Poetas 3 x 4

Erico Braga




Cena
XVI

 

gargalha e ri-se desgrenhada e louca

desdenha do mundo solta o cabelo

                                pinta a boca

prende a franja oculta um olho desfaz a pintura

range o dente troca a lente recolore a loucura

de preto reflexo um beijo no espelho

desmancha o cabelo desfaz o beijo

 
             tira a roupa

 

     E na triste fratura

dos cacos da imagem no corpo cansado

despencam os olhos

 

Triste miragem

 

Esconde em  rasura em cínica fuga

as íntimas rugas do esboço do rosto

Desgosto....

Reage!

                     De um lado

apruma o busto suspende a cinta

 

ajeita sugere a forma perfeita a calça que cava

     e fere

Impõe-se o salto enrijece a coxa

O cansaço... se esquece

comanda:

                      “enrijece”

 

A unha é vermelha

      O olhar é sangüíneo

                A boca é roxa...

 

Varizes se escondam no prumo da pose

pois mais do que nunca agora ela toda      

é mais do que o mundo

                            que todas as outras

 

Gargalha e ri-se enfeitada e rouca!

 

Todo orgasmo, toda volúpia

nessa hora é pouca...

 

Nada contém o desenfreio absurdo

do pacto da carne com o desejo surdo

Espalha o gris sob a concha dos cílios

A lascívia e o gozo... são todos seus filhos

 

Entalha um riso na face estupenda

 

Assim desejada ela quer que se estenda 

o desejo aos poros e em tudo se espalhe:

  

“Que a luz imprecisa da impressão se acenda...

Se apague o sol, que o dia falhe!

Que o mundo inútil não mais trabalhe!

Que o mundo então vire

ilusão tremenda!”

 

Feroz e Profunda no abismo da fenda

Violenta e Fecunda a noite chacoalha

pra isso só baste querer

 “é o que basta”

a papa lasciva que a língua arrasta

ao lóbulo lívido e lânguida espalha

promessas de terras de juras já gastas

a ética cíclica abrupta e falha

do choque cinético as Carnes que o início

o fim e o veio... a tudo embaralha

 

Sonhos da terra onde tudo se encaixa

 

A vaidade oscila se altiva ou rebaixa

de salto ou de quatro se orgulha do vício

sob o peso da farsa... é tão doce o suplício

 

À vida se entrega e rica ela sonha

pra tão doce sonho não há sacrifício

Extrai seu ouro do tolo artifício

quer se abafe no grito se oculte ou se exponha...

                                        a prostituta sonha...

 Desperta!

 
Sobre um copo na quina

                dormira da bancada de um bar de esquina

                a rua deserta

cinco da madrugada

 
Incerta

                 na lembrança embriagada

vê as noites enfiando-lhe abaixo a goela cerveja

Moeda ilusão porrada...

 

Só!

      Ajeita a bolsa levanta toma estrada

                             atrás dela

                            revolve-se poeira...  tristeza levantada

  

A poesia

é uma puta velha

 nenhum homem por ela dá mais nada.
 



ÉRICO BRAGA BARBOSA LIMA é doutor e mestre em literatura brasileira (PUC-Rio),           
editor e professor pesquisador da CÁTEDRA UNESCO DE LEITURA/PUC-Rio.
Publicou
Cenas de Mortes Vulgares (2003), poema-monólogo teatral, e pesquisou,
compilou e redigiu os textos da exposição da Academia Brasileira de Letras,
Sylvio Brasileiro Romero
(2001), além de ter ensaios publicados em revistas
e publicações acadêmicas, bem como prefácios e estudos críticos, produção poética
e crônicas dispersas em antologias, revistas e jornais do País.
Fez a direção musical e roteiro para os espetáculos apresentados no
Festival Carioca de Poesia
(junto ao grupo Poesia Simplesmente),
e para os espetáculos Quotidianus de nós (Brasília, 2005),
Baco
(Bento Gonçalves, 2004) e Concha do Rio (Rio das Ostras, 2004)


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