Poetas 3 x 4


Eliane F. C. Lima



Insólito


Dentro deste prato inexorável,

fios de macarrão me olham indiferentes.
Enrosco os fios ritualisticamente
e a comida me incomoda, pedras no sapato.
Não sei se como ou se mastigo mágoas,
não sei se como ou se abro ferida.
Fios de macarrão são como larvas,
caem do coração, devoram a vida.
Dilacero meu ser dilacerado entre os dentes,
fios de macarrão, dores pendentes.
Misturo os gemidos com o molho rubro,
sangro e queijo.
Meu estômago agora repleto de sofrimento.
Olho o macarrão e ele chora... lamento!
Poucos fios de mim dispersos sobre o prato.
 



Encontro

Miro a mulher parada,
ela virada pra fora.
Será que vê a paisagem?
Esgazear de olhos negros,
ares de enxergar o nada.
O que será que espia,
fita, investiga, espreita?
Parece esperar alguém...
um eu que de fora vem?
Encostada na esquadria,
a porta, de par em par,
seu corpo é como miragem.
As mãos, vaguidão em cada;
os pés, um já vai voar;
o rosto voltado, embora
pareça ao errante afeita.
Com que será que ela sonha:
futuro, mar, querubim?
Por ordem de deuses gregos?
Será por pura peçonha?
Ela olha para mim.
Fascinada, olho a mulher:
está nela a minha face.
E, sem qualquer mais disfarce,
é a mim que ela quer.

 


Afinal


O meu dragão, onde está?
Procuro pelas esquinas.
Onde foi que se perdeu?
Tem as garras afiadas,
a bocarra imunda e quente,
seus olhos verdes vidrados,
o ódio acaba na cauda.
Tudo junto, onde irá?
Apuro ouvidos e olhos,
apuro, fino, meu faro,
a minha pele esfriada,
procurando labaredas.
Aguardo seus urros loucos,
incêndios e destroçar.
Belo corpo, meio cobra,
asas negadas de anjos,
se pode, vai para o céu,
se, não, rasteja no chão.
Sabe de si, sabe tudo,
esse meu dragão querido. 
Hei de achá-lo, de surpresa,
hei de dar-me, sua presa.

 




Eliane F. C. Lima

Carioca, dei aulas de literatura durante muitos anos.
E ainda ganhava para viver, dia a dia, aquilo de que mais gostava.
Porque a literatura está em mim, como as impressões digitais em meus dedos.
É fundamental. Se a vida acadêmica me levou até o doutorado – UFRJ –,
a vida comum foi mais adiante: a ficção e a poesia me acompanham como tatuagem.
Aposentada, edito os blogues Literatura em vida 2, Poema Vivo e Conto-gotas.
 


Se você gostou indique o endereço: www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
Ou envie seu comentário para o e-mail da autora: literaturaemvida@gmail.com

Voltar para Poetas 3 x 4



home    galeria de arte    poetas em destaque    poetas 3x4    poetas imortais    colunistas    cinema    concursos

páginas pessoais     agenda poética     poetas no You Tube      fala poesia      entrevistas      histórico

Clique e entre


Seu site de poesia, arte e algo mais...


©Copyright 2000/2011 by Luiz Fernando Prôa