Jorge Roberto Martins

 



Lázaras


Almas lázaras,

 lambem as cores das cidades,

mordem suas dores,

cheiram seus suores,

até se curarem de tanto horror.

    

Ela, guardiã dos pecados;

Ele, milagreiro dos delírios.

 Eles, solidários, soturnos

e noturnamente sós.

 




Contraposto

Era um tipo de opostos,

 sentidos figurado e escancarado

fazia antagonistas vida e morte

e com elas filosofava:

- você, morte, você sublima os cínicos,

                               consagra os medíocres.

e você, vida, você vegeta na ilusão,

                             nos seus dias inúteis.

Um dia, tarde finda,

cismou de encontrar luz num beco então noturno ...

                                            ... anonimou-se.

 




Elas - II

Lenilda malucou de vez

arrancou seus pés do chão

com raiz e tudo

voou na direção das estrelas

queria brilhar também

não aquele brilhareco urbano

fugaz, de manchete ou seriado

aprimorou-se nos cantinhos  das nuvens

se estrelou

 

E Lenileide?

ah, essa então ...

já chegou pros outros lá de cima

mandando e desmandando,

cheia de "o que é que há?"

Vez por outra, dava uma espiada aqui pra baixo

por compaixão, saudade, lucidez, sei lá

só sei que quando isso acontecia

chovia

 

Já Malena, que se julgava serena

por aqui ficou ... e desandou

 de um lado pro outro, de um pro outro

foram muitas barrigas, brigas, intrigas

aprontou, afrontou, abortou

se consumiu, se deformou, se machucou

até que uma estrela, pia,

nas suas viagens noturnas

levou-a

 

Marecir, por sua vez

a platônica dos meninos da vila

a mal falada das meninas da vila

todas de família, diziam-se

não teve quem a buscasse

cabeça feita, fez votos secretos

amou e desamou os secretos em fila

e as da vila danaram-se.

Pudera... Marecir nublou-as todas

   




Exercício da Dor

Tinha a felicidade escancarada

como um painel cobrindo a dor

domando a dor

danando a dor

   

os lábios em vários tons

e a língua como um pincel

colorindo  a dor

sugando a dor

 

estava toda desabrochada

o sangue dos mais quentes

florando  a dor

encharcando a dor

 

já se entregava plena

arfante e aos arrepios

sufocando a dor

dolorindo a dor

 

tinha a vida escarnada

em lábios, língua e sangue

se entregando à dor

compreendendo a dor

 




Jorge Roberto Martins, jornalista, foi crítico musical
na Revista Isto É (1980-1982) e no jornal O Dia (1982-1992). 
Ex-presidente da Fundação Museu da Imagem e do Som (1995-1997),
é co-autor do livro Na Cadência do Choro, escrito com Afonso Machado,
bandolinista do Conjunto Galo Preto. Produtor e apresentador
dos programas
Sala de Música, da Rádio MEC.
 

Contatos com o autor através do e-mail: martinsrj@globo.com
 


As imagens foram obtidas no site wikipedia, na seção sobre Paquetá, cidade onde nasceu o escritor.


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16/12/2007