PROSA Poesia Voltar
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Uma
árvore, um filho, um livro
Uma
árvore é fruto da terra
As árvores podem nascer (e nascem!) independentemente de nós, como parte de
um ecossistema tão rico quanto a orquestração natural do organismo humano.
Se nossas mãos plantam, estamos reunindo estes dois mundos: aquele que
permitimos
nascer e aquele que nos permitirá viver.
Um
filho é fruto do homem
O fruto do nosso ventre será o alimento de nossa eternidade. Um homem que dá à
vida um novo ser, está se renovando em cada célula que morre ou se regenera.
O ato de procriar aproxima o ser humano da mais profunda idéia da criação do
Universo:
Deus!
Um
livro é fruto da vida
Um ecossistema natural possui vida, mas é auto-suficiente e descreve a si próprio
sem uma linguagem especial ou específica, compondo-se de fenômenos complexos
interligados de forma simples...
Um filho, em qualquer faixa etária, não exige tempo nem espaço para nascer, seja
biológica ou psicologicamente...
Mas um livro... Bem, deixamos esse item por último buscando seguir a ordem
natural das coisas: sem a Natureza, o homem não sobreviveria; sem o Homem, a
vida não teria consciência de si própria; e, sem os livros, a vida não se formalizaria
como um estilo humano de expressão em busca do resgate de sua memória aqui
no planeta.
Ao escrever um livro, portanto, uma pessoa está fechando mais um círculo de
rotação contínua sobre si mesma ou, por extensão, sobre a espécie a que pertence.
Intuição,
razão e emoção
A intuição da Natureza faz o Homem, Este, por sua vez, cria o seu filho. Na
seqüência, dará razão de ser para a emoção de estar... escrevendo um Livro.
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Enquanto houver a voz do mar
A linha
da vida é sinuosa. Queiramos ou não, esta é a verdadeira geometria da
existência humana.
Claro que, ao afirmarmos isto, estamos olhando sob o ângulo de quem vê à
distância. E dentro deste ângulo, realmente, tudo tem a forma de ondas, sinuosas
ondas.
Mas, se nos propusermos ao desafio de chegar mais perto da essência das coisas,
veremos que a projeção do que vemos vai assumir formas diferentes.
Surgirão triângulos, retângulos, poliedros... Enfim, verdadeiros caleidoscópios...
Acabam-se as fronteiras, simplesmente por descobrirmos que o grande dragão que
imaginávamos ao longe, trancafiou-se de medo dentro de seu ledo engano
de sustentar sua inteligência às custas da ignorância alheia...
Metáforas à parte, as fronteiras diluem-se a partir do momento em que vemos as
coisas com mais sinceridade, clareza e sem preconceitos. O que antes parecia ser
uma linha divisória de formação rochosa, passa a ser um simples risco de giz sobre a
leveza de um chão a serviço de passos infantis.
Precisamos enfocar nossos mundos o mais próximo possível de outros mundos. A
pluralidade é característica marcante de todos os deuses. O monoteísmo, às portas do
ano 2003, é indiscutível; as aparências com que Ele se manifesta, aí sim, são
polimorfas... Pois, onde houver alguma pulsação, haverá Deus...
Olhar sem fronteiras é ver-se espelhado no grande mar das possibilidades
humanas.
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Uma curva ao infinito
Quando quatro médicos de um hospital público no Rio de Janeiro o consultaram sobre a
possibilidade dele suportar a dor de uma cirurgia sem anestesia geral,
primeiro ele perguntou por
quê; depois intuiu que uma autêntica liturgia estava prestes a transformar
aquele momento num culto
à presença divina no interior dos homens.
Disseram pra ele que havia muitos casos graves no setor de ortopedia e que apenas dois
anestesistas trabalhavam ali. Como o seu braço quebrado não era grave,
uma anestesia local seria
suficiente para tornar suportável o reposicionamento dos ossos.
Ele considerou o convite razoável,
pois só assim poderia reverter logo o final daquele quadro amargo, já que estava há 48 horas à
espera de uma vaga na cirurgia eletiva, sob regime de "dieta zero",
sem comer nem beber nada, e
a dor no braço latejando como o tique-taque de uma bomba-relógio com o ponteiro quebrado.
Enquanto aguardava ser chamado, acabou dormindo. Mas, às duas horas da madrugada, um
enfermeiro veio buscá-lo, arrumando-o apropriadamente com um roupão sobre o corpo nu e
levando o recipiente com o soro sempre preso na veia, como se fosse um cordão umbilical de
plástico com líquido vital de placenta no tubo.
Nessas horas, em que ouvimos nossa própria respiração como uma forte ventania, ou ouvimos as
vozes ao nosso redor como quem colhe frutos sonoros em sonhos, nós realmente somos
conduzidos para "um mundo sem formas", como dizem os budistas; pois quem, num momento
desses, pode lembrar de sua idade, lembrar se o cabelo está desalinhado ou mesmo se o seu
nome tem algum significado para o mundo?
Na verdade, a consciência do que nós somos volta-se para o futuro, um futuro bem próximo,
distante apenas alguns "degraus de luz" do que arriscaríamos
chamar de dor necessária, sofrimento
útil ou enfrentamento de nossos próprios limites de consciência humana.
Sendo assim, ele sabia que algo "sem forma" estava à sua espera
para empurrá-lo mais à frente do
que ainda pensava ser a vida. Este "algo sem forma" cada vez mais se aproximava, como uma
sombra projetada ao avesso, uma sombra que o desenhava no teto daquela sala,
e fazia seu vulto
parecer uma nuvem de esperança. Só isso era nítido enquanto
deitava sobre a mesa de operação.
Já que seus ossos seriam postos no lugar quase a sangue frio, perguntou à equipe médica se
poderia
gritar à vontade.
Disseram que não seria conveniente, pois assustaria os que aguardavam a
vez... E lhe ofereceram um pedaço de pano para morder. Ele recusou...
Os médicos, então, começaram a trabalhar, enquanto ele iniciava um processo de respiração
profunda, muito usado em yoga quando busca-se forças interiores profundamente distantes de
nossa consciência: inspirava e expirava, procurando alcançar a energia
vital que o colocasse lado a
lado com a dor, ou "ser um com a dor", como prega a monja budista brasileira Cohen. "Fique
nervoso, mas não pare de respirar!", diria um fisiologista.
Rapidamente lembrou-se de que, quando chegara ao hospital, tentara ajudar um homem
que procurava vestir uma camisa com um braço só, pois um de seus ombros encontrava-se
enfaixado. O homem agradeceu, mas preferiu se virar sozinho; provavelmente era um desses
homens que preferem perder-se em si próprios, por integridade,
a permanecerem semi-inteiros, por
negligência ou covardia.
Respeitou a atitude dele e voltou a reconhecer em si sua própria vida.
Fechou os olhos e tudo se
clareou. Só havia uma lâmpada acesa naquele setor, mas dentro dele descobriu que o
reconhecimento da dor do outro pode levar qualquer um a estágios espirituais superiores, onde
vislumbramos a incrível sensação de que habitamos uma única Alma.
Aqueles dois dias que antecederam a sua cirurgia não foram vazios;
foram dois dias de sofrimento
físico e metafísico. As horas não passavam como a pressa dos trabalhadores nem como a
tranqüilidade dos riachos. As horas não mais existiam. O tempo desistiu de contorná-lo.
Num momento da intervenção cirúrgica, uma dor profunda em seu braço interrompeu suas
lembranças dos primeiros dias no hospital e lhe fez lembrar que estava ali,
naquela sala, e que a
anestesia local mostrava-se insuficiente. Ele então começou a rezar inicialmente de maneira
tradicional, enquanto seu braço mais parecia massa de trigo em mãos de padeiro.
Sempre mantendo os olhos fechados, as suas orações antes quase mecânicas começaram a
adquirir uma força diferente, como se a dor fosse o corpo de um pássaro
e suas asas fossem a fé
de suas orações que o levavam para longe.
Desmaiou por um ou dois segundos, mas conseguiu sustentar-se consciente quando percebeu que
poderia elevar seu sofrimento a um grau de sacrifício típico daqueles que sentem o mundo com o
próprio coração do mundo. Assim, a dor passou a não mais ser sua e adquiriu um aspecto
puramente físico, ou seja, ela recolheu-se à região do braço e ali ficou doendo,
sem mais refletir
pelo resto do seu corpo e do seu espírito, tornando-se a dor de um mundo
e não a dor do mundo.
Ainda com os olhos fechados, uma verdadeira folia de cores e
formas disputava espaço em sua íris,
agora desgovernada por uma estranha supra-consciência.
Não havia nenhum dragão cuspindo fogo,
nem anjos com asas nas costas: eram cores e formas, repito,
que transformavam sua visão interior
num caleidoscópio que girava sem parar.
Aos poucos, um meio sorriso no canto de sua boca refletia uma sensação búdica de uma
serenidade própria daqueles seres que sofrem com dignidade; adquirem a consciência de que
sofrem por solidariedade; e desapegam-se do sofrimento, dividindo-o em salvação para todo o
sentimento do mundo.
Após alguns dias de repouso, ao sair do hospital, sentiu-se como uma
borboleta consciente de que
sua vida havia nascido a partir da morte do casulo, e que seu vôo seria eterno,
porque seu impulso
inicial foi dado por ele mesmo... a partir da compreensão da
dor como constituinte das fibras de um
coração ressureto!
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As
três cabeças da esfinge
ESCOLHA
Durante sua existência, o ser humano é conduzido a conviver com diversas possibilidades de
escolha em sua vida, desde o momento mais simples, como apenas decidir sobre qual roupa vai
sair de casa, até o mais complexo, como qual pensamento vai adotar toda vez que um
sentimento mais profundo (como o medo, por exemplo) surgir em forma de desafio.
Uma escolha é algo comum a todos os seres humanos, seja lá qual for a raça, credo ou classe
social que eles desfrutem. Viver, sob esse ponto de vista,
é algo inerente a todos que respiram e
vivem em grupo.
A capacidade de saber escolher, por fim, pode ser considerado sinal de amadurecimento;
podendo, inclusive, estabelecer diferenças entre este e aquele indivíduo, mas jamais
diferenciá-los
em essência, pois, tanto o imaturo que jamais
aprende a escolher a atitude
certa, a
pessoa certa, a profissão certa etc., quanto o homem maduro, que aprendeu muito bem a
descobrir o que é bom para sua vida, ambos são iguais quanto aos desafios que levam pela vida
inteira, deixando-os sempre, frente a frente, com uma nova hora de escolher.
DESTINO
Acreditamos que também pode ser considerado como destino algo intrínseco à maioria dos
seres humanos, haja visto a sua diversidade, em termos de caráter, perfil físico e momentos
díspares ocorrendo em situações semelhantes, tal como duas pessoas criadas no mesmo
ambiente social e na mesma família e, no entanto, seguirem caminhos opostos.
Cada um carrega um destino que até pode ser alterado pelo próprio indivíduo, à medida que ele
tome consciência do que está fazendo nesta vida e resolve estudar,
avaliar, comparar e praticar
novas saídas para seus desafios cotidianos.
A maioria dos homens tem um destino. Isto é algo também indiscutível. Consideramos perigoso
de abordar é o nome que se dá a esta condição. Dependendo da religião de cada um, da classe
social em que nasceu, da consciência política que traz em si, haverá uma abordagem diferente.
Tanto quanto a capacidade de escolha é inerente à natureza humana, também a consciência de
um destino é algo próprio de nossa raça, o que nos deixa a todos sobre o mesmo patamar, no
que diz respeito ao nosso grau de animal social comum.
MISSÃO
Durante uma palestra em uma faculdade do Rio de Janeiro,
o poeta Ferreira Gullar comentou que
a poesia não era algo que alguém pudesse buscar; também ela buscava esse alguém. A relação
de atração era mútua, neste caso.
E é verdade! Quando nós reconhecemos em alguém um verdadeiro poeta, nós estamos
diante daquele que foi descoberto pela poesia, que soube fazer-se veículo e condutor,
simultaneamente.
Neste caso, nós estamos falando de algo chamado "missão". Aqui, já não podemos ver todos os
seres humanos numa conduta igual de valores. O homem comum não pode ver poesia em tudo,
porque tudo para ele é apenas uma fonte de repetição, uma máquina geradora de imagens
clonadas; infelizmente, ele precisa mesmo desta monotonia
para não correr riscos de escorregar...
O poeta, ao contrário, lança-se a metamorfose dos dias,
porque tem dentro de si a sublime idéia
de que toda existência está interligada por um fio invisível e, no entanto,
palpável chamado, por mim, de Universo.
Todos têm a capacidade de escolha. Todos têm um destino a cumprir. Mas poucos têm uma
missão a cumprir; e, assim, não podem fugir, mesmo que quisessem,
de sua capacidade de estetificar a vida.
Um poeta pode ser um visionário, um missionário, um pesquisador, um professor, um
idealista... mas será sempre um poeta, naquilo que esta palavra carrega de intuição,
imaginação e sensibilidade.
E a missão do poeta em cada um se define, dificilmente poderia ser generalizada, a não ser em
sua força invisível e essencial de dar ao mundo o sabor de questões rítmicas próprias de um
pensar
estético, o que significa renovar a existência tanto
pelo seu significado
quanto pelo seu significante.
Cada um pode dar à inevitabilidade do fato de ser poeta a definição que quiser, mas esta
inevitabilidade é algo que não pode ser nomeado, apenas vivido em sua integral compreensão...
Como a árvore que dá forma ao vento, ao mesmo tempo que não dançaria
sem não o tivesse como par.
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É
incrível como as pessoas costumam dizer que não têm tempo. Em geral, quando
dizem isto, se referem a momentos de prazer, lazer ou família.
Mas o que é efetivamente o tempo: uma entidade abstrata inalcançável ou um
instrumento como qualquer outro que podemos administrar de acordo com a nossa vontade.
Nesse momento, um trecho brilhante de Tom Jobim nos ocorre agora: "Ter um tempo
pra sonhar", uma passagem da música Corcovado.
De maneira inversa ao habitual, vamos começar pela segunda expressão, ou seja,
vamos considerar o tempo algo abstrato, impalpável, algo que não se "é" e apenas se "tem".
Claro que, quando somos uma coisa ou uma pessoa, tornamo-nos seres integrais;
perdemos qualquer noção de tempo e passamos sem perceber por qualquer paisagem, haja visto
tornarmo-nos a própria paisagem em si. Esta, em linhas gerais, é a característica
principal de todo "ser".
Mas quando "temos" ou "possuímos" algo ou alguém, aí distanciamo-nos do objeto
desejado; ou, como se diz popularmente, "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa",
deixando claro que cada um ocupa um lugar diferente no mundo,
apenas olhando-se ou tocando-se mutuamente à distância.
Pedimos até desculpas por usarmos o genial mestre Tom Jobim como exemplo, mas
nossa análise em nenhum momento pretende alcançar a profundidade poética do verso citado.
Estamos, apenas, procurando entender porque tanto lamentamos a ausência de "tempo" e,
contraditoriamente, vivemos de maneira tão veloz.
O que acontece é que temos medo do "tempo" como uma instituição da existência
humana que nos obriga à meditação, à auto-observação, à observação do mundo e, por causa
disso tudo mesmo, nos leva ao ato de sonhar. E, assim, inventamos que não há tempo...
E por que temos medo de sonhar objetivamente? Porque o sonho abriga um tempo que
não existe aos olhos do cotidiano, um tempo que nos impele a olhar em volta e vermo-nos
dependentes de tantos outros sonhos, um tempo em que se perde os limites de seu estreito
domínio humano e social e se vêem abertas as portas de uma nova percepção.
Ora, o novo sempre incomoda à maioria das pessoas; o novo, em geral, incomoda
porque não está ligado à idéia de passado; sempre é visto como um perigoso caminho sem
futuro... O que é uma pena!!!
Sim, todos nós precisamos de tempo para viver... mas viver como homens, como
cidadãos e como filhos de Deus, algo como plantar, colher e comer uma fruta. Como homens,
somos o tempo da família; como cidadãos, o tempo do trabalho;
e, como filhos de Deus, o tempo do sonho.
A conjugação desses três tempos nos eleva a uma profunda noção do ser :
a eternidade.
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O
silêncio das palavras
Os
místicos hindus entoam um som para alcançar Deus no interior de suas próprias
almas. OM
(pronuncia-se suavemente aaauuuummm) é um vocábulo sagrado.
Essa palavra (mais que uma palavra, uma ação sonora) pode bem
ilustrar nossa intenção de mostrar
como certos sons são bem mais intensos que o significado que eles deveriam expressar.
"Pronuncia-se OM para celebrar a Deus e glorificá-Lo, vocaliza-se uma palavra-símbolo".
Mas não se
esgota no tempo gasto durante a emissão; também é igualmente importante
"o momento do silêncio
que segue a cada pronúncia do símbolo sonoro. Este ‘vazio’
(...) representa tudo o que a linguagem
humana, demasiadamente limitada, é incapaz de formular".
Esta limitação da linguagem humana é o que nos interessa. E o nosso objetivo é chegar a uma
solução para superar essa limitação. Mas até chegarmos aí,
faremos uma triagem sobre as razões
por que passa a palavra mentirosa por si mesma, diluída em múltiplos sentidos,
perdida ao sabor de
momentâneos interesses semânticos.
Queremos alcançar aquele momento máximo de consciência, pronúncia,
interpretação e intervenção
simultaneamente expressados. Esse ponto é o encontro de nossos rios e mares interiores.
A citação que fazemos no final, aqui, nos ajudará, em muito,
a deixar clara nossa intenção de expor
que o fim último da palavra está justamente onde ela começa.
Mais ou menos como o filete de água
que desce a montanha, se transforma num grande rio que vai
desaguar num mar maior ainda, mas
não o suficiente para resistir a pressão do sol, tornar-se vapor e formar de novo,
junto à fertilidade
das montanhas, um filetezinho de água...
Queremos descobrir como abreviar os caminhos que separam o poder da intenção e a força
do gesto. Ou seja, a consciência é a verdadeira mãe de todos nós. Sem ela emitiríamos sons
audíveis, porém não perceptíveis. Segundo Engels,
"o Homem é a natureza tomando consciência de si
mesma", o que significa que temos consciência da evolução eterna que a tudo move.
Acreditamos que, se pudéssemos resumir em apenas uma palavra todo o nosso percurso para
descobrir qual a verdadeira essência da comunicabilidade humana,
esta palavra seria "evolução".
E é certo que podemos encontrá-la em todas as manifestações da vida universal,
não só na linguagem humana.
Como dissecou brilhantemente o antropólogo russo Vigotski, no livro A Construção do
Pensamento e da Linguagem: "A consciência se reflete na palavra
como o sol em uma gota de água.
A palavra está para a consciência como o pequeno mundo está para o grande mundo,
como a célula
viva está para o organismo, como o átomo para o Cosmo.
Ela é o pequeno mundo da consciência.
A palavra consciente é o microcosmo da consciência humana."
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Eu, a
garça e o rio
Em
grande parte dos momentos visuais de nossa vida, nossos olhos passam por ruas
pavimentadas ou não, por pessoas bem ou mal vestidas, por céus nublados ou cobertos de sol.
A visualidade, com que fomos contemplados pela natureza, passa por experiências
diversas em nosso dia-a-dia.
Devemos descobrir, dentro deste contexto pleno, que nossos olhos não servem apenas para
interferir no espaço entre a realidade exterior do que vemos vemos
e a realidade interior do que percebemos.
Pelo menos enquanto tivermos a coragem de mergulharmos em um Universo composto de
várias faces e não de uma única observação (controlada e dimensionada pela ilusão de
um ego), nossos olhos integram-se ao Ser supremo de ser e estar com e em todas as coisas.
Essas reflexões me foram traduzidas por uma garça que passeava com suas longas pernas por
um riacho que corre bem em frente à janela de minha consciência.
O rio seguia seu curso natural de todos os dias, sempre renovando sua marcha e seu canto, de
acordo com o movimento de sua foz lá no morro que, por sua vez, também concordava
obrigatoriamente com o movimento da fauna e flora à sua volta e nuvens acima dela.
A garça caminhava num intervalo de muitos segundos entre um passo e outro, o que me
chamou a atenção para o fato dela não estar seguindo "pensamentos" e, sim, impulsos naturais
e inerentes à sua condição de ave que se alimenta de verde,
vento e pequenos seres que habitam a água.
Eu, procurando ao máximo integrar-me à paisagem, deixando de ser algo ou alguém que
observa, e procurando também afastar-me da idéia de estar sendo observado e mergulhando
numa ambiência em que tudo e todos interferem em igual medida de grandeza e plenitude... eu,
como dizia, rasgava literalmente a palavra "eu" procurando dar-lhe um sentido profundo e
múltiplo, tal qual a questão do monge budista que sonhara ser uma borboleta e, ao acordar,
perguntara a si próprio se era um monge que havia sonhado ser uma borboleta, ou uma
borboleta que estava sonhando ser um monge...
De repente, nós três (meu olhar, a garça e o rio) levantamos vôo através das
asas da ave, que traçou um risco branco de suas penas harmônicas sobre o
verde da floresta e o negro de meus olhos de jabuticaba. Os três juntaram-se de
tal forma, material e espiritualmente, que a impressão que "eu" tive deixou-me
em dúvida: eu sou o rio que sonhava, a garça que voava e as águas que
escreviam este texto? O vôo do meu ser, a visão líquida do rio ou a garça
espelhada
no branco desse papel?
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