Poetas 3 x 4

Elvé Monteiro de Castro



Cozido

Meta a colher de pau lá bem no fundo e mexa,

e mexa, mexa, mexa,

mas, primeiro, prepare a panela e o tempero:

use o dedo e besunte a base com barrela;

com calma, faça um molho bem molhado,

de azeite, creme e grelo de bambu.

 

Paciente, com a ponta da língua, experimente.

Aparte as carnes: duas coxas e costela,

lingüiça, dois ovos e peito de peru,

uma cenoura inteira, (cenoura não pica),

lavada, descascada e bem temperada

com azeite virgem, se possível, extra-virgem.

 

Quando o caldo estiver bem viscoso e macio,

meta a cenoura ou dente-de-alho grande e grosso.

                       

Aqueça bem, até ficar avermelhada.

Sinta o sabor, devagar, antes de murchar.

 

Ponha tudo em panela funda e em fogo brando,

junte um saco com erva de cheirinho-doce.

Se ferver, baixe o fogo e comece de novo.

Bom cozido demora mais de duas horas.

E, se estiver no ponto e a gosto a panelada,

meta a colher de pau lá bem no fundo e mexa,

   e mexa, mexa, mexa, até de madrugada.

 



Quadros de uma exposição


Passeio pelo corpo da menina-moça,

deitada no sofá – deusa nua e linda.

Afago seus cabelos, são fios de seda.

Sigo até os cílios, beijo boca e língua.

 

Cerro os olhos. Meio cego para ver só

com a alma. Confio no tato e chego aos seios,

que cheiro e saboreio. Vou ao ventre e aliso

os pêlos dourados do púbis.

 

Passo pelos lábios roxos. Estremeço

e chego às coxas. Oh, Deus criador, como foi

possível inventar a mulher e o amor?

 

Vórtice da paixão, volto e penetro fundo.

Final apoteótico. Acabo o périplo.

Quase desacordado, durmo a seu lado.
 



Elvé Monteiro de Castro desde sempre se dedicou à literatura, pintura e 
fotografia, principalmente depois de aposentado (1994), tendo escrito seu  
primeiro poema, Verso Puro, em 1953. Atualmente cultiva estas artes em 
tempo integral, participando de diversos grupos no Rio, tais como 
Terça ConVerso no Café, Panorama da Palavra, Sarau João do Rio, 
Sindicato dos Escritores, Quarta Capa, Ponte de Versos e 
a Oficina de Literatura do poeta Cairo de Assis Trindade.


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