Poetas 3 x 4

Jorge Roberto Martins



Isso e aquilo 

 

Ao invés de sonhar com as estrelas,

de tentar tocá-las, tocava-se

tocava-se com tal delicadeza,

com tamanha delicadeza,

que sentia-se perdida na profundidade dos desejos,

na imensidão dos prazeres,

na imersão dos sentidos

 

 

Ao invés de colher flores,

de tentar regá-las, regava-se

regava-se com tal naturalidade,

com tamanho frescor,

que mergulhava-se até onde seu corpo ardia

na completude dos anseios,

no magnífico suor

 

 

Ao invés de multiplicar-se,

de tentar ser muitas, singularizava-se

fazia-se única com tal esmero,

com tamanho alento,

que, não raro, era difícil encontrar-se

naquela solidão de sempre,

na sua simples complexidade

 



Mares Ribeirinhos

 

Num suor à luz do sol

luzia seu corpo de contornos invejáveis

de passagem, a mestiçagem dos olhares caboclos,

mulatos, enfeitiçados, transtornados

reflexos dos tremores sonoros,

dos ruídos na cama praiana

que ela moldara

à luz do sol

 

Num rio do seu corpo solar

luziam versos livres e ávidos,

formando margens, ribeirando desejos de iaras

brancas, amarelas, enfeitiçadas

reflexos da natureza febril

dos ruídos no leito jequiá

que ela moldara

à luz flúvia

 



Um olhar sobre a mulher
 

Vejo a mulher como manhãs

como pêssegos e maçãs

como seus pelos,  seus vãos

meus nervos  à flor da boca

meus olhos nos seus mistérios

meus segredos no seu ventre

 

Observo a mulher como um horizonte

o mais perto possível

nem quieto, nem linear

ondulante como vagas que vêm

como os cabelos de Iara

com os cheiros das Iaras

 

Dou-me a mulher como um pródigo

sem limites, à exaustão

querendo e desquerendo completamente

traindo e subtraindo

tentando e retendo

o que se pode colher de sua alma

 

 Escuto a mulher por mil vibrações

pelas tensões febris

do seu corpo denso, tenso, imenso

a cada movimento sonoro

à cada gota que escorre afinada

à cada tremor, à cada grito

 

 Vejo, observo, dou-me, escuto

como um mestre conselheiro

precisado de conselhos

da mulher que tanto vê, observa, se dá, escuta

da mulher que me sabe por inteiro

ser eu uma ilusão da palavra

 




Jorge Roberto Martins
, jornalista e escritor que já atuou como
crítico musical na Revista Isto É (1980-1982) e no jornal O Dia (1982-1992),
foi presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som (1995-1997),
produtor musical do disco Quinteto Villa-Lobos/Ernesto Nazareth (2005), é
 co-autor do livro Na Cadência do Choro, escrito com Afonso Machado
- bandolinista do Conjunto Galo Preto, produtor e apresentador dos programas: 
Sala de Música
, da Rádio MEC (desde 2001), Eles têm história prá contar e
No tempo do vinil e do chiado
, da Rádio Roquette-Pinto.
Esse homem das letras e cifras musicais, revela-se ainda um poeta que encanta quando
traduz a beleza da mulher brasileira, em graciosa poética brejeira.
Poeta premiado em diversos concursos vem reunindo suas "meninas-poesias"
e em breve estará lançando seu primeiro livro de poemas.
Que assim seja! A poesia agradece!
 

Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
E-mail: martinsrj@globo.com

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