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Poetas 3 x 4 |
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Laura Esteves

Perguntas tanto...
Queres me conhecer inteira.
Impossível! Impossível!
Existem apenas vestígios.
Em meus andares, vou deixando rastros.
Pegadas que sinalizam quem sou.
É só ficares atento
ao vestido sobre a cadeira,
às dobras do meu casaco,
às sobras do meu sorriso,
ao meu olhar triste e opaco.
É só prestares atenção
ao meu resto de bebida,
intacto, no fundo do copo;
ao que desenho no papel
quando estou bem distraída;
ao jeito como fecho a porta
e como toco a campainha.
Repara aquela natureza morta
junto ao degrau da escada,
meu belo bule de barro,
a colcha de barra bordada
e a flor que murcha no jarro.
Poemas também deixam vestígios.
Metáforas, alegorias.
Por eles, se chega a atalhos,
retalhos de toda uma vida.
Se queres um pouco de mim,
procura em minha poesia.
Constructor sui
-
para as mulheres que precisam se construir a cada dia -
Esta, conservo intacta, apesar dos desvarios.
Tratada com delicadeza, aconchego e atavios.
Escute com atenção, o a-bê-cê desta mulher madura,
mistura de santa e puta,
mistura de carnaval e clausura:
meus seios mataram a fome de homens e de crianças;
o ventre, meu ninho/minha gruta, já não tão liso,
gerou os filhos que irão me continuar;
os vincos de meu rosto, uma paisagem
com rios que correm formando trilhas,
são os risos, as lágrimas, as gargalhadas que derramei;
o olhar, um tanto opaco, revela tudo o que eu passei.
Mas estejam certos: busquei sempre a felicidade,
esta estranha palavra que demorei tanto a entender.
Sou ainda a menina assombrada com a vida.
Tenho um coração que palpita, salta, transborda
Apaixono-me, desmesuradamente, por tudo que faço ou toco:
Bicho, planta, planos, gente.
Sou o sonho, sou o susto, sou mais sábia.
Uma sabiá que pela Via-Láctea faz firulas.
Que não teme o novo nem a aventura.
Uma sabiá que faz ninho no telhado.
Se aquieta e aprende com o passado.
Assim eu sou. Eu sou assim.
Um ser que se transforma até o fim.
Que transgride, se acomoda.
E nesta contradição, de maneira surpreendente,
me construo, sempre, sempre.
Eu sou aquela do espelho:
mais gorda, mais inteligente, mais generosa.
Sou importante para alguns, sou importante para mim.
Instauro o meu domínio. Decido até onde ir.
Transgrido. Sofro. Estou viva.
Todos os dramas humanos são meus.
Toda alegria da vida é minha.
Vida, esta grande viagem, dia a dia, mês a mês,
onde somos aprendizes e PhDês.
Meu peito caiu? Não faz mal.
Sou tudo de bom. Sou inteira.
Mulher/sabiá-laranjeira.
Mulher/mistério. Abissal.
Laura Esteves
nasceu
no Rio de Janeiro é escritora e poeta.
Pertence ao grupo Poesia Simplesmente, que realiza o
“ Festival Carioca de Poesia”
e o evento
“Terça conVerso no café”,
no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana.
Seu primeiro
livro de poemas, Transgressão,
foi editado pela Sette Letras, em 97.
O segundo,
um romance memorialista lançado em dezembro de 98,
O sabor, o saber e o sonho: a
fome secular dos Oliveira.
Como água que brota na fonte, poesia, ( Editora Barcarola,
outubro de 2000 )
foi seu terceiro livro individual. Em 2005, publicou um livro
de contos:
A mulher, a pedra. ( Editora Ibis Libris ). Colabora com o Jornal
Rio Letras,
é curadora do Fórum Poesia ( UFRJ )
há três anos
e foi uma das
premiadas do
“Concurso Contos do Rio”/2004, do jornal “O Globo”.
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