Aroeira

 

O meu tesão pelas letras me arreganha as palavras. Defloro-me fazendo orações – a torto e a direito - sobre minhas imperfeições divinamente terrenas.



Tem dia que dá vontade de sair
correndo
e ir chorar na esquina do mundo.
 




De repente
tenho ganas de arrancar do peito
o coração
para observá-lo pulsar
compulsivamente
em minha mão

Que lentamente se avermelha

pulsão
compulsão
pulsação de sangue-bom

O sentimento no braile
no obscuro tátil da coisa.
 




Eu não sou poeta concreto
porque não se pode brincar
com a palavra.

A palavra é sangrada.
 


A literatura é uma liturgia.        A missa.       A missão.        A literaturgia.



Hai cai chuva de poesia
Na telha de Bashô
Bashô a nega maluca
Acabô de baixá
 




Sou milloriano e quintanesco,
me esclareço em Drummond,
me encanto em cem anos de solidão.
Borges brinca comigo
e Cortázar me corta e recorta,
mas é Rosa quem me dá a sensação de ser.
P.S. Leminski me abrevia.
 




Saudade daquela peça inteira de jacarandá
onde risquei um coração.
E onde esculpi com meu machado
meus desejos, minhas necessidades
minhas vontades saciadas.
Minhas curvas, meu pecado
a golpes de gemidos quase sacros,
de uma santidade profana.
 




pontes sobre o rio

Aves são pontes
que cruzam o céu.

rapina / pinguela

Alçar vôo
é riscar o ar.

Escrever é a arte de fazer
a ponte
entre a cabeça e o papel.

A mão é a ponte.
A caneta também.

Tudo é ponte
Tudo é sobre,
sobretudo.
 


O gesto é tudo.       A atitude é consciência.       Ação é preciso.



Quando você ouve
uns blams

são as portas
da sua consciência
batendo.

Ou a coisa passou
ou foi o vento.
 




esquina capital
 

Brasília é uma cidade sem esquinas

E não ter esquinas
É não ter encontros súbitos
É não ter a surpresa do que vem lá

Não ter esquinas
É não ter abordagens amorosas
Encontros marcados
É viver uma vida sem conversões

Não ter esquinas
É não saber do vento atravessado
É não sentir a nostalgia das penumbras
É não ter a orientação das placas de rua

Não ter esquinas
É não comprar na venda da esquina
É não perguntar ao guarda da esquina
É não ter o “extra” do jornaleiro

E não ter esquinas
É não saber o que é esquina

Pois a esquina
É onde tudo acontece

A esquina
É por onde a vida circula

A esquina
É a curva do mundo
 


ímpeto         essa palavra que impulsiona tanta coisa



No fim
tudo ter sido miragem:
as pessoas, os encontros
a vida.

A realidade foi um sonho.
A morte é a vida eterna.

Não é preto no branco, são cinzas.
 




o lado escuro do dia

A noite é mística
A noite é mágica
A noite assusta

(dizem, à noite, serem
os gatos pardos...)

A traição é parda
A eminência furta

A noite assombra
A sombra assusta

A noite esconde.
A sensação de bastidor é clara,
a luz da noite é escura.

Já o dia é exato!
É segmento de reta.
A outra é curva

Hiperbólica
Diabélica
Noite pura
 


axioma           duas retas encruzilhadas se encontram no destino.



Eu e a casa
A casa e eu.

Dois estranhos
um para o outro
Ela o ninho
Eu o pássaro
Solto preso
aqui no Acre

Eu e a casa
A casa e eu.

Ainda sem muita
intimidade
Suas paredes
nada me dizem
Meus passos
é que retumbam

O diálogo é o eco

Eu e a casa
A casa e eu.

Recintos formais
sentimentos demais
Mas eu falo.
E as paredes escutam
Escrevo.
Elas presenciam

Penso. Silêncio
 


Hélio Aroeira Jr nasceu em Belo Horizonte. Engenheiro civil de formação e
pós-graduado em engenharia sanitária trabalhou numa empresa de projetos e
consultoria durante 12 anos. Em 1996, chutou o balde das ciências exatas e
enterrou de vez os cálculos, fazendo da régua T uma peça de museu.
Trocou a calculadora por um editor de texto e se embrenhou na selva da publicidade.
Tem poemas publicados no Poesia-Brasil 1990 (DGF Edições) e na Agenda da Tribo (1997 e 2002).
Participou de vários concursos literários, mas não ganhou nenhum.
Parafraseando Borges, em relação a nunca ter ganho o Nobel, costuma dizer:
eles não gostam do que escrevo. Tem uma filha maravilhosa de 12 anos.
 


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