Poetas 3 x 4

Glauco Mattoso
São Paulo - SP



Soneto Natal

Nasci glaucomatoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.

Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.

Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.

Mas não compenso, nem que o gozo esguiche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.
 



Soneto Vicioso

Poema lembra amor, que lembra carta,
que lembra longe, e longe lembra mar,
que lembra sal, e sal lembra dosar,
que lembra mão, e mão alguém que parta.

Partir lembra fatia e mesa farta;
fartura lembra sobra, e sobra dar;
dar lembra Deus, e Deus lembra adiar,
que lembra carnaval, que lembra quarta.

A quarta lembra três, que lembra fé;
fé lembra renascer, que lembra gema,
a gema lembra bolo, e este o café.

Café lembra Brasil, que lembra um lema:
progresso lembra andar, que lembra pé,
e pé recorda alguém que faz poema.

 



Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias.
Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilho
com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou
perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir
a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.
Cursou Biblioteconomia e Letras, participou da resistência cultural á ditadura nos anos 70.
Editou um fanzine poético-panfletário, colaborou a imprensa alternativa e com periódicos literários.
 Durante 80 e o início dos 90 continuou militando no periodismo contracultural,
desde a HQs, revistas de música e na grande imprensa.
Na década de 90, com a perda da visão, passou a dedicar-se à letra de
música e à produção fonográfica. Com o advento da internet e da computação
sonora, voltou a produzir poesia escrita e textos virtuais, em livros,
em seu sítio pessoal e em diversas revistas eletrônicas.
Jamais deixou de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente
incorretos que lhe alimentam a reputação de "poeta maldito”.
Em colaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural
de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um prêmio Jabuti em 1999.


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E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br

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