Poetas 3 x 4

Igor Fagundes



MERGULHO


Não leve nada à minha boca

que não seja mar

navio em ressaca

peixe desbravando meus vazios

Só traga à minha boca

o que tem sal

desenhe em mim o salto de um golfinho

quem sabe gaivotas sobre a língua

dela farão

nosso ninho

Só leve à minha boca o que me mude

que seja a farpa de um ouriço

mas me invada

flauta sobre a pedra a ostrar conchas

me guarde nelas

me faça pérola

mas não guarde nada em mim

que tenha chaves

não quero trancas maçanetas

é o mar aberto

que beija minhas baías

Não leve nada à minha boca

sem paixão

para que vejamos

de longe

perto

o que atrás do horizonte

ainda é pôr/nascer-de-sol

no coração
 



TRADUÇÃO


Dizer das paredes: rígidas

como os corpos que não cessam

de serrá-las,

mas não cessam de

erguê-las

pois o tempo é uma morada

quase intacta

– ora se desmonta,

ora está refeita.

 

Dizer das paredes: pálidas

como as noites ontem brancas,

pouco a pouco desbotadas,

quase iguais ao mobiliário,

aos motivos, aos retratos,

pois o tempo é uma tintura

que se gasta:

outra em que se invista

será só máscara.

 

Dizer das paredes: úmidas

como as páginas pelo rosto –

sobre a linha encanações

perfuradas,

infiltrações nos tijolos

das palavras,

pois o tempo

é uma espécie de rascunho

do que amanhã foge ao punho.

 

Dizer das paredes: versos

como as vigas que dão força

à estrutura, como cercas

que protegem nossa sala,

arquitetam nossas portas

e se soltam, como cal,

rumo aos quartos do sensível.

Pois o tempo se constrói

de cimento. E de invisível. 

 

Dizer das paredes: nós

como os pronomes pessoais

do caso incerto,

conjugados na labuta

da existência, pois o tempo,

mais que sólido, é ausência,

e por isso nos tramamos

rígidos, pálidos, úmidos, versos:

para preencher

 

                  nossos últimos restos. 
 



A quinta parede


Erguer a viga, ser a cal, unir tijolos,

a cada dia, cimentar o que do tempo

escreve em réguas sentimentos traduzidos

por homens - ciclos projetados por matéria.

 

Em cada espaço, a construção do labirinto:

a casacorpo não quitada em quatro cercas

na sala/campo de batalha e mais o avesso

- a quinta, ali, tão perto/longe, entre trincheiras.

 

Ao lado o quarto em quatro espelhos e o barulho

da quinta à margem dos ouvidos do relógio,

da cama, armários, livros, versos embaçados

por áreas fora do polígono visível.

 

Por mais que conte, a lucidez dirá são quatro

e faltará uma parede, várias, juntas

num só mistério: sempre a quinta

a discernir, pelo revés, o que completa.

 

O que completa a casacorpo em seus afetos,

transcende tetos, solos, portas, rodapés

predestinados para a quina, rumo à quinta

entrecruzada por ruínas e presságios.

 

Erguer, mover, repor muralhas, na procura

de ver aquela ainda não vista e que alimenta

a sede, a luta por razões, pela verdade

a ser quitada como chave para a paz.

 

E para sempre, em cadia dia, estarão noites

como se sombras em censura à liberdade.

Pois a parede enigmática do corpo

é o próprio corpo entre seus anjos e dragões.

 




Igor Fagundes
tem 24 anos, é carioca, poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, jornalista e ator.
Mestrando em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
e graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Autor dos livros de poemas Transversais (Primeiro Lugar no Concurso Literário
Estudantes do Brasil, 2000), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004)
e por uma gênese do horizonte (Vencedor do IV Prêmio Literária Livraria
Asabeça - 2005). Tem cerca de 60 premiações em concursos literários
e trabalhos traduzidos para o inglês, francês e espanhol.
Seus textos de crítica literária são publicados em jornais e revistas especializados.
No meio artístico, participou de 14 espetáculos teatrais como ator.
Produziu e escreveu duas peças. Dirigiu uma delas. Possui prêmios em teatro infantil.
 

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