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Entrevistas |
Luiz Fernando Prôa
- Editor do site Alma de Poeta
entrevista por e-mail
Tchello d'Barros - Escritor, Artista Visual e Viajante.
Dezembro/2008
Foi uma grata
surpresa conhecer um artista tão completo, como o
Tchello d´Barros,
durante o XVI Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento
Gonçalves/RS.
Viajando em sua obra senti-me tocado pela qualidade e
perícia de seus
poemas curtos, de suas telas, instalações, fotografias e
em conhecer
a magia de seus poemas visuais, os melhores que já tive
acesso.
Agora quero conhecer um pouco mais desta grande figura
e dividir com o público do Alma de Poeta esta
oportunidade.
Alma de
Poeta: Tchello, me fale um pouco do que é ser um artista
múltiplo. Como você se vê dentro das diversas vertentes
do trabalho artístico que desenvolve?
Tchello
d'Barros: Ora, são canoas diferentes, mas o rio é o
mesmo.
Para além de vertentes, linguagens ou técnicas está a
poética de um trabalho,
a proposta conceitual, a idéia que vai nortear uma
produção, seja literária,
cênica, plástica, etc. Na verdade não há nada de novo
nisso, em outras culturas
e épocas os artistas faziam de tudo um pouco, de forma
natural.
O que talvez possamos considerar aqui é que essa é uma
tendência da
arte contemporânea: o hibridismo das linguagens
artísticas;
a multifacetação temática; a quebra de fronteiras entre
arte e ciência;
a pluralidade na produção de muitos artistas.
`Buscai primeiro uma poética pessoal e todo o restante
vos será acrescentado´!
Alma de
Poeta: Sobre seus poemas curtos - os poemínimos,
como você os chama - e seus poemas visuais, qual sua
visão
em relação a eles dentro do cenário poético atual?
T. d'B.: Me parece
que só estão nesse chamado cenário poético atual
porque estão sendo produzidos agora, nesse tempo, mas
prefiro pensar
que essas produções dialogam com a tradição do
Concretismo, com a
Poesia Visual do século passado, com a Poesia Marginal e
todas as vanguardas,
exitosas ou não, que caracterizaram a produção poética
experimental no Brasil. Anacronismos à parte, me
interessa transitar por essas escolas de ontem
- sem pretender renová-las - e falar das coisas do meu
tempo e dos meus lugares,
afinal, nossas idiossincrasias, são sempre
contemporâneas.
Os poemas curtos - verbi-voco-visuais - tem essa coisa
da brevidade,
da urgência, da concisão, dessa pressa atual, dessa
hodierna falta de tempo.
Já os poemas visuais são um encontro de águas de minha
produção literária com a das artes visuais. Nada de novo
sob o sol.
Alma de
Poeta: Em relação às artes plásticas,
fale um pouco das coisas que você faz e o que anda
aprontando.
T. d'B.: Bem,
são 15 anos de produção em desenho, pintura, gravura,
arte digital, fotografia, vídeo, instalação, objeto,
performance e coisas
que nem nome tem ainda, na média de uma exposição
individual por ano e um
monte de mostras coletivas. Nessa altura do campeonato,
a gente já sabe
separar o joio do trigo, já aprendeu a dizer não e que a
bússola aponta para
o Norte. A gente vai se profissionalizando e levando as
coisas mais a sério.
No momento, administro, digamos assim, duas exposições
recentes,
uma de gravuras digitais, a série Labiríntimos,
que já foi exposta em
Salvador/BA e em Maceió/AL. A outra é a mostra de poesia
visual
Convergências, já apresentada em João Pessoa/PB,
Maceió/AL e
em Blumenau/SC. Então, estou estudando as propostas das
instituições
interessadas em expor essas mostras. No paralelo,
trabalho na produção
de uma grande mostra de Fotografia, síntese de quatro
anos de trabalho.
Mas isso são ações a partir de trabalhos já existentes.
Já minha produção atual, tem a ver com uma volta ao
desenho,
ao figurativo, pois estou desenvolvendo imagens de
rostos,
de semblantes, transfigurações, um comentário sobre a
cultura
das celebridades instantâneas, onde parto de conceitos
aparentemente díspares como efemeridade e eternidade.
Quem viver virá.
Alma de
Poeta: Sei que além de artista você desenvolve oficinas
literárias e apresenta palestras. Nos diga deste
conteúdo.
T. d'B.: A
primeira coisa que digo quando ministro uma oficina
literária
- seja de Prosa ou de Poesia - é que ninguém ensina
ninguém a ser um escritor
ou um poeta. Eu realmente acredito nisso. Aliás, um dos
maiores mistérios
da mente é exatamente o fato da criação artística. E a
história está aí pra
provar que os grandes escritores e artistas tinham - e
tem - métodos
diferentes e únicos de criação. No entanto, para quem
está começando,
poderá ser útil receber toda uma carga teórica e alguns
exercícios práticos,
para, a partir disso, começar a encontrar seu caminho,
sua voz pessoal.
O fato é que as instituições artísticas precisam muitas
vezes atender
demandas da sociedade, de suas comunidades, e acabam nos
convidando
para palestrar ou eventualmente ministrar alguma
oficina.
Hoje dou prioridade para escolas e bibliotecas.
Nesses lugares, sempre tem alguém que aposta na
literatura como
uma ferramenta de ampliação cultural e transcendência.
Alma de Poeta: A
Internet e suas vertentes, sites, blogs,
You Tube, Orkut, etc., como você os vê, qual a
importância
e o que pensa desta nova maneira de socialização da
arte?
T. d'B.: No
mínimo, podemos encarar tudo isso como um privilégio
de nosso tempo. Um privilégio democrático na
comunicação.
Pode crer que Leonardo Da Vinci, M.C.Escher e Edgar
Allan Poe também
usariam se fossem nossos contemporâneos. Desde que
começaram essas
possibilidades tecnológicas, que tenho espalhado minhas
criações mundo afora,
me valendo desses recursos todos, talvez até em demasia.
No entanto,
o outro lado da moeda nos aponta para a busca da
qualidade em meio
a uma quantidade torrencial de lixo e futilidades, todos
os dias fazemos nosso
mergulho de caçadores de pérolas raras. Otimista como
sempre,
prefiro ver o lado bom: conheci artistas sublimes, que
me ajudaram a
ampliar minha visão de mundo e hoje desfruto também de
amizades
duradouras que só aconteceram mediante esses meios
digitais.
Aí também os semelhantes se atraem. Vida digital: ruim
com ela, pior sem ela.
Alma de Poeta:
Me
explique como é esta coisa de você ser um artista do
Sul,
mas radicado no Nordeste. Dizem que se queremos
conquistar o mundo
primeiro temos que vencer em nossa própria aldeia.
Por acaso foi isso que aconteceu? Artistas geralmente
migram
para o Rio ou São Paulo. Ou quem sabe foram os
ares salinos e morenos que lhe seduziram?
T. d'B.: O velho
Tolstoi tinha razão quando cunhou essa frase,
que na verdade parafraseia uma sentença bíblica sobre os
profetas,
e hoje na linguagem popular virou o axioma `santo de
casa não faz milagre´.
Mas e daí? Daí que fico com aquela máxima do filósofo
Taine, quando dizia
que `o homem é um produto do meio´. Daí que a grande
sacada seria
transcender esse meio, encontrar sua forma pessoal de
estar no mundo,
para além de limitações genéticas, religiosas, políticas
e culturais.
Fácil de dizer, difícil de fazer. No meu caso pessoal,
penso que
não tenho culpa em ser resultante das imigrações
européias no Sul do Brasil.
Fiz, faço e sempre farei meus mergulhos culturais no
eixo Rio-Sampa
e fora do Brasil, no entanto sempre desejei jogar tudo
pro alto e viver com
os pés na areia de alguma praia do Nordeste. E foi o que
fiz.
As praias aqui são mais belas que as do Caribe, a água é
quentinha o ano todo,
a cerveja é gelada e o camarão é crocante. Além de ser
mais perto e
mais barato que o Caribe, aqui o povo é simpático e a
gente anda na rua
tendo contato com o passado, o presente e o futuro, tudo
ao mesmo tempo.
Na grande perplexidade desse gran monde, que não
pára de me
surpreender, me contento com o clichê: catarinense de
nascimento,
alagoano por adoção e cidadão do mundo por vocação.
Alma de
Poeta: Já que estamos comentando sobre
conquistar
o mundo, você, apesar de jovem, já viajou por mais de 20
países.
Como foi esta experiência?
Foi na base da carona ou foi o sucesso que lhe conduziu?
T. d'B.: Sou uma
espécie de peregrino pós-moderno,
globe trotter mochileiro, colecionador de
horizontes.
O haicaísta Bashô, aquele poeta-monge-samurai japonês
medieval,
dizia que vez em quando sentia uma espécie de coceira na
sola do pé,
e isso era o sinal de que em breve seria hora de sumir
na estrada novamente.
Sinto também essa estranha sensação, essa necessidade
interna de migrar,
de deambular por museus e palácios, de absorver outras
culturas,
de visitar lugares santos e místicos, de me perder por
praças,
mercados e labirintos. Não viajo como turista, mas como
um viajante,
um discreto explorador, que distante de tudo e de todos
consegue
muitas vezes, entre mapas e o GPS, encontrar o rumo.
Às vezes a gente acaba encontrando a si próprio. Não
viajo de carona,
mas da forma que as populações locais viajam, seja de
trem, barco, lotação,
a pé, a cavalo, o que for. No paralelo, há um outro tipo
de viagens,
sob convites de instituições culturais, na qualidade de
artista visual ou escritor.
Raramente recuso...
Alma de
Poeta: Voltando ao assunto viagens, ouvi
dizer que seu novo
projeto é atravessar a Transamazônica fotografando,
escrevendo, pintando.
O que tem de verdadeiro nesta notícia?
T. d'B.: Em geral,
minhas viagens acabam gerando algum produto: crônicas,
desenhos e fotografias. Isso tudo ainda vai dar material
para exposições e publicações.
No caso da Amazônia, será a segunda parte de uma viagem
que fiz para essa
parte tão exuberante de nosso continente. Em 2002, vindo
de Machu Picchu,
estava na Venezuela, atravessei a fronteira brasileira
por Roraima e
depois conheci Manaus. De lá, após navegar sobre o
encontro das águas
do Rio Negro com o Solimões, segui num navio-gaiola numa
viagem de
cinco dias pelo rio Amazonas, até chegar à Belém, no
Pará.
Agora pretendo fazer a segunda parte, a travessia da
Transamazônica,
num percurso que se inicia em João Pessoa - onde é o
início dela -
até Rio Branco, no Acre. Essa deverá ser a próxima
aventura.
E depois, a América Central que me aguarde!
Alma de
Poeta: Sobre a cultura, como você se
posiciona:
olhando o próprio umbigo, trabalhando seu nome, ou
militando culturalmente,
conectado a outras pessoas que incorporam essa coisa na
alma, ofertando
saber e entretenimento, brigando por espaço, o que você
me diz?
T.
d'B.: Honestamente, penso que ninguém faz nada sozinho.
Isso pode soar meio pueril, mas o fato é que ainda há
muito pra se fazer
pela Cultura em nosso país, por utópico que isso possa
parecer.
Encaro a militância cultural como um mal necessário, é
como a voz rouca
das ruas que, quando unida se faz ouvir e gera
conquistas no campo
das instituições públicas e privadas. É quando a gente
tira uma parte de nosso
tempo para se dedicar a causas coletivas, de benefícios
plurais e efeitos
multiplicadores. Tive e tenho o privilégio de participar
de entidades
de classe, de associações nas áreas de Teatro,
Literatura, Artes Visuais
e no campo de ações sociais. A união faz a força, como
se diz, e é assim
que se pressiona políticos pusilânimes, empresários
avarentos e instituições apáticas.
É assim que se articulam projetos culturais relevantes,
patrocínios, apoios e parcerias.
É assim que muitas vezes se forma público para a
cultura, se fomenta o
mercado e se realizam ações para o desenvolvimento da
arte e da cultura.
Alma de
Poeta: Numa das faces de sua poesia,
desculpe se abuso no termo, mas sinto uma certa tara
pelas mulheres.
Isto é pose de galã ou o negócio é sério?
T.
d'B.: Considerando-se que a mulher é tema recorrente na
história
da arte e da literatura, em meu caso achei apropriado
dedicar uma parte do
meu trabalho a essa temática. Já em minhas primeiras
pinturas (1993)
o corpo feminino aparecia como leitmotiv. Depois
desenvolvi trabalhos a
partir de modelo vivo e naturalmente que na produção
literária, o mesmo
tema também apareceria. E continua aparecendo. Aliás,
não sei se existe um
tema mais interessante. A literatura e as artes visuais
são veículos para
nos fazer lembrar da beleza da mulher. Não essa mulher
subjugada pela
bundalização televisiva, mas a mulher em seu estado
mítico, sublime.
As grandes-mães da antiguidade, as musas mitológicas, as
heroínas das epopéias,
as divas arquetípicas da história da arte, as deusas do
cinema e a moça anônima
que passa na calçada. Sou grato por viver numa época
onde a mulher
vem alcançando seu verdadeiro lugar no mundo. Sou um
defensor dos
antigos matriarcados, onde, segundo os antropólogos, as
culturas onde
as mulheres estiveram no poder, raramente entravam em
guerra.
Acho que a porção divina no ser humano está mais
presente na mulher.
E elas acreditam muito mais no amor.
Bem, só falta agora descobrir o que as mulheres
querem...
Alma de
Poeta: E entrando no poema, quais são as
coisas básicas,
segundo sua visão, que não podem faltar num poema, ou
melhor,
o que diferencia o poeta que se destaca de outro que só
agrada os amigos?
T. d'B.: Alguns
teóricos são radicais ao dizer que não existe poema sem
o chamado ritmo. Seria o ritmo a base fundamental do
poema.
A metrificação é uma decorrência do ritmo. Aliás alguns
defendem que deve
haver algum tipo de métrica mesmo em versos livres. Já
outros, dizem que o
tema é a coisa mais importante a se considerar num texto
que se pretende
ser um poema. James Joyce privilegiou o estilo e a
linguagem.
Jorge Luis Borges apostava nas metáforas. Alguns
puristas defendem a forma
- as formas fixas - como base segura para se escrever um
poema.
Penso que estes são alguns dos elementos com os quais o
poeta deve lidar.
O mais importante talvez seja a possibilidade de alguém
conseguir no meio
disso tudo encontrar sua voz pessoal, seu estilo único.
Quando leio um poema
de Manoel de Barros, não preciso nem ver sua assinatura,
a gente sabe que
o poema é dele, porque ele desenvolveu uma escrita
peculiar, autoral.
Alma de Poeta:
Qual o recado que você deixa para o público
e também para os que agora se iniciam neste campo de
produzir cultura?
T. d'B.: O recado
que deixo para o público é que as civilizações passam,
mas o que permanece delas é a sua cultura. E aos que
estão iniciando,
vou me limitar a dizer aquilo que nunca disseram para
mim:
boa sorte!
Conheça agora a poesia de Tchello d'Barros,
em seus
poemas e imagens, e um pouco de sua trajetória.
É só clicar nas
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