Poetas em Destaque

 

JOÃO DE ABREU BORGES

                                                                      POESIA                                 Prosa                      Voltar
Clique para entrar

 

.

Canto      aos poucos      aos pedaços      não tenho pressa de cantar            Canto      como os pássaros      nunca abandonam o ar


Limo


Sinto-me mar

toda vez que te espero

respirando fundo o ar

enquanto o teu suor

não ancora em mim;

silencia lá em cima a lua

e eu aqui a olhar

quem vem;

o horizonte nada sabe dizer

sobre as águas

que estão a te levar,

muito menos sobre aquelas

que irão te trazer

Essas nuvens ao redor

de nada servem

se apenas dançam;

mensageiras do mar,

elas transbordam os rios

semeiam os campos

mas deixam o teu vazio

de tão pouco me querer

e muito mais querer o mar

Sinto-me mar

sempre que estás tão distante,

deixo livre o meu olhar

fazendo do horizonte

sua íris e seu altar;

quando estás perto,

sinto-me cais, limo nas pedras,

ir e vir de mastros,

não te sinto já tão longe

meu lábio já não esconde

que este sol vai nos queimar

Ah, a ilusão plena de sorrir

ao ouvir-te tão vadio

com as mãos cheias

as marés cheias

mas, no fim, só o vazio

de tão pouco me querer

e muito mais querer o mar.


O "M" de nossas mãos


Nas mãos do povo as vidas só bebem

quando raspam o bom da chuva

um líquido raio tímido que se adapta

a qualquer boca de pranto

a qualquer boca de trapo

a qualquer tempo



e só raspa ao vento o ar,

o que só alimenta raios em língua ríspida

com raiva, ave de rapina

rápida



o homem de alma seca

corpo úmido de suor

mãos operárias operam a área da dor

 

Nas mãos do povo o chão dos descaminhos

da casa e do trabalho,

parece que rezam por outras horas

uma prece sem etnia

espantalhos, inúteis espantalhos

egos mortos

agonias

 

Nas mãos do povo

veias saltam de tanto sangue fervido

são feridas vivas servindo de hálito ao terror

como estilhaços da alma no barulho das máquinas

 

É deus alvo de um pavio

numa pátria sem pai sob as mãos áridas do patrão

horizonte sem aves

continente sem rios

 

Nas mãos do povo

a nudez da História é mais contínua

na hora do amor feroz

na brisa de sua pele

em gozo, na briga pela bola

no jogo, na intriga que se enrola

em fogo

 

(a mão do povo

devia bater na face que o explora)

 

onde crescem crianças esquecidas

com cabeça de gente e alma calada,

a vida finge um brilho

em adultos sem dias

cânones palavras putas e vadias

promessas filhas dessas línguas

prostitutas

dos que mantêm o mundo sob rédeas

em todo ópio

e regras em tolo ódio

 

O "M" da palma da mão

ou é de Miséria

ou pulmão da Morte

 

Nas mãos do povo

está sempre aberta uma pergunta

por trás da clausura da janela e da porta:

ainda haverá uma aurora

em que as enxadas, as marmitas,

os martelos, os serrotes

girarão em torno de si

e por seus próprios poros

gritarão a liberdade tardia

porém nunca, jamais morta?

é um silêncio que abriga meu grito           chega em meu rosto            como o susto de um feto           no tumulto anterior          ao parto


Operária


A palavra lava

lima, limpa

lavra

 

A palavra é válida

lívida, vívida

vivida

 

Livre,

ali na veia do verbo

ave inteira, árvore intacta

 

Toda matéria é palavra-prima

pálpebra acima,

olhar sobre tudo,

como quem ama em plena piracema

 

Toda palavra é grave,

quando expulsa o silêncio,

e ao silêncio engravida

e transpassa

 

O sangue significa a sua cor

buscando o ar

que atravessa os pulmões,

tanto quanto significa sentir

o prazer e a dor

de falar

Estarmos vivos                  é bem mais que uma dádiva                       é sabermos disso                e não termos dúvida


Canção para Liérmontov *


A glória ou desgraça dos deuses está no coração dos homens,

enquanto o pensamento cria

e o punho transforma em sonho as gerações

 

O poema é a face subterrânea do ciclo das águas da História

O poema também se transforma em chuva,

cai sobre a terra e fertiliza

O poema é vapor que leva pelo ar o que vai além de nós

em humanidade

 

A glória do poema não pertence ao poeta,

mas a este cabe rigorosamente a dor do parto

 

O poeta é a parte noturna da manhã,

a arte eterna (a próxima porta?)

 

É a árvore, a maçã, a queda...

(o pecado de Adão e a observação de Newton)

 

É a carne dos oprimidos, os ossos dos esquálidos,

quem esquece de tudo e retorna à lembrança

diante de um simples cálice de chuva

 

É a alma das melhores mulheres

e a corpo das mulheres melhores

 

A glória dos deuses é uma canção social

não está na oração em si, mas na hora da ação

– assídua como um sol e o pão das manhãs

 

A glória é uma montanha coberta de neve

à espera dos olhos quentes da primavera,

ardendo na ponta de fuzis, destruindo pontes,

ou no passeio público e sem pauta das putas,

ou andando por afiados versos

que desfiam no horizonte o desafio da fé

dos que amam ou matam com a mesma serenidade

 

A glória das noites é manter deuses provisórios sobre camas:

são homens e mulheres em breve longevidade nadando

até que as manhãs restituam à matéria

o sangue e o pão do trabalho,

moídos, ávidos, doidos, divididos,

como óstia tísica à sagração de uma história estática.

 

Do gargalo da garrafa à goela

Do trago do cigarro à fumaça no peito

Do apego ao fogo do desejo

circulam os humanos assim em níveis de intranscendência.

 

E ainda hoje, Liérmontov, a lua é o tempo viril da solidão

dos versos que nutrem o futuro da verdade.

 

A Lua, Liérmontov, até hoje habita a noite,

e nunca deixa a sós aquele que da brisa extrai tempestades.

 

bullet

Mikhail Liérmontov (1814-1841) é considerado o maior poeta russo depois de Púchkin.

 

Vem              Ave marinha             A mim               Vem                 Ave Maria              Amém


RAIZ


Lá estão minhas coisas, meu cão

Minha casa em repouso sobre a canção do mundo

 

Lá estão minhas grandes causas,

graves conseqüências

Minha cama, meu amor

O que é meu, enquanto Deus assim o quiser

 

Lá estão as aves sobre as árvores

Os homens em minha memória

e a eterna marcha da terra até o horizonte

 

O coração é fruto da história

O coração é raça e fome

quando agora é mar

em meus olhos que nesse poema ancoram

 

Aquele luar

Aquele lugar

Aquele chão tecido em barro

onde escorre meu caminho

como um sonho

em mim

 

Aquele mar de riachos

Aquele pão de sol em fatias

Aquela rede, como um cacho de banana,

pendurada na varanda

embalando meninos

 

A ave navegando pelo jardim

A nuvem úmida descendo pelo olhar

até nós

e em mim

Corpus


O mais rápido dos meus dedos

pousa sobre Vênus

em carne, osso e medo

plenos

 

ao lado,

dez mandamentos ordenam

o início do impulso

tatuado em nossos panos

 

tábua de memória

em ardente crucifixo

fábula de séculos

e séculos em sexo

 

na hora de nossa vida,

amém.

O primeiro sol


Como quem entra num quarto

e vê a luz aos poucos surgindo

pela adaptação da íris ao escuro

e não porque tudo ficou claro...

 

Como um caminho que,

à primeira vista, parecia ser longo

e, após duas ou mais vezes,

torna-se íntimo e seguro...

 

... o primeiro olhar de Gabriel entrou em mim:

brisa de uma manhã,

procurei guardá-lo como sol

nas cores de um domingo

cheio de praça, graça e hino

tudo com gosto de mel

 

Ele não chorava, nem sorria

apenas seus olhos se mexiam

como mãos procuram chaves

para abrir uma porta,

ou como aves

no escuro da madrugada

intuindo sua rota

 

Havia carícia e afeto

no lento movimento do seu corpo

abrigando-se, pequenino,

nos grossos braços do subúrbio,

como que consagrando

a pequenitude do grão de areia

diante do clarão aquecedor da Lua

 

Fechei meus olhos por uns momentos

e nunca mais vou esquecer

o ritmo de sua respiração:

a vida, enfim, vinha quieta e curiosa

tornando-se pássaro e estrela

em minha natureza

 

Hoje,

passados treze anos,

sinto-me em seus braços

como uma sílaba entre os traços

da mão sábia que escreve

sobre a passagem das nuvens

ou sobre a nua canção das aves.

 

Vejo a vida como quem sobe uma montanha

e não pode esquecer o que ficou para trás,

ao mesmo tempo que se eleva como uma prece

em busca do infinito sem parar o tempo

e redescobrindo o passado em cada gesto

quando esboça um novo movimento.

Herança


Minha pele é morena como o tronco do embaúba

 

Dos índios recebi a dor

de sentir minha cor como elo

entre a floresta

e a festa da flor

 

ou o ar

que gosta do susto

e do furor

 

Quando sou eu

alguém que não é só meu,

ouço um grito dentro do canto

 

Tendo como teto o céu

e, como matéria prima, meu sentimento,

ouço um grito dentro do canto

 

Os séculos passam,

tornam paralelos os homens verdadeiros...

 

Só os justos

as fronteiras estancam!

 

Aos honestos

cabem os moinhos

e os ventos!

Águas de mar

À JANIS JOPLIN, in "PEACE OF MY HEART"


Águas de mar

Memória e pétala:

Luz...

 

A voz exala pela garganta seca

a fantasia e o viver.

 

Minha canção é meu segredo ferido

a socos e pontapés pelo tempo

no vento

e na raiz

do vento

 

Mas o céu não está encoberto.

 

Sou cantor:

mais que vício,

mais que espanto,

nascer e morrer

é meu estranho ofício

a cada minuto

 

Olho pelo meu instinto

Fome de infinito

 

Pressinto meu instante

pedindo ao público ouvinte

um minuto de silêncio

incessante

 

Em odor de incenso

não penso mais

peço a astúcia e a carícia

de um momento

de canto

em nome da minha voz

 

Águas de mar

Memória e pétalas:

Mais que luz,

Paz!
 


Faça seu livro com quem sabe fazer e ama o saber @@@ Clique aqui e saiba mais sobre nós

Voltar ao início desta página

Se você gostou, escreva para:
liter@terra.com.br
Ou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/joaodeabreuborges.htm

home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    colunistas    cinema    teatro    concursos

páginas pessoais     agenda poética     ebook      entrevistas      histórico

Clique e entre




www.almadepoeta.com


Alma de Poeta
 
© Copyright 2000 / 2007 by Luiz Fernando Prôa