
Jorge Roberto Martins
Trevas
Bebo o vinho ensangüentado da orgia urbana;
nos sinais, nos morros, nos casais,
nas periferias frias da insegurança;
nos becos e nos desertos, nos choques
e nos retoques combinados; bebo
o que houver de vulnerável e exposto
na alma penada do poder;
bebo a esperança dos notáveis humanos,
pois ela, mesmo assim, continua infinita;
eles continuam notáveis.
Bebo, com asco, o sangue do porão e do patrão perdido,
aí me humanizo.

Abandono
Ela tem veias gordas, incolores,
parecem trilhos de estações abandonadas
ferrugem e madeira seca de solidão
teias, terras e taras densas pelo abandono
Ela tem o descaso dos observadores
o gesto pio dos infantes arrependidos
o medo insensato dos que se afastam sem tempo
o horror corrosivo dos que hibernam na irrelevância
Ela tem ombros e peitos cavernosos
que ocultam sombras em sua alma fria
em sua calma demente e póstuma
exposta à caridade comprometida, mas fugidia
Então constrói seu templo
templo-fantasma assombrando pássaros
esconderijo, fronteira poço sem fundo
que lhe garante a miséria assumida
que lhe corta a carne um dia solene
que lhe invade o desejo que um dia gritou
que lhe rouba o dia que um dia luziu
que lhe protege as lágrimas que um dia...
um dia estas lágrimas correram suaves
escorreram suaves do seu rosto juvenil

Confissões Íntimas
Tem vezes que o corpo lateja
a veia explode
o sangue derrama
então bebo os suores
Outras, me contento com a ausência
a cabeça viaja
o olhar escurece
então apalpo o possível
Mas quando o tempo se entrega
o peito reage
as pernas se associam
então armo o bote

Ignez
Era cheia de não me toques.
Um dia, no que seria um sarro, engravidou.
Ignez, ah, Ignez!
Que filho gerastes na imaginação?
Que filho não tivestes?
A partir de então, ofertava-se no ar
seus pelos, sua pele, seus cheiros.
Até que um dia apaixonou-se.
Incompreendida, não resignou-se. Matou-se.
Deixou histórias porque esqueceu de levá-las.
Guardara-as no baú de suas tralhas.
Das muitas, poucas se pode contar.
Estas têm adornos – flores, do campo e da cidade;
fugas e retornos; conciliações e abandonos;
traições e donos; sonos e olheiras.
Ignez fez, se fez e se desfez.
Seus olhos choveram e sua alma sertanejou.
Virou número na conta da rapaziada
que não cresceu nem se soube além,
que nem de Ignez entendeu ou gozou.
As outras histórias, as incontáveis,
nem baú nem nada,
nelas não se toca,
como Ignez... que era cheia...
Contatos com o autor através do e-mail:
martinsrj@globo.com
As imagens foram obtidas no site wikipedia, na seção sobre Paquetá, cidade onde nasceu o escritor.
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16/12/2007