POESIA Prosa Voltar
![]()
![]()
![]()
Limo
Sinto-me mar
toda vez que te espero
respirando fundo o ar
enquanto o teu suor
não ancora em mim;
silencia lá em cima a lua
e eu aqui a olhar
quem vem;
o horizonte nada sabe dizer
sobre as águas
que estão a te levar,
muito menos sobre aquelas
que irão te trazer
Essas nuvens ao redor
de nada servem
se apenas dançam;
mensageiras do mar,
elas transbordam os rios
semeiam os campos
mas deixam o teu vazio
de tão pouco me querer
e muito
mais querer o mar
Sinto-me mar
sempre que estás tão distante,
deixo livre o meu olhar
fazendo do horizonte
sua íris e seu altar;
quando estás perto,
sinto-me cais, limo nas pedras,
ir e vir de mastros,
não te sinto já tão longe
meu lábio já não esconde
que este sol vai nos queimar
Ah, a ilusão plena de sorrir
ao ouvir-te tão vadio
com as mãos cheias
as marés cheias
mas, no fim, só o vazio
de tão pouco me querer
e muito mais querer o mar.
![]()

![]()
O
"M" de nossas mãos
Nas
mãos do povo as vidas só bebem
quando raspam o bom da chuva
um líquido raio tímido que se adapta
a qualquer boca de pranto
a qualquer boca de trapo
a qualquer tempo
e só raspa ao vento o ar,
o que só alimenta raios em língua ríspida
com raiva, ave de rapina
rápida
o homem de alma seca
corpo úmido de suor
mãos operárias operam a área da dor
Nas mãos do povo o chão dos descaminhos
da casa e do trabalho,
parece que rezam por outras horas
uma prece sem etnia
espantalhos, inúteis espantalhos
egos mortos
agonias
Nas mãos do povo
veias saltam de tanto sangue fervido
são feridas vivas servindo de hálito ao terror
como estilhaços da alma no barulho das máquinas
É deus alvo de um pavio
numa pátria sem pai sob as mãos áridas do patrão
horizonte sem aves
continente sem rios
Nas mãos do povo
a nudez da História é mais contínua
na hora do amor feroz
na brisa de sua pele
em gozo, na briga pela bola
no jogo, na intriga que se enrola
em fogo
(a mão do povo
devia bater na face que o explora)
onde crescem crianças esquecidas
com cabeça de gente e alma calada,
a vida finge um brilho
em adultos sem dias
cânones palavras putas e vadias
promessas filhas dessas línguas
prostitutas
dos que mantêm o mundo sob rédeas
em todo ópio
e regras em tolo ódio
O "M" da palma da mão
ou é de Miséria
ou pulmão da Morte
Nas mãos do povo
está sempre aberta uma pergunta
por trás da clausura da janela e da porta:
ainda haverá uma aurora
em que as enxadas, as marmitas,
os martelos, os serrotes
girarão em torno de si
e por seus próprios poros
gritarão a liberdade tardia
porém nunca, jamais morta?
![]()
![]()
Operária
A
palavra lava
lima, limpa
lavra
A palavra é válida
lívida, vívida
vivida
Livre,
ali na veia do verbo
ave inteira, árvore intacta
Toda matéria é palavra-prima
pálpebra acima,
olhar sobre tudo,
como quem ama em plena piracema
Toda palavra é grave,
quando expulsa o silêncio,
e ao silêncio engravida
e transpassa
O sangue significa a sua cor
buscando o ar
que atravessa os pulmões,
tanto quanto significa sentir
o prazer e a dor
de falar
![]()
![]()
Canção
para Liérmontov *
A
glória ou desgraça dos deuses está no coração dos homens,
enquanto o pensamento cria
e o punho transforma em sonho as gerações
O poema é a face subterrânea do ciclo das águas da História
O poema também se transforma em chuva,
cai sobre a terra e fertiliza
O poema é vapor que leva pelo ar o que vai além de nós
em humanidade
A glória do poema não pertence ao poeta,
mas a este cabe rigorosamente a dor do parto
O poeta é a parte noturna da manhã,
a arte eterna (a próxima porta?)
É a árvore, a maçã, a queda...
(o pecado de Adão e a observação de Newton)
É a carne dos oprimidos, os ossos dos esquálidos,
quem esquece de tudo e retorna à lembrança
diante de um simples cálice de chuva
É a alma das melhores mulheres
e a corpo das mulheres melhores
A glória dos deuses é uma canção social
não está na oração em si, mas na hora da ação
– assídua como um sol e o pão das manhãs
A glória é uma montanha coberta de neve
à espera dos olhos quentes da primavera,
ardendo na ponta de fuzis, destruindo pontes,
ou no passeio público e sem pauta das putas,
ou andando por afiados versos
que desfiam no horizonte o desafio da fé
dos que amam ou matam com a mesma serenidade
A glória das noites é manter deuses provisórios sobre camas:
são homens e mulheres em breve longevidade nadando
até que as manhãs restituam à matéria
o sangue e o pão do trabalho,
moídos, ávidos, doidos, divididos,
como óstia tísica à sagração de uma história estática.
Do gargalo da garrafa à goela
Do trago do cigarro à fumaça no peito
Do apego ao fogo do desejo
circulam os humanos assim em níveis de intranscendência.
E ainda hoje, Liérmontov, a lua é o tempo viril da solidão
dos versos que nutrem o futuro da verdade.
A Lua, Liérmontov, até hoje habita a noite,
e nunca deixa a sós aquele que da brisa extrai tempestades.
|
Mikhail Liérmontov (1814-1841) é considerado o maior poeta russo depois de Púchkin. |
![]()
![]()
RAIZ
Lá
estão minhas coisas, meu cão
Minha casa em repouso sobre a canção do mundo
Lá estão minhas grandes causas,
graves conseqüências
Minha cama, meu amor
O que é meu, enquanto Deus assim o quiser
Lá estão as aves sobre as árvores
Os homens em minha memória
e a eterna marcha da terra até o horizonte
O coração é fruto da história
O coração é raça e fome
quando agora é mar
em meus olhos que nesse poema ancoram
Aquele luar
Aquele lugar
Aquele chão tecido em barro
onde escorre meu caminho
como um sonho
em mim
Aquele mar de riachos
Aquele pão de sol em fatias
Aquela rede, como um cacho de banana,
pendurada na varanda
embalando meninos
A ave navegando pelo jardim
A nuvem úmida descendo pelo olhar
até nós
e em mim
![]()
Corpus
O mais
rápido dos meus dedos
pousa sobre Vênus
em carne, osso e medo
plenos
ao lado,
dez mandamentos ordenam
o início do impulso
tatuado em nossos panos
tábua de memória
em ardente crucifixo
fábula de séculos
e séculos em sexo
na hora de nossa vida,
amém.
![]()
O primeiro sol
Como
quem entra num quarto
e vê a luz aos poucos surgindo
pela adaptação da íris ao escuro
e não porque tudo ficou claro...
Como um caminho que,
à primeira vista, parecia ser longo
e, após duas ou mais vezes,
torna-se íntimo e seguro...
... o primeiro olhar de Gabriel entrou em mim:
brisa de uma manhã,
procurei guardá-lo como sol
nas cores de um domingo
cheio de praça, graça e hino
tudo com gosto de mel
Ele não chorava, nem sorria
apenas seus olhos se mexiam
como mãos procuram chaves
para abrir uma porta,
ou como aves
no escuro da madrugada
intuindo sua rota
Havia carícia e afeto
no lento movimento do seu corpo
abrigando-se, pequenino,
nos grossos braços do subúrbio,
como que consagrando
a pequenitude do grão de areia
diante do clarão aquecedor da Lua
Fechei meus olhos por uns momentos
e nunca mais vou esquecer
o ritmo de sua respiração:
a vida, enfim, vinha quieta e curiosa
tornando-se pássaro e estrela
em minha natureza
Hoje,
passados treze anos,
sinto-me em seus braços
como uma sílaba entre os traços
da mão sábia que escreve
sobre a passagem das nuvens
ou sobre a nua canção das aves.
Vejo a vida como quem sobe uma montanha
e não pode esquecer o que ficou para trás,
ao mesmo tempo que se eleva como uma prece
em busca do infinito sem parar o tempo
e redescobrindo o passado em cada gesto
quando esboça um novo movimento.
![]()
Herança
Minha
pele é morena como o tronco do embaúba
Dos índios recebi a dor
de sentir minha cor como elo
entre a floresta
e a festa da flor
ou o ar
que gosta do susto
e do furor
Quando sou eu
alguém que não é só meu,
ouço um grito dentro do canto
Tendo como teto o céu
e, como matéria prima, meu sentimento,
ouço um grito dentro do canto
Os séculos passam,
tornam paralelos os homens verdadeiros...
Só os justos
as fronteiras estancam!
Aos honestos
cabem os moinhos
e os ventos!
![]()
Águas de mar
À JANIS JOPLIN, in "PEACE OF MY HEART"
Águas
de mar
Memória e pétala:
Luz...
A voz exala pela garganta seca
a fantasia e o viver.
Minha canção é meu segredo ferido
a socos e pontapés pelo tempo
no vento
e na raiz
do vento
Mas o céu não está encoberto.
Sou cantor:
mais que vício,
mais que espanto,
nascer e morrer
é meu estranho ofício
a cada minuto
Olho pelo meu instinto
Fome de infinito
Pressinto meu instante
pedindo ao público ouvinte
um minuto de silêncio
incessante
Em odor de incenso
não penso mais
peço a astúcia e a carícia
de um momento
de canto
em nome da minha voz
Águas de mar
Memória e pétalas:
Mais que luz,
Paz!
![]()
![]()
Voltar
ao início desta página
Se você
gostou, escreva para:
liter@terra.com.br
Ou indique o endereço: www.almadepoeta.com/joaodeabreuborges.htm
![]()
home
galeria de arte
poetas em
destaque
poetas 3x4
poetas imortais
colunistas
cinema
teatro
concursos
páginas pessoais agenda
poética ebook entrevistas
histórico
Clique e entre
Alma de
Poeta
© Copyright 2000 / 2007 by Luiz Fernando Prôa