cúmplice.
- Aceito. Mas prometa se comportar.
- Prometo! Agora vamos embora antes que congelemos.
Caminhamos até a barraca. Ela era pequena, para duas pessoas somente.
- Olha só, vou pegar minha toalha, vamos tirar a roupa e nos secar antes de entrar para não molhar a barraca.
E foi o que fizemos. Tiramos as roupas molhadas e frias e entramos. O chão da barraca estava forrado com jornal, por cima dele um coberto. Um segundo cobertor macio e gostoso serviu para nos cobrirmos.
Apesar do aconchego da barraca, nossos corpos estavam gelados e tremíamos de frio.
- Rodrigo, meu queixo não para de bater, por favor, me abrace, me aquece.
- Chega para cá que vou tentar passar um pouco de calor para você.
Abraçamo-nos. O contato do corpo nu de Luana junto ao meu fez-me estremecer mais ainda. Eu estava louco por aquela menina, mas nunca poderia imaginar um contato tão íntimo tão rápido assim.
O frio inicialmente inibiu meu corpo a reagir com normalidade. Abraçado, comecei a friccionar as costas dela, aquecendo-a.
- Meus pés estão gelados.
Sentei-me e comecei a friccionar com vigor seus frágeis pézinhos. A movimentação foi aos poucos nos aquecendo, assim como também aquecendo nossos instintos. Passei a massagear-lhe o corpo todo. Ela parou de tremer, meu frio também foi passando.
Aos poucos senti-me como no paraíso. Tocava aquele corpo com fascinação. Ele era perfeito e ela linda. O sangue começou a circular com vontade por minhas veias irrigando o corpo todo. Uma sensação de querer, de desejo assenhorou-se de mim quando senti que ela não estava insensível ao toque.
Deitei-me, abracei-a, nos beijamos com ardor. Senti seu corpo fremir quando nossos sexos se tocaram. Não havíamos planejado nada, não havia intenção explicita quando entramos na barraca, somente o desejo de nos protegermos mutuamente.
Dissipado o frio de nossos corpos, começamos a trocar calor. Aquela era com uma sensação inenarrável. Eu sentia o calor de suas pernas junto as minhas, o toque quente de seus mamilos em meu peito, o conforto de seu ventre junto ao meu.
Ondas de energia começaram a correr por nossos corpos. Nossa mente já não nos comandava. Nossos instintos emitiam vibrações que passaram a mover cada ato, cada ação, cada toque. Uma atração louca nos impulsionava um contra o outro. Já bastante excitados, nossos sexos se encontraram e se encaixaram na dança rítmica do amor. As sensações que por nossos corpos corriam, nos levavam ao máximo do prazer. Sua voz gemendo a meu ouvido, seu cheiro a envolver-me, um cheiro de cio, de fêmea, embriagavam-me ao extremo. O calor dos dois corpos em fricção fazia a barraca incendiar-se, nossas mentes nublarem. Sentíamos um roçar leve no fino solo do paraíso, como num sonho. Não estávamos mais ali, como quase a desfalecer, sentíamo-nos num turbilhão, num vácuo do tempo. Enfim voltamos à Terra e explodimos em prazer, num orgasmo colossal, intenso, feérico.
Passados os eflúvios do orgasmo, trocamos beijos e carinhos com extrema ternura durante longos e especiais minutos, até que o desgaste de energia nos trouxesse o sono reparador.
Voltamos ao Rio completamente enamorados. Os fortes tentáculos da paixão haviam nos envolvido e como um polvo nos levado para a profundeza do oceano. Um oceano habitado por sentimentos intensos, sensações desconhecidas e pelo misterioso mundo do amor, que só desvendamos quando nos deixamos livres e mergulhamos bem fundo em sua água pura e misteriosa.
Os acontecimentos se precipitaram. Os protestos foram intensificados. Um estudante foi morto num restaurante. Passeatas foram dissolvidas a patas de cavalos, cassetetes e bombas de gás. Uma lei nos foi imposta, um tal de AI-5, que em vez de assegurar algum direito, retirava todos os direitos elementares do homem, inaugurando uma época de barbárie e terror em nosso país.
Naquele dia eu caminhava em direção à casa de meus pais, onde residia, aborrecido e um tanto triste. A violenta repressão às manifestações pacíficas me revoltavam. Tinha vontade de largar tudo aquilo e desaparecer. Luana pensava da mesma forma, estava apavorada com o rumo das coisas. Todas as noites tinha pesadelos horríveis. Sonhava com perseguições e com mortes. Queria fugir dali comigo e ir morar no interior. Largar os estudos, a família e ir viver da terra. Naquela época eu a achava muito louca. Só o tempo foi capaz de me mostrar o quanto ela estava lúcida em suas propostas.
Chegando próximo a minha casa, observei uma movimentação estranha na porta. Um destacamento de soldados fortemente armados montava guarda. Vi sair pela porta um homem de terno que parecia ser o chefe deles. Meu pai saiu logo depois, empurrado por um soldado. Antes de entrar na viatura militar o homem andou em direção a meu pai e de dedo em riste falou aos gritos com ele. Não pude entender bem o que ele dizia, mas pude escutar muito bem um nome. O meu nome.
Gelei. Estavam me procurando. Escondi-me por trás de uma árvore paralisado. E se eles me vissem? Quis correr mas as pernas não aceitavam o comando. Talvez houvessem mais soldados espalhados pelo quarteirão. O que fazer? Para onde ir?
Naquele instante senti meus braços agarrados por trás. Tomei um susto tremendo. Eles haviam me encontrado.
- Rodrigo, venha!
Se não fosse aquela voz tão familiar, acho que teria mijado nas calças.
- Luana, o que você faz aqui?
- Vamos embora, no caminho conversamos.
Entramos na primeira rua à esquerda. Caminhamos silenciosos cerca de duzentos metros até entrar numa rua residencial bem calma.
- Luana, pode agora me explicar o que você faz aqui, não acabei de a deixar em casa?
- A polícia apareceu por lá logo assim que você saiu. Fugi pelos fundos da casa. Vim para cá atrás de ajuda, mas parece que também querem pegar você.
- Mas o que eles estão querendo? Não podem sair por aí prendendo gente.
- Podem e estão! Não esqueça que eles detém o poder. Encontrei com a Carlinha da faculdade de direito quando estava vindo para cá. Ela me disse que o governo mandou fechar os sindicatos, os diretórios acadêmicos, as associações, e tudo mais. Estão prendendo estudantes, trabalhadores, artistas e até deputados. A temporada de caça às bruxas começou.
- E agora, o que fazemos?
- A Carlinha e o irmão dela, o Paulinho, estão indo para o sítio do tio deles em Mangaratiba. Ela disse que se quisermos podemos ir para lá. Eu estive nele nas férias, sei como chegar. Vamos?
- Não vejo outro caminho. Eu tenho algum dinheiro, vamos direto para lá.
E assim começou um verdadeiro turbilhão em nossa vida. Apesar de não atuarmos intensivamente na luta estudantil e nem sermos dirigentes de nenhuma organização popular de resistência à ditadura militar, conhecíamos todo mundo e estávamos junto a algumas dessas lideranças em todos os eventos, pois éramos amigos deles. Por causa disso tínhamos entrado na lista negra da repressão.
Sentíamos vontade de desaparecer e ir para bem longe de tudo aquilo. Mas já não era possível. Fugíamos agora como criminosos perigosos, levando somente a roupa do corpo, o assombro e a vontade de não sermos presos.
No início pulávamos de lugar em lugar, ou como diziam, de aparelho em aparelho, com a polícia da repressão sempre a nossa cola. Nos sentíamos acuados, vítimas de uma grande injustiça. Aos poucos começamos a mudar. Diversos companheiros nossos começaram a aparecer mortos, pessoas que sabíamos completamente pacíficas, incapazes de praticar atos de violência, assim também como outros, que não tinham nada a ver com nossa luta, sofriam a perseguição nefasta da ditadura. Começaram a chegar notícias das violências praticadas nas prisões. A tortura alastrou-se por todo o país.
Já não podíamos ficar indiferentes, muito menos passivos ou na defensiva. Independente do que fizéssemos éramos caçados como animais. A revolta contra as injustiças invadira nosso peito. Iríamos agora reagir, lutar de todas as formas contra o perigoso e covarde inimigo.
Apesar de tudo, nosso amor crescia a cada dia, as dificuldades eram o maior tempero de nossa relação. Nossa união e companheirismo consolidavam nossos sentimentos. Cuidávamos um do outro com a preocupação e ternura que numa vida normal dificilmente existiria. Vivíamos numa guerra, amadurecíamos com ela e aprendíamos, pela via mais dura, o quanto a vida nos era importante.
Como dizia o poeta, "temos de ser duros, sem contudo perder a ternura".
Começamos a participar de diversas ações. Expúnhamos nossa vida em nome das vítimas inocentes que tombavam e dos que dentro dos cárceres resistiam heroicamente à tortura.
As ações tornavam-se cada vez mais perigosas. Uma noite escura, triste e fria toldava nossas mentes. Não conseguíamos vislumbrar futuro, somente a necessidade de sobreviver a cada dia.
Nosso amor crescia cada vez mais. Era um paradoxo em meio a tanto ódio. Mas era a única coisa que fazia ainda nos sentirmos humanos.
Aquela era uma manhã de domingo como muitas outras. Atravessávamos uma praça aquecida pelo sol, o Largo do Machado. As crianças brincavam com seus pais despreocupadas e felizes. Era um visão irreal para nós tão envolvidos que estávamos naquela guerra surda. Uma pequena menina correu em nossa direção, me entregou uma flor e foi embora. Sorrimos. Ofertei a flor para Luana. Ela sorriu e seu olhar me invadiu com a doçura e com a pureza de uma criança. Como ela era linda. Como era importante o amor que sentíamos. Nos beijamos e voltamos a nos olhar.
- Rodrigo, eu o amo mais do que tudo, serei sua para o resto de nossas vidas.
- Você é tudo para mim. Um dia isso tudo irá passar, poderemos ser felizes e ter uma vida tranqüila. Quero muito ser o pai de seus filhos.
- Jura? Pois saiba que estou desconfiando que...
- Parados vocês dois aí!
Olhei para trás e vi dois homens de terno vindo em nossa direção.
- Sujou Luana, corre!
Os homens começaram a atirar e o tempo fechou naquele domingo de sol. Pais, mães, filhos, babás, avós, saíram todos numa correria louca enquanto os dois loucos de terno atiravam em nossa direção. Aproveitamos o tumulto para sumir na multidão. De repente senti uma forte dor nas costas e não vi mais nada.
Acordei com uma forte ardência no rosto. Abri os olhos e não reconheci onde estava. Vi quatro homens rindo em volta da cama onde me encontrava. Eu havia sido acordado com um tapa. Tentei me levantar mas uma dor lancinante no peito me fez deitar novamente. Eles riram mais ainda.
- Acabou a brincadeira, teu tempo de soldadinho de chumbo terminou. Daqui para frente vais ver quem manda nesse país.
Falando isso deu-me mais um tapa no rosto e um outro dos homens atingiu-me com um soco a ferida no peito, antes de saírem às gargalhadas.
Nunca tinha sentido uma dor tão grande quanto esta. Eu havia sido baleado nas costas e o projétil saíra em meu peito. Em meio a dor relembrei-me da praça, da Luana. Será que eles tinham-na prendido também? Não suportando a dor, desmaiei.
Acordei tempos depois ao som de gritos horripilantes. Gritos de dor, terror e suplício, que me gelaram o ser. Eu estava num tipo de enfermaria com três leitos. Eu deitado no do meio, ao meu lado um outro paciente todo machucado e o terceiro estava vazio.
- Eu se fosse você dava um jeito de não ficar bom, de preferência dar um jeito de morrer.
Fiquei escutando um tanto assustado o que ele dizia, sem lhe responder.
- Isto aqui é a sucursal do inferno, tenho pena de você que pelo jeito é novato. Não sabes o que o espera. Mais tarde eu acabo com isso, nunca mais vão me tocar a mão, eles não gostam de torturar cadáveres.
- Onde é que estamos? - Perguntei.
- No quartel da Barão de Mesquita. Já ouviste falar?
Meu corpo arrepiou-se todo, escutara histórias terríveis deste lugar. Não falei mais nada. Tentei dormir novamente.
Pouco depois escutei barulho de vozes. Entraram vários homens ali. Fingi estar dormindo. Colocaram um homem na cama ao lado.
- Manda vir rápido aqui o Dr. Lobo.
Eu observava as coisas por entre os cílios. Naquele instante ninguém importou-se comigo.
Chegou o médico, examinou-o e retirou-se da sala mandando chamar o chefe deles.
Olhei para o lado. O homem estava em estado deplorável, parecia morto. Sem que eu esperasse ele abriu os olhos, olhou para mim e tentou dizer:
- Meu nome é Rubens...
Sua cabeça pendeu para o lado. Minutos depois retiraram ele dali. Estava morto.
Escutei ainda do corredor o Doutor falando para alguém que eles tinham exagerado e que aquele homem era um deputado.
Tentei dormir outra vez e daí a pouco novo tumulto. Era na outra cama.
- Me solta, me larga, eu quero morrer, me deixem em paz!
Fiquei chocado. Não sei como ele havia conseguido cortar os pulsos. Sua cama estava coberta de sangue. Infelizmente, para ele, alguém havia descoberto e conseguido socorrê-lo a tempo.
Meu coração estava disparado, eu havia entrado num campo de horrores e não sabia como aquilo iria terminar. Meu pensamento naquele instante fixou-se em Luana. Onde ela estaria naquele momento?
Tentei dormir novamente. Um grande medo apoderou-se de mim. A qualquer momento seria minha vez.
Sonhei com Luana. Ela estava linda como sempre e me pedia para resistir, para ter coragem.
Acordei no meio do sonho com uns safanões.
- Qual é seu nome?
Olhei-os assustado, eram quatro novamente. Os mesmos.
- Faaala seu nome! - Gritou o outro a meu ouvido.
- Meu nome e Bino - disse o meu nome de guerra.
- Qual é seu nome verdadeiro?
- Meu nome é Bino.
Tomei um tapa certeiro no ouvido que me deixou atordoado e um pouco surdo.
- Para onde ela foi? Fala logo, não temos tempo a perder.
- Quem?
- A mulher que estava contigo.
- Eu não sei - senti dentro de mim um grande alívio. Ela havia conseguido fugir. Agora podiam fazer de mim o que quisessem pois ela estava à salvo. Eu precisava resistir pelo menos as primeiras 48 horas, para que meus amigos conseguissem fugir. Este era o combinado para quem caía nas mãos da repressão, resistir pelo menos dois dias antes de abrir a boca.
- Fala o nome da mulher! Fala seu nome verdadeiro!
Todos os quatro falavam, ou melhor, gritavam ao mesmo tempo.
- Eu não sei, eu não sei, eu não sei!
Eles começaram a rir.
- O menino tá ficando nervoso.
- Por favor senhores, calem-se por um minuto.
Falou o que parecia o chefe. Depois com voz extremamente paternal, segurou minha mão com certo carinho e me dirigiu a palavra.
- Rapaz, estaremos aqui por um longo tempo. Temos todo o tempo do mundo, se fores bonzinho nos poupará trabalho e serás bem tratado. A guerra está mesmo perdida para vocês. Os empresários investiram grana pesada nos serviços de inteligência, o governo trouxe agentes da CIA para nos dar treinamento, a maioria de vocês já está presa, o movimento está neutralizado. Pergunto-te mais um vez. Qual o nome da mulher e qual é seu nome?
- Meu nome é Bino. Nada mais tenho a falar... ...aaaaaaaaiiii, ai, ai.
Antes que eu tivesse tempo de terminar, o homem torceu meu polegar, quebrando-o. Que dor horrível senti. Ainda pude escutar as gargalhadas e o homem a dizer: - Rodrigo, da próxima vez fale a verdade. Não esqueça que mais cedo ou mais tarde a cadela vadia da Luana também estará em nossas mãos. Daqui a pouco nos vemos novamente.
É impossível descrever os momentos atrozes que passei na mão daquela gente.
Os dias seguintes foram iguais. Apesar de não me machucarem seriamente mais, vinham a todo instante com gritaria, xingamento e tapas. Resisti uns dez dias sem falar nada de comprometedor. Recebi alta e fui para uma cela. Um homem e uma mulher dividiam-na comigo. Eram destroços de gente, farrapos humanos.
Reconheci a mulher, era a Flávia, presidente de um diretório de estudantes, o homem era um dirigente de uma associação de moradores. Contaram-me tudo o que tinham passado. Horrorizado e comovido escutei o relato de Flávia. Eles haviam feito com ela, tudo o que se pode imaginar de monstruoso a uma mulher nas mãos de torturadores.
Minha mente entrou em parafuso. Era impossível imaginar o tamanho da perversidade humana. Sabia que logo seria a minha vez e tremia só de pensar nesse momento. A espera era angustiante. Passei horas rezando, pedindo para que o pesadelo acabasse. Torcendo para que eles nunca me chamassem. Não sei o que é pior, se a tortura em si ou a espera na ante-sala dos horrores. Gritos apavorantes atingiam meus ouvidos vindos de alguém sendo torturado. Certas horas eram gritos de mulher, outras de homem, num dia eram de velhos, noutro de garotos.
Mais um dia terminou e por sorte eles não vieram. A noite chegou, passou, a madrugada chegou e eu dormi até que um balde de água gelada me acordou.
- Acorda Rodriguinho, mamãe te espera para ir ao colégio.
Eles abriram a cela. Levantei-me assustado e recuei. Olhei para os outros dois companheiros ao chão e vi o medo em seus olhos e as lágrimas começarem a descer. Agarraram-me coloram um capuz e me retiraram da cela desferindo pancadas por todo meu corpo até chegarem na sala dos horrores, na câmara de tortura.
Podia evitar relatar a covardia, mas é preciso que todos saibam o que aconteceu para que isso nunca mais volte a ocorrer neste país.
O capuz era usado somente para aumentar o terror. Eles não tinham medo de mostrar a cara. Tiraram o capuz de minha cabeça. Uma luz intensa atingiu-me os olhos.
- Tira a roupa!
Não deu tempo nem para responder. Um fortíssimo tapa me jogou ao chão.
Começaram a me xingar, a gritar e me chutar.
- Tira logo a roupa!
E fui tirando do jeito que pude em meio as pancadas.
Amarram-me numa cadeira e começaram a me fazer diversas perguntas, entre mais tapas e telefones.
Eu fui falando tudo o que sabia, mas eles queriam saber mais, e mais, e mais. Eu já tinha falado tudo o que sabia, mas eles não estavam satisfeitos.
Começaram a me dar choques elétricos. Quando me lembro estremeço. Deram choques por todo canto, na boca, na língua, no peito, no pênis. Impossível descrever a dor.
Não satisfeitos me tiraram da cadeira e levaram-me em direção a um tanque com água. Agarraram-me os cabelos e enfiaram minha cabeça dentro do tanque. Pensei que queriam me afogar. Tentei lutar, pois estava sufocando, mas eles me seguraram e só me tiraram quando viram que eu ia me afogar. Respirei aliviado, foi só um segundo pois novamente me enfiaram na água. A sensação de afogamento é horrível, parece que o pulmão vai explodir. Me levantaram, eu estava tossindo, havia engolido água. Repetiram a operação diversas vezes. Me senti morrer e talvez isto fosse um alívio, mas o objetivo da tortura não é matar, mas manter vivo e fazer sofrer.
Quando achei que tinham acabado, me amarraram e colocaram-me no pau-de-arara. Somente o desconforto de estar ali amarrado e pendurado já seria tortura suficiente. Mas para eles não.
Ali pendurado e sem defesa, recebi golpes por todos os lados. Um batia com a mão, outro com cabo de aço, outro com um pedaço de pau e o último com um vergalhão. Chovia pancada por todo lado.
Me encheram de fios, sempre colocados nos lugares mais sensíveis. Por sinal, parecia que eles tinham fixação no órgão sexual masculino. Era sempre o lugar mais visado para pancadas e choques. Não esqueciam porém de dar atenção especial ao ferimento do tiro e ao dedo quebrado, que ainda não estavam cem por cento curados.
Mantinham-me molhado para aumentar o efeito dos choques. Apesar de não ser necessário, já que eu suava em bicas, sentia o corpo em brasas e os ossos moídos. Naquele momento até carícia doía.
Quando eu ameaçava desmaiar lá vinham eles com mais um balde de água fria no rosto
- Agora vamos ver se o menino é macho mesmo. É bem provável que depois de hoje ele deixe de ser.
Caíram todos na risada.
A princípio pensei que iam me capar. Mas foi pior.
- Está vendo este cassetete aqui - assustei-me com o tamanho do objeto - ele dá choque neném, vais adorar, nunca experimentaste um orgasmo tão intenso como o que te proporcionaremos hoje.
Me violentaram. Humilhação, dor, revolta. Impossível explicar meu estado de alma. Somente falar da dor, de muita dor, de lágrimas e de pena de mim mesmo. Nunca esquecerei daquele dia nem das gargalhadas que acompanharam o ato.
Me jogaram desmaiado de volta à cela. Daí para frente foi uma seqüência interminável de meses de tortura. Eu quase nada sabia de importante, mas eles achavam que eu sabia e seguiam com a tortura.
Eram todos psicopatas, contudo um deles me chamava a atenção. Toda vez que acabava um sessão de tortura, comigo acordado, todos saiam, só ele ficava. Trazia água e mostrava-se preocupado. No segundo dia em que fui torturado, depois que os outros se foram ele chegou perto de mim, olhou fundo em meus olhos e falou:
- Que raça de gente é você, vai se entregar, vai deixar que o matem? Você é um rato ou um homem? Lute, resista, sofra, mas saia daqui vivo! Entendeu? Saia daqui vivo. Confie em Deus e não desista.
Não consegui entender porque ele me disse isso. Sempre ao fim das sessões, nas quais ele também participava apesar de ser o menos agressivo, lá vinha ele, com palavras de carinho e conforto, um gole d'água, cigarro. Fica difícil de dizer isso, mas fiquei quase que amigo de meu algoz. Eles o chamavam de Sacristão.
Um dia um barulho incomum vinha da pequena janela de minha cela. Eu estava sozinho, a Flávia e o outro companheiro de cela, não haviam retornado da última ida à sala dos horrores. Nunca mais voltariam. Subi com bastante dificuldade até a pequena janela de grade, donde podia-se avistar o pátio interno do quartel. Lá fora um cena ficou gravada em minha mente.
Aqueles assassinos amarraram um jovem na traseira de um Jeep. Sua boca estava enfiada no cano de descarga do carro. Ficaram arrastando-o pelo pátio e se divertindo até ele não demonstrar sinais de vida. Tempos depois soube que assassinaram sua mãe, para silenciar a voz de quem tanto o procurava.
Era impossível acreditar que aqueles homens eram humanos, mas eram. Nenhum animal se prestaria a uma atitude dessas. Somente o homem é capaz disso. Triste raça.
Um dia as torturas pararam. Começaram a alimentar-me melhor. Não entendia bem o que se passava, mas dei graças a Deus por ter resistido àquilo tudo. Nos meus piores momentos o que me segurava era a fé em Deus e a vontade de um dia tornar toda essa barbárie conhecida em nosso país e fora dele.
Acordei um certo dia sendo novamente xingado. Não pude acreditar que as torturas iam se iniciar novamente.
- Levanta cachorro, veste essa roupa limpa que vais embora.
Que emoção senti naquele dia, que felicidade, ia poder voltar para casa de meus pais. Ia novamente rever meu amor, minha doce Luana.
Eu e mais alguns prisioneiros fomos postos numa viatura militar e saímos do quartel. Estava transbordante de alegria. Podia ver as ruas de minha cidade amada novamente.
Nos levaram a um aeroporto, fomos colocados num avião. Lá já estavam alguns amigos de luta. O avião decolou. Fomos levados para fora do país, um longo exílio iniciava-se naquele dia.
Graças ao seqüestro de um embaixador fomos salvos. Éramos o pagamento do resgate. Tempos depois fiquei sabendo que Luana havia participado do seqüestro, contudo nunca mais tive notícias suas.
Depois de muito rodar, estabeleci-me na França. Conseguia raramente estabelecer contato telefônico com meus pais. Eles através de um complicado processo de escalas, conseguiam enviar-me algum dinheiro.
Consegui trabalho, voltei a estudar, mas a saudade do Brasil, de minha família e principalmente de Luana me torturavam. O governo militar não podia mais torturar-me fisicamente, mas psicologicamente ainda torturava. Passei por momentos de grande depressão, algumas vezes tive vontade até de me matar. Mas por incrível que pareça, lembrava-me das palavras do sinistro Sacristão: "- Você é um homem ou um rato? Lute, resista, sofra, mas fique vivo".
Longos anos se passaram, formei-me, tornei-me um psiquiatra. Precisava de alguém para curar minhas seqüelas mentais. Eu mesmo.
Enfim o dia esperado chegou. Não podia acreditar, mas fomos anistiados, eu iria voltar ao Brasil. Quanta alegria.
Revi meus pais, meu país, meus amigos, mas não revi Luana. Ninguém sabia dela, nem sua própria família. Ela havia evaporado.
Procurei-a por muito tempo, fui a todos os lugares e a todas as pessoas que pudessem me dar informações e nada. Com certeza ela era uma das muitas vítimas da ditadura, enterrada em vala comum e desconhecida, ou jogada de avião enrolada em arame farpado, bem longe de nosso litoral.
Nunca mais eu veria aqueles olhos puros e belos, aquele sorriso gostoso. Nunca mais ouviria suas palavras de amor, nunca mais sentiria o toque suave de sua mão. Meu passado estava acabado, meu futuro incerto, sem brilho, sem propósito. Eu vivera os momentos mais felizes de minha vida ao lado daquela valorosa e sensível mulher. E agora, o que fazer? Vivi todos esses anos de separação forçada, acalentado pelo desejo do reencontro, seguro na firmeza de nosso amor. A muito desconfiava da verdade, mas ela era dura demais de reconhecer. Por um instante lembrei dela dançando para mim há tantos anos atrás. De sua voz meiga, de seu jeito amalucado de ser. Que guerra suja foi essa? Por que tanta violência? Éramos apenas estudantes!
Resolvi dedicar o resto de minha vida a psiquiatria. Aos doentes da mente e do espírito, assim como eu. Por algum milagre eu não tinha ficado louco, minha mente era uma sobrevivente. Mas meu espírito... ...este estava destroçado para sempre. Nada mais neste mundo me animava, me movia. Mas como me disseram um dia, eu não era um rato, mas um homem, e precisava prosseguir vivendo. Por isso dediquei minha vida a uma causa. Dar alento às mentes e corações desprovidas de objetivos, deslocadas da realidade. Assim como eu.
Um dia quando caminhava próximo ao meu trabalho, encontrei com Paulinho, o irmão da Carlinha. Fazia tanto tempo que não nos víamos.
- Oi meu amigo, quanto tempo se passou. Como você está? E a Carlinha?
- Vou vivendo. Eles tentaram, mas não conseguiram me destruir. Quanto a Carlinha...
Lágrimas de emoção banharam os olhos dele.
- Fala, o que foi?
- Ela não conseguiu se recuperar das torturas. Voltou para casa numa cadeira de rodas e completamente alienada da realidade.
- Lamento. Me diz uma coisa, eu posso visitá-la, sou psiquiatra, quem sabe não posso ajudar.
- Te agradeço Rodrigo, aceitaremos sua visita com o maior prazer. Contudo creio que o caso dela não tem retorno.
- Pode até ser, mas gostaria de vê-la. Também sofri. Luana se foi. Se eu puder ajudar a quem ficou, já me sinto um pouco melhor.
Fui então à casa deles à noite. Rever Carlinha me comoveu bastante. Ao invés de encontrar uma jovem sadia de vinte e oito anos, encontrei alguém que parecia ter setenta anos. Triste quadro. Seu estado não era nada bom. As lembranças dos velhos tempos e de Luana voltaram fortes e tive que me segurar.
Tentei conversar com ela mas o estado de alienação era completo. Ela ficava falando coisas desconexas, tinha o olhar distante, totalmente alheia à realidade exterior.
- Foram tempos difíceis aqueles.
- Sim Paulinho, foram e ainda são. As seqüelas ficaram. Nem os corpos de nossos entes queridos temos para lhes dar um enterro digno. Maldita ditadura!
- Rodrigo, é você Rodrigo? Ela mandou lhe dizer que o ama muito, que continuará sendo sua para o resto da vida...
- Como? O que falaste?
- Ela mandou lhe dizer que o ama muito, que continuará sendo sua para o resto da vida e que naquele dia na praça, os homens maus a interromperam e ela não pode lhe dizer que estava grávida.
- Grávida?
- Quando os homens maus a prenderam, ela estava junto com a filhinha dela, tinha quatro anos e era a cara da mãe, o nome dela era Rebeca.
- O que você está dizendo? Ela tinha uma filha? Ela ainda está viva?
- Os homens maus a mataram.
Dizendo isso Carlinha começou a chorar. Depois acalmou-se e voltou ao estado anterior de total alienação. Paulinho tentou travar um novo diálogo mas sem resultado.
- Paulinho, viu o que sua irmã disse? Eu tenho uma filha.
- Ouvi, mas será que isso não é fruto da imaginação dela?
- Não sei, talvez.
- Agora te digo, depois desses anos todos esta é a primeira vez que ela fala alguma coisa com nexo e essas são as primeiras lágrimas que derrama.
- Paulo, estou confuso, não sei o que faço. Mas uma coisa posso te falar, essa reação de Carlinha pode ser um indício de cura. Irei tratar dela e com fé em Deus conseguiremos fazer alguma coisa.
Saí da casa do Paulinho com a mente a mil. Quem sabe essa menina Rebeca não está viva, quem sabe não consigo encontrá-la. Se Carlinha está falando a verdade, Luana quis me dizer naquele dia na praça que estava grávida. Ah meu Deus! Obrigado por me dar um novo estímulo para a vida. Pode ser até que seja pura loucura de uma mente desordenada, mas o que seria do mundo se não fossem os loucos que sonham, que inventam, que às vezes acertam. Para mim pouco importava. Eu voltava a sonhar e isso era o que me animava, pois enquanto sonhamos vivemos, quando paramos de sonhar, de almejar, de querer, mesmo que o aparentemente impossível, deixamos de viver. Sim, era preciso a chama dos verdadeiros loucos para colocar o mundo em movimento. Eu iria dar vazão a um pouco de minha loucura e partir atrás deste novo e inverossímil sonho. O de encontrar um pouquinho de Luana, nem que fosse através de nossa filha.
A partir desse dia comecei a buscar informações sobre o paradeiro da menina. Fui aos jornais pedir ajuda ao público, talvez alguém tivesse alguma informação. Vasculhei os arquivos dos cartórios no período provável do nascimento, mas nada achei nem ninguém tinha notícias.
Novamente minhas esperanças começavam a esfriar. Novamente mergulhei de cabeça no trabalho. Me doava de corpo e alma a meus pacientes. Comecei a ir de encontro aos que não podiam vir a mim. Visitava sanatórios, asilos, ia na casa das pessoas que eu sabia precisar de ajuda. Eu sentia que era preciso dar atenção devida para aqueles que a vida leva a um desajuste emocional, pois somente assim teríamos menos doentes mentais a tratar no futuro. O desequilíbrio circunstancial pode acontecer com qualquer um. Se não apoiamos com carinho e atenção a quem passa uma fase difícil na vida, podemos deixar que essa pessoa passe a somatizar o problema, transferindo para o corpo esse desequilíbrio, vindo a afetar seriamente sua parte física ou psíquica, quando não as duas. Em função disso, eu procurava me doar ao máximo a quantos eu pudesse de alguma foram auxiliar.
Uma tarde estava eu estava atendendo os pacientes em meu consultório. Faltava ainda atender à última consulta, depois disso iria para minha ronda noturna pelos asilos e hospitais, onde buscava distribuir um pouco de afeto e calor humano, a tantos quantos precisassem.
Quando entrou o último paciente, eu estava já organizando minha mesa, distraído, pensando na tarefa noturna que nunca acabava antes de iniciada a madrugada. Peguei a ficha e vi o nome dele, Alberto.
Por favor senhor Alberto queira sentar-se. Quando o olhei para ele tomei um susto que quase me derrubou da cadeira. Apesar de muito mais velho, lá estava o meu torturador de nome Sacristão.
- Calma Doutor Rodrigo, não venho aqui para lhe trazer recordações. Venho para ofertar ajuda e quem sabe para reparar um pouco o mal que minha consciência insiste em cobrar.
Todas as cenas do passado voltaram a minha mente. Queria enxotar aquele homem dali, mas lembrei-me que se não fosse por sua ajuda eu não teria resistido e teria sucumbido às sessões de tortura.
- Rodrigo, sei que minha presença o incomoda, por isso procurarei ser rápido. Desde o seqüestro do embaixador sua companheira Luana foi procurada por todos os cantos do país. Ela sumiu durante longos quatro anos até ser presa com uma criança quando desembarcava na rodoviária, vinda de Minas. A criança e a mãe foram levadas ao lugar onde você esteve preso. Os chefes queriam dar fim à criança, pois Luana nunca mais sairia de lá. Pensaram em doar a criança para alguma família do exterior, mas depois desistiram e resolveram eliminá-la. Lembrando-me de você e já cansado de tantos abusos, furtivamente retirei a menina de lá e deixei-a num orfanato. Luana depois de muito resistir às torturas chegou nas últimas e mais uma vez agi. Retirei-a de lá e a larguei na porta de um pronto-socorro. Nunca mais tive notícias dela. Nos registros do hospital ela nunca deu entrada. Acredito que tenham-na descoberto e finalizado a tarefa, já que ela estava muito mal. Não sei se conseguirás encontrar sua filha, mas pelo menos deixo aqui o endereço do orfanato.
Sacristão levantou-se e foi saindo do consultório. Naquele instante eu não sabia se o agradecia ou se ia atrás dele esganá-lo.
Olhei para aquele papel. O orfanato ficava em Jacarepaguá. Coloquei-o no bolso e parti.
Chegando lá apresentei-me como médico e percorri curioso todo o orfanato. Infelizmente não achei nenhuma menina que se assemelhasse com Luana. Procurei por um funcionário antigo que pudesse me dar alguma informação. Acabei conversando com uma enfermeira.
- Eu estou procurando por uma menina morena tipo índia, que tenha em torno de dez anos, que foi deixada aqui no ano de 1975. A senhora a conheceu.
- Por que queres esse tipo de informação Doutor? Sabes que nesta casa temos que resguardar as nossas crianças.
- É por que esta menina é minha filha.
Um brilho emotivo transpareceu no olhar da enfermeira.
- Sendo assim, posso informar-lhe que entrou nesta casa por volta de 1975 uma menina com estas características. A chamávamos de mudinha, pois ela nunca falava. Na realidade seu nome era Rebeca, segundo disse o homem que a deixou aqui.
- Rebeca?
- Sim, Rebeca! Eu mesma a recebi. O homem antes de sair pediu para que a menina esperasse a mãe, pois um dia ela viria lhe buscar. E até hoje ela tem esperado.
- Ela ainda está aqui?
Senti meu coração disparar, a garganta dar um nó, minhas pernas tremerem.
- Sim, ela ainda está aqui. Fizemos de tudo para alguém adota-la, mas ela nunca quis ir com ninguém. Acho que ela ainda espera pela mãe. O problema da fala também tem dificultado a adoção. Quando Rebeca chegou aqui ainda falava e dizia sempre que esperava pela mãe. Com o tempo ela foi deixando de falar e se entristecendo, até que parou de vez e nunca mais ouvimos sua voz. Durante muito tempo senti raiva dessa mãe que abandonou esse anjinho deixando-o na ilusão do retorno.
- Não devemos julgar os outros sem conhecermos a verdade. A mãe da menina foi morta pela ditadura. O homem que a trouxe aqui era um torturador.
A enfermeira arregalou os olhos e arrependeu-se de seu pré julgamento.
- Perdoe-me senhor. Afeiçoei-me muito a esta menina que é um anjo em pessoa. Quando amamos alguém acabamos tomando partido e nos condoendo com sua sorte.
- Isso não mais importa, quero ver a menina. Já a procurei por toda parte, mas não vi nenhuma parecida com minha mulher.
- Rebeca adora música, ela deve estar lá em casa com meu marido. Ela adora escutar ele tocando violão.
Fomos até a casa que ficava próxima ao pavilhão central do orfanato.
Quando cheguei não pude deixar de me emocionar, na varanda da casa um senhor tocava alegre um violão e uma menina pequena e franzina dançava com um sorriso no rosto.
Ela era a imagem de Luana em miniatura. Quis me aproximar mas os sentimentos tão longamente guardados voltaram e atingiram-me com toda força. Voltei-me, encostei numa árvore e dei livre cursos às lágrimas que, atrás das pálpebras de concreto que eu havia construído para poder sobreviver a dor e a tristeza, desciam agora incontroláveis.
- Luana meu amor, obrigado pelo presente que me deixaste. Nossa filha é linda... como você e gosta de dançar. Nossas vidas foram destruídas, mas em seu nome e em nome dela eu juro tentar refazê-las. No passado prometi ser o pai de seus filhos e a partir de hoje começarei a cumprir minha promessa.
Procurei controlar-me, enxuguei as lágrimas e me aproximei da menina.
- Rebeca, tem aqui um moço que quer falar com você.
A menina instintivamente recuou e correu para os braços da enfermeira. Aproximei-me mansamente de minha filha, abaixei-me, olhei em seus olhos, tão doces e puros como os da mãe, com a única diferença que eram verdes como os meus.
- Rebeca, não precisas sentir medo. Depois de muito procurar te encontrei. Eu sou seu pai, sua mãe não pode vir mas eu vim te buscar, sua espera acabou.
Seus olhos como um cálice cheio até a borda e seus lábios a tremer demonstrando a emoção do momento, ficaram a me fitar por infinitos segundos.
Para espanto de todos a menina começou a falar.
- Você é meu pai? Onde está minha mãe?
- Ela não pôde vir, papai não sabe onde ela está. Eu tenho procurado mas ainda não a encontrei.
- Você promete que vai achá-la para mim.
- Prometo minha filha. Se sua mãe ainda habitar este mundo, um dia juntos nós a encontraremos.
O cálice transbordou inundando os lábios que agora sorriam, enquanto corria para os braços do pai. Um abraço amoroso uniu pai e filha, estes dois entes que a brutalidade humana havia durante tanto tempo privado da energia pura de um contato, pele a pele, de amor. As lágrimas se misturam e uniram suas dores do passado e a alegria do presente. A enfermeira e seu marido, muito emocionados, abraçaram-se aos dois, como que uma família, e também juntaram suas lágrimas naquele momento celeste.
Uma luz invisível iluminou naquele momento o ambiente, onde anjos voavam felizes ao redor da casa, entoando cânticos de sublime melodia.
O tempo passou rápido. Rebeca tornou-se uma bela moça e com carinho e cuidado extremado consegui atenuar um pouco a dor da perda e seus traumas de infância. E para grande alegria minha, pude ver nascer uma bailarina de primeira qualidade, alegre, bonita e sadia.
Continuei a seguir minha vida, agora com a felicidade do que havia herdado de Luana. Dividia meu tempo entre o consultório, entre a benção de poder ser um pai dedicado e as visitas aos deserdados da sorte, abandonados em asilos, orfanatos e sanatórios.
Continuei tratando de Carlinha, que aos poucos mostrava sinais de melhora.
Um dia quando atendia pacientes de um sanatório no interior do estado, uma mulher de longos cabelos negros me chamou a atenção. Sentada em uma cadeira, olhava para fora da janela, como se sua mente estivesse fixada em algum lugar do passado.
Aproximei-me e foi com um tremendo choque que mirei aqueles olhos estáticos e sem vida.
- Luana!
Não podia ser, parecia miragem, mas era ela, não havia como ter dúvida.
Ajoelhei-me e com lágrimas de emoção e alegria agradeci a Deus por aquela benção dos céus. Enfim traria para Rebeca a sua mãezinha tão esperada.
"Meu Pai!
Obrigado pela dádiva que me concedes neste momento,
Não Te mais peço nada para mim, pois me destes tudo,
Mas olhai, meu Pai, com carinho e devoção por todos aqueles que abandonaram a vida através da dor e da violência,
Preparai um lugar digno e tranqüilo para esses jovens mártires que partiram prematuramente e aqui deixaram corações saudosos,
Que depois desta vida todos possam voltar a se encontrar novamente,
E que os amores partidos possam de novo se unir,
E enfim encontrar a verdadeira felicidade,
Que como Disseste, não habita este mundo.
Que a fé possa aliviar o coração dos que ficaram,
Na certeza
de um reencontro feliz e inevitável."
A tarde chegava ao fim, os pássaros em revoada voltavam para suas casas. Dos olhos alheios de Luana uma lágrima caiu.
Rodrigo
home
galeria de arte
poetas em
destaque
poetas 3x4
poetas imortais
colunistas
cinema
teatro
concursos
páginas pessoais agenda
poética ebook entrevistas
histórico
Clique e entre
Alma de
Poeta
©Copyright 2000 / 2007 by Luiz Fernando Prôa