Causos

 

 

DIOLINDA

O VELÓRIO

A LOURA

A AMIGA

A GARÇONETE

A CIGANA

O ASSASSINATO

O CAVALO XERIFE

AS SARDINHAS

O FORASTEIRO

O TESOURO DO MAGO

UM CHAMADO INTERIOR

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Diolinda

Dizem que lá pelas bandas de Ribeirão, havia uma mulher chamada 
Diolinda que tinha dois rostos. Um virado para frente e outro para trás 
da cabeça. Por causa do defeito morava num lugar ermo, 
tão distante quanto a eternidade.

O que parecia defeito para uns, para Zé Raimundo e 
para Zé Antônio era qualidade. Eles eram os dois maridos de Diolinda. 

Cada um apaixonado por um lado dela.

Uma certa noite depois de muito amarem e de muita 
cachaça mamarem, entabularam uma discussão.

- Zé Raimundo, eu sou um homem de sorte, 
tenho a mulher mais perfeita do mundo.

- Aí que tu se engana Zé Antônio, a minha que é a melhor de todas.

- A minha enquanto eu beijo a boca, abraço ela segurando os peitos.

- Tu só pensa em indecência, a minha enquanto abraço 
e beijo me envolve num gostoso abraço.

- É, mais a minha não precisa virar as costas para roçar a 
bundinha em mim, já veio completa.

- A minha enquanto me encosto em seu ventre, 
descanso as mãos em sua bunda.

- A preferência dos brasileiros é a bunda, enquanto admiro seus 
olhos verdes aproveito e admiro seu traseiro.

- Mas eu admiro os olhos azuis de uma mulher completa, 
de peitinhos apontados para mim, enquanto tu admira 
uma cabeça com as orelhas invertidas.

- Assim você me ofende, pois saiba que enquanto ela dança para 
você rebola para mim.

- Vamos acabar com essa discussão seu cachaceiro, 
cada um que fique com a sua.

Dizendo isso pegou o machado e cortou Diolinda ao meio. 

Cada um ficou com um rosto. Infelizmente morto.

- Zé! A Diolinda morreu!

- Ah! Meu amigo! Morreu mesmo. 
Agora só nos resta chorar de saudade.


Às vezes é preciso aprender a dividir 
e se contentar com a parte que a vida nos dá, 
do que querer tudo e ficar sem nada.

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O velório

Aquele era o velório de Everaldino, uma rapaz moço 
vítima de uma congestão alimentar ocorrida depois de almoçar, 
num restaurante a quilo, um prato de 1 Kg e 200 g de bucho.

Os amigos e parentes velaram-no em Feira de Santana. 

Já passava das dez da noite quando chegou Arinelsom, 
seu irmão e melhor amigo.

Ele correu até o caixão, beijou a testa do irmão, 
abraçou sua mãe e seu pai, consolando-os Seu Nelson, 
pai do finado, não continha as lágrimas nem as lamentações.

- Ah meu filho! Por que não fui eu no lugar de seu irmão.

- Não fala isso pai! O lá de cima pode escutar.

Neste instante chegou ao velório Tobias, 
amigo das farras de Arinelsom e de Everaldino. 

Trazia numa sacola seis garrafas de cana e uma peça de mortadela inteira.

- Escutem todos. Durante toda vida o falecido nunca 
dispensou uma boa farra. Uma vez ele disse que gostaria que 
no seu velório, fizessem uma boa farra. 
Vamos ou não vamos fazer a vontade do "de cujus"?

Poucos instantes depois o silêncio da capela virou 
vozerio e gargalhadas. Arrumaram uns copos e todo 
mundo entrou na pinga. Fatiaram o morto, digo, a mortadela, 
ligaram um radinho de pilha e o arrasta-pé estava formado.

Com o cansaço da vigília e completamente embriagados, 
um a um dos farristas foram adormecendo. 

O último a cair foi Nelson. Mais curtido pelos anos de cachaça, 
bebeu até a última gota. Porém antes de apagar ouviu uma 
estranha voz que parecia vir do outro mundo.

- Nelson, suas preces foram ouvidas.

E ele foi ao chão.

De manhã, na hora do enterro, Arinelson e Everaldino 
abraçavam sua mãe, enquanto ela recebia as condolências de viúva.

Próximo ao túmulo dois amigos, Noé e Serafim, 
companheiros das farras do que partiu, cochichavam.

- Noé, eu podia jurar que ontem a noite estava velando o 
Everaldino e não o seu Nelson.

- Tu sabes que eu também! Mas quem está no caixão é seu Nelson. 
O Everaldino tá bem vivo.

- É melhor a gente calar a boca, se não vão pensar 
que nós bebemos demais ontem a noite.

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A loura



- Pai, conta aquela história outra vez.

- Que história tu quer que eu conte Severino?

- Aquela que te deixou com a boca torta.

- Cê sabe que não gosto de falar destas cousas.

- Ah pai! Conta vai, eu adoro ela.

- Tá bem filho, já que tu insistes.

"Um dia eu tava saindo da roça e resolvi ir até a tendinha de seu Raimundo. 
Ficava longe mas valia a pena, pois só lá que tinha uma cachaça 
amarelinha que vinha de Goiás, uma delícia. 
A cana tava tão boa que esqueci da hora. 
Faltavam trinta minutos pra meia-noite quando resolvi voltar pra casa.

- O Reginaldo, cê vai embora a essa hora? 
Dorme aqui mesmo, é muito chão até sua casa. 
Diz que anda aparecendo por aí, sempre à meia-noite, 
umas assombrações.

- O seu Raimundo, olha pra mim, vê se um cabra macho como eu tem 
medo de assombração.

- Bem, cê que sabe.

- Passe bem seu Raimundo, já vou indo.
E lá fui eu pela estrada de terra batida. 
Já fazia quase meia hora que eu ia andando. De repente comecei a
escutar passos que pareciam estar me seguindo. 
Parei, olhei para trás, mas não vi nada. 
Continuei andando e novamente escutei os passos. 
Parei outra vez, olhei e não tinha nada. 
Comecei a ficar nervoso e a andar
rápido. Escutei os passos atrás de mim aumentarem a velocidade. 
Parei então de súbito e me virei rápido.
Um arrepio me correu a espinha de cima a baixo com o que vi.

- E o que viu?

- A mulher mais linda do mundo, nuazinha como veio ao mundo.

- Uma mulher?
- Sim, eu pensava que as histórias eram tudo mentiras. 
Mas lá estava ela sorrindo para mim.

- Ela quem?

- A loura sem cabeça. Eu parei petrificado, queria fugir mas 
minhas pernas pareciam chumbadas no barro.

Aí ela veio andando em minha direção, me olhando. 
De repente a loura sem cabeça me agarrou 
e me deu um beijo na boca.

- Mas se ela não tinha cabeça, como te beijou?

- Isso eu não sei porque desmaiei na gostosura daqueles lábios. 
Acordei no dia seguinte com a boca torta.



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A amiga

 

- João, tu lembras da primeira vez que nos 
encontramos aqui neste banquinho da praça?

- Lembro sim Joaquim, era já de tardinha, 
o outono tava começando e as folhas das árvores 
caindo amareladas como se fossem prolongamento das cores do 
pôr de sol, como sempre acontece aqui em Paragominas.

- Pois é João, naquele dia eu estava aperreado, meio perdido na vida. 
E tu, num pileque que fazia gosto. Levantaste do banco 
trocando as pernas e tentaste subir na bicicleta, não conseguiste. 
Fizeste de tudo, querias empurrá-la, carregá-la nas costas, 
até que a montaste. Balançaste pra cá, balançaste pra lá 
e enfim conseguiste. Conseguiste dar duas pedaladas e 
se esborrachar no chão. 

A praça toda caiu na maior gargalhada. 
E você querendo mostrar que não estava bêbado, 
deste um espetáculo a parte para o povão, levantando 
e caindo embolado na bicicleta não sei quantas vezes, 
até não levantar mais. Não consigo esquecer, foi muito engraçado.

- É meu amigo, pois tu nem sabes o que se passou naquele dia. 
Fazia uns dias que eu vinha aqui na praça, 
sentava nesse banco e via uma linda moça sentada naquele banco 
ali da frente. Como ela era bonita, formosa e deixava o tornozelo 
a mostra, eu fiquei encantado. Mas não é que veio um velho 
e sentou em cima dela. Eu não entendi nada. 
Ela não havia se levantado e nem tampouco saído de lá. 
Aí todo dia eu voltava e lá estava ela. Parecia que só eu a via. 
E foi assim, pensei até que tava ficando maluco. 
Naquele dia sentei aqui com uma garrafa de "mangüaça" e 
resolvi pagar pra ver. Fiquei encarando-a insistentemente. 
Pela primeira vez ela sorriu para mim. Fiquei todo prosa. 
Não demorou muito veio alguém e sentou sobre ela. 
Aí eu não agüentei e olhando-a espantado dei a primeira golada, 
a segunda e quanto mais ela olhava para mim e ria mais 
eu levava o gargalo à garganta. Quando resolvi ir ao encontro dela, 
ela sorriu mais uma vez e como nuvem desmanchou-se no ar, 
sumiu. Eu não sabia se tava mamado demais ou se 
tinha visto um fantasma. 
Levantei-me e foi aquele vexame histórico que você bem se lembra.

- É João, disso eu me lembro bem e foi muito divertido. 
Eu que estava aporrinhado, saí daqui rindo um bocado. 
E por falar nisso João, estamos aqui os três, papo vai papo vem 
e tu até agora não me apresentou sua amiga aí do lado. 
Vai me dar a honra?

- Que amiga?


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A garçonete

 

A noite estava quente, Eurípedes caminhava solitário 
pela rua e como era de costume parou no bar do 
Tião para fazer um lanche.

Uma nova garçonete veio atendê-lo. 
Quando a viu se apaixonou, era uma morena linda.

Com a conversa mole, de mineiro, conquistou as graças da moça.

Esperou-a sair do trabalho, se entenderam e começaram a namorar. 
Entre beijos e amassos ela acabou indo dormir com ele.

Foi uma noite de amor como ele nunca tinha tido. 
Ela era a mais linda e gostosa das mulheres que conhecera. 
Dormiram agarradinhos.

Ele teve sonhos lindos durante a noite e acordou realizado 
sentindo aquele corpo quente colado ao seu, as pernas entrelaçadas 
e o leve roçar da barba da moça em seu rosto.

Eurípedes deu um pulo da cama. Deitado nela, um barbado nu como 
veio ao mundo. De pronto expulsou-o de casa a baixo de pancada.

Dias depois voltou a sair com a garçonete. Nova noite prazerosa 
e de manhã o mesmo susto. Lá estava o barbado, 
que novamente tomou uma surra.

Cismado, dormiu outra noite com a morena e ao acordar, 
deu de cara com o homem nu.

- Se você não me explicar esta história de aparecer na minha cama, 
não sai daqui vivo.

- Calma Eurípedes, eu vou explicar. Isto acontece comigo desde pequena, 
de dia sou homem e de noite sou mulher.

- Então é isto seu sem vergonha, pois vais apanhar como nunca 
e vais sumir da minha vida. Deu-lhe nova surra.

Os dias foram passando e a saudade apertou. 
Antes de conhecer a morena vivia solitário e triste. 
Aqueles dias junto a ela tinham sido os melhores de sua vida. 
Foi então atrás da garçonete e resolveu aceitá-la do jeito que ela era.

Tiveram uma noite maravilhosa. De manhã, ao invés do barbado, 
lá estava ela, formosa e mais mulher do que nunca.

- Eurípedes, eu era vítima de um encanto. 
A partir do momento que você me aceitou como sou, quebrou-o. 
Agora serei mulher integralmente.

 

Aceite uma mulher como ela é que a terá por inteira para sempre.


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A cigana

 

Aquela era uma vila como outra qualquer, 
a não ser por uma velha cigana que ali morava e 
lia a sorte através do baralho.

Todo dia uma grande fila de consulentes se formava a sua porta.

Braulino, um velho negro alto e forte, esperava sua vez de ser atendido.

- Eu não acredito em bruxas, mas que dizem que elas existem, 
dizem - pensou.

Ele havia ido até lá procurando se curar de uma impotência crônica. 
Quando chegou sua vez, sentou-se a frente da cigana. 
Ela abriu o baralho para ele, analisou as cartas mas fechou-o rapidamente. 
Olhou firme nos olhos de Braulino e disse:

- Sua vida será sua morte.

- Minha senhora, vim aqui para me curar, não para escutar besteira.

- Por que não procuraste um médico então?

Ele levantou-se zangado, jogou o dinheiro sobre a mesa 
e já ia saindo quando ouviu ela dizer.

- Converse com a primeira loura que encontrar e seu problema será resolvido.

Ele deu de ombros e se foi. Ao sair da vila esbarrou numa loura. 
Coincidência? Puxou conversa e quando se deu conta já havia 
traçado a loura com o vigor de um adolescente.

Daí para frente teve uma série de experiências sexuais positivas. 
Sentiu-se o máximo, o mais sortudo dos homens.

Um certo dia, quando em plena ação sexual com uma linda oriental, 
pensou: - Nunca me senti tão bem, agora eu sei o que é viver. 
- No segundo seguinte um enfarto fulminante o matou.

Foi com dificuldade que os amigos conseguiram fechar o caixão, 
pois foi enterrado em plena forma física sexual, deixando a cigana, 
que também foi se despedir dele, 
muito feliz com a eficácia de seus poderes.

 

Nem sempre a vida nos dá tempo para gozar, plenamente, 
aquilo que tanto buscamos encontrar.


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O assassinato

 

Prezados Senhores, está aberta a sessão do Tribunal de Júri de 
Marumbi. Senhor Promotor Redealdo Delane, queira apresentar o caso. 
- Falou o juiz Leiniades Facto.

Senhoras e senhores, o caso é simples e requer condenação imediata 
do réu. O senhor Jocelino dos Patos, usando de ignóbil ardil, 
subtraiu a vaca de nome Chupeta da fazenda 
do Coronel Praxedes e assassinou-a.

Dr. Juiz Leiniades Facto, meu cliente é inocente. 
Gostaria que ele contasse sua versão dos fatos. 
- Interviu o advogado de defesa Dr. Abelardo Palermo.

Dr. Abelardo Palermo, dê a palavra a seu cliente.

Sr. Jocelino, queira expor os fatos para o Júri.

Eu não matei ninguém, a vaca Chupeta saiu por livre e espontânea 
vontade da fazendo do coronel Praxedes. Eu apenas mostrei o bilhete 
assinado pelo coronel, pedindo para que levasse 
a vítima para o matadouro do Dr. Promotor Redealdo.

Isso é um absurdo, não mandei bilhete nenhum – falou o promotor 
– que venha aqui o chefe do matadouro para esclarecer esta calúnia.

Com licença, sou Firmino Machado, o chefe do matadouro. 
Declaro que o passamento da chamada vaca Chupeta ocorreu sem dor. 
Era Domingo de manhã, eu estava em casa e recebi ordens 
por escrito do Sr. Promotor para fazer o serviço. 
Como me foi mandado, enviei as partes da finada para 
o açougue do advogado de defesa, Dr. Abelardo.

Novamente mentiras, não mandei bilhete nenhum. 
Eu queria saber o que o advogado, Dr. Abelardo, como 
receptador dos despojos da vítima, tem a dizer sobre o caso.

Naquele dia, eu já estava me arrumando para ir ao casamento 
da filha do Dr. Juiz com o filho do coronel Praxedes. 
Foi quando recebi um bilhete do Dr. Promotor para que 
acabasse com o corte da vítima, que agora sei ser a assassinada 
vaca Chupeta, pois a dita estava irreconhecível. Paguei bom preço 
e a revendi a preço módico ao Dr. Juiz, 
para que fosse servida no churrasco do casamento.

OH! - Exclamaram os presentes ao tribunal.

Silêncio na corte – falou o Juiz.

Senhor Juiz, mais calúnias contra mim, porém agora vemos, 
que ao que tudo indica, o senhor é o verdadeiro mandante do crime.

Eu? Pois saiba que comprei a carne da falecida por bom preço, de boa fé. 
Não imaginava que era carne de um crime, digo, fruto de um crime. 
Contudo, as provas indicam o senhor, Senhor Promotor, 
como o mandante do crime.

Se eu, que não mandei bilhete nenhum, sou o mandante, 
o Sr. Juiz juntamente com o Sr. Advogado são os receptadores 
dos despojos da assassinada, os quais foram servidos e 
degustados no casamento de sua filha, meritíssimo, 
com o filho do coronel, outro receptador.

Espera aí, a vítima é a minha vaquinha, a saudosa Chupeta, 
- pronunciou-se o Coronel Praxedes - como posso ser eu o acusado. 
Se é assim, que se prenda a todos. O Juiz, o Promotor, 
o Advogado, o Júri, formado pelas tias, primas e pela avó, 
respectivamente dos antes citados, assim como o público presente, 
já que todos estavam no casamento e 
deglutiram os restos mortais da assassinada.

A confusão estabeleceu-se no tribunal, com uns acusando aos outros. 
Quando a pancadaria parecia que ia iniciar-se, 
uma grande nuvem de fumaça, cheirando a churrasco, surgiu no recinto. 
De dentro da nuvem apareceu o espectro da vaca Chupeta. 
Todos recuaram assustados. A vaca então pronunciou-se.

- Para que a verdade seja restabelecida, tenho a declarar 
que fui eu que escrevi os bilhetes incriminando o Promotor. 
Eu queria me vingar dele, que quando pequeno 
vinha mamar nas minhas tetas e me botou este nome horrível 
pelo qual sou conhecida. Desgostosa da vida, 
depois de tanto ser chamada de Chupeta, resolvi me suicidar. 
Como podem ver, não houve assassinato prezados senhores...

Quando a vaca olhou em volta, não havia mais ninguém 
no Tribunal de Júri da Cidade de Marumbi.



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O cavalo Xerife

 

Eriberto era o cavaleiro mais veloz daquele lugar. 
Seu cavalo, chamado Xerife, corria mais do que qualquer 
um de toda a região de Criciúma.

Desde pequeno ele tratava o animal com uma medida de 
pólvora e outra de pimenta misturadas à ração. 
O cavalo cresceu soltando fogo pelas ventas e 
correndo feito um desesperado.

Eriberto nunca havia perdido uma aposta, Xerife ganhava todas.

Nesses tempos, Eriberto ele havia se enrabichado pela filha do coronel 
Otacílio, uma moça pra lá de formosa. Como o namoro era proibido, 
eles se encontravam às escondidas.

Era noite quando ele silenciosamente aproximou-se do local do encontro. Era uma cabana que ficava na estrada próxima à casa do coronel.

- Silêncio Xerife, já estamos chegando. Se você se comportar, 
prometo caprichar em sua ração.

Amarrou o cavalo na porta da cabana e entrou nela em total escuridão.

Reparou no vulto que o esperava sentado. Retirou com velocidade 
espantosa a roupa e abraçou a mulher. Ao tentar beijar-lhe os 
lábios as luzes se acenderam. Com um imenso susto 
Eriberto deu um salto para trás. 
Estivera abraçado à avó de sua namorada.

- Cabra, se prepara que agora vais morrer 
de tanto chumbo que vou lhe enfiar.

Olhando para o lado, ele viu a figura aterradora do coronel 
segurando uma pistola. Aquilo era uma cilada.

Sem esperar, correu e pulou pela janela. 
Deu um salto montando em Xerife e disparou. O coronel sentou o dedo 
na pistola e o cavalo correu como nunca antes.

- Corre Xerife, corre que o coronel quer nos matar... ...Aaaaiiii!

Eriberto sentiu o chumbo queimando suas carnes. 
Uma bala havia lhe atingido a nádega esquerda.

- Corre meu cavalinho, corre como nunca correstes.

O cavalo correu em velocidade descomunal.

Eriberto começou a escutar um assobio perto de seu ouvido direito. 
O assobio não passava. 
Olhou então em direção ao desconhecido barulho.

- Acelera Xerife, acelera que a bala emparelhou.

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As sardinhas

 

Dois compadres conversavam à beira de um riacho 
lá pelas bandas de Uberaba.

- Zé, tempos bons eram aqueles quando eu tinha sua idade. 
Isso já faz mais de 40 anos.

- Chico, tempos bons são agora, cê não vê o patrão, 
tem aquela tal de "parambólica" que pega até os canais de 
lá do outro lado do mundo, tem "seu lular" que fala que nem telefone.

- Não é disto que estou falando. Quando era jovem que nem ocê, 
eu sentava na beira desse rio com minha varinha 
e pescava um mundão de peixe.

- Cê tá no passado. Quando eu vou pra Santos, visitar meus parentes, 
a gente sai pra pescar de lancha que tem até um tal de "com puta dor" 
que acha os cardumes em baixo d'água.

- Com vara que era bom. Eu sentava na beira desse rio e me enchia 
de peixes. No dia seguinte eu vendia tudo. 
Nunca peguei menos de três caminhões cheinhos de sardinha.

- Sardinha?

- É, e tu não sabes, um dia, atrás das sardinhas, veio um tubarão. 
Comeu a minhoca, o anzol, a linha, a varinha e quase comeu meu braço. 
Fiquei com tanta raiva que pulei em cima dele e 
dei-lhe aquela coça, nunca mais o "mardito" voltou.

- Eu num sabia que aqui em Uberaba dava tubarão.

- Naquele tempo tinha, eu não tô falando, tempo bom era aquele.

- Qual nada, hoje é que é bom. Mas em falar em sardinha, 
da última vez que fui a Santos, nós saímos para pescar de barco. 
Pescamos até acabar a isca e nada de peixe. 
No caminho de volta achamos uma ilha, 
lá tinha tanta sardinha no mar que pescamos até encher o barco. 
E naquela ilha era tudo grande. A sardinha menor 
que pegamos tinha quatro metros.

- Quatro metros?

- É uai, as pequenas eram filhotes ainda.

- Mas com que iscas vocês pescaram?

- A gente teve de inventar. Junto das pedras que cercavam a ilha, 
tava cheio daquelas baratas que ficam ali nas pedras rente ao mar.

- Sim, e então?

- Pra pegar as sardinhas de 4 metros, 
tivemos que usar as baratas de 1 quilo.

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O forasteiro

 

A tarde findava e as primeiras estrelas da noite 
surgiam numa pequena cidade do interior.

Um forasteiro chegara a cidade e batia de porta em porta, 
pedindo abrigo e um pouco de comida. Contudo, todas as portas se 
fechavam, ninguém tinha coragem de atender 
aquele homem desconhecido.

Até que ele bateu na porta de João, um viúvo idoso que 
morava sozinho. O ancião recebeu-o amistosamente, 
alimentou-o e ofereceu-lhe abrigo.

Após a refeição, o desconhecido começou 
a conversar com o dono da casa.

- Sabes meu bondoso amigo, por onde passo a mesma coisa acontece, 
bato nas portas e quase nenhuma se abre. 
Assim também é o coração humano, se fecha para os 
passantes do caminho, sem ser capaz de se abrir e oferecer-lhes algo. 
O egoísmo enraizou-se no coração das sociedades individualistas, 
o materialismo e a acumulação de riquezas, fez do amor 
e da boa vontade, objetos a serem guardados e acumulados, 
assim como se faz com o vil metal.

"O homem ainda não entendeu que o amor e a boa vontade 
guardados a sete chaves não se acumulam, pelo contrário, 
desaparecem. Só conseguimos acumular estes bens, 
quando os colocamos para fora, transformando-os em ação.

"No universo tudo gira harmoniosamente. 
Quando acumulamos ou guardamos algo, interrompemos este ciclo.

"Aquilo que recebemos da vida, devemos doar em dobro, 
para que o universo nos traga de volta triplicado."

No dia seguinte o desconhecido se foi deixando para João 
um pequeno embrulho. 
Dentro dele havia uma jóia de grande valor e um bilhete.

No bilhete estava escrito:

"Quem fecha a porta de seu coração para um irmão, 
nunca conhecerá a jóia valiosa que estava prestes a receber. 
Quem abre seu coração para o amor, 
transforma-o em imenso tesouro."





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O tesouro do mago

 

Um velho Mago sentindo-se bastante debilitado pela idade, 
resolveu encontrar um jovem a quem 
pudesse passar seus conhecimentos.

Avisou então a todas as famílias do reino que aquela que lhe 
trouxesse o maior dos tesouros teria seu primogênito escolhido.

Apesar do rico dote pedido, depois de sua morte todos poderiam 
reaver o tesouro, acrescido de imensa fortuna e de poder.

No dia marcado uma multidão invadiu o castelo do ancião. 
Os mais preciosos tesouros foram-lhe oferecidos. 
Porém nenhum deles satisfez ao Mago.

A tarde findava. Como mais nenhum tesouro lhe era oferecido, 
pediu para que um casal de humildes aldeãos se aproximasse.

- Todas as famílias do reino ofereceram-me seus tesouros. 
Por que vocês nada me ofereceram?

- Perdoe-nos Senhor! Somos pobres e nada temos a oferecer.

- Vocês nada têm de precioso para me ofertar?

- O único tesouro que possuímos é nosso filho.

- Aceito! Seu filho será o meu aprendiz!

Um tremendo alvoroço se fez no salão. Todos protestaram.

O Mago com um olhar severo ergueu-se, levantou a mão e crispou-a. 
Dela um raio luminoso saiu cruzando o ambiente, atingindo e 
destruindo o portão de entrada do salão.

Aterrorizados os presentes jogaram-se ao chão.

- Todos vocês vieram até aqui, não em busca de ter um filho 
instruído por um sábio, mas pela ambição que os cega. 
Vieram atrás de poder e de ver seus tesouros multiplicados. 
A ganância os traiu.

"Ao saírem, que tenham aprendido uma lição. 
As glórias e os tesouros nada são, pois quando da Terra partirem, 
tudo ficará para trás. A única coisa que restará de valor, 
será o amor que tiveram distribuído durante a vida. 
Este é o verdadeiro tesouro, o amor, pois é imperecível.

"Este casal é possuidor de sabedoria. 
Reconhece no amor de seu filho, seu único tesouro.

"Isto é o que eu buscava, o tesouro do amor. 
Mais vale o que está contido no coração humano, 
do que todo o tesouro Terra."



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Um chamado interior

 

Anita era uma profissional de sucesso. Morena lindíssima, 
vivia bajulada por todos. Tinha pais amorosos e um marido encantador. 
Dispunha de tudo que se podia almejar, menos paz de espírito.

Uma profunda insatisfação dominava-lhe e fazia desinteressar-se 
por tudo. Era com grande apatia que lidava com suas responsabilidades 
e com as pessoas queridas.

Naquela tarde vagava pela rua extremamente amargurada. 
Sem perceber entrou por uma alameda de um parque. 
Caminhou até a beira de um lago e parou. Aquele era um lugar mágico, 
as flores disputavam beleza e espaço ao redor de sua margem.

Não sei se atraída por um chamado interior ou tocada pela 
beleza do local, ajoelhou-se à grama com 
os olhos em lágrimas e começou a orar.

- Deus, mostra-me Tua força, indiques um caminho 
que me traga de volta a alegria.

Para seu espanto, uma nuvem branca surgiu do nada 
e dentro dela a imagem de Deus.

- Com que triste quadro me deparo. Tens tudo e não és feliz. 
Te tornaste tal qual obra de arte, belíssima, mas desprovida de vida. 
Uma bela estampa a envolver uma alma vazia.

"O que fizeste dos talentos que te confiei? 
Reclamas de tudo mas nada fazes para ninguém. 
Tratas a todos como coadjuvantes de tua bela vida.

"Procuraste as conquistas da matéria e esqueceste das conquistas 
do teu interior. Nunca abriste o coração aos que te cercavam.

"Se queres agora amparo, Meu coração de Pai te dará. 
Contudo, primeiro te condeno a que te tornes gente, 
a te fazeres útil e a retribuir o que te foi dado em abundância. 
Suavize teu coração tornando-o vivo e pulsante de amor.

"Se bem cumprires a condenação, teu coração se tornará um campo 
de paz e terás de volta a alegria de viver.

"Nunca esqueças, a quem muito foi dado muito será pedido.

"Quem busca realização somente nas coisas materiais, 
transforma seu coração em pedra, quem busca a elevação espiritual, 
transforma as pedras do caminho em solo macio, 
pronto para fazer germinar a semente do amor em sua vida."




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