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Graal
Há uma outra leitura
dentro de cada poema.
Não se contente nunca
com um sentido apenas.
Há na superfície mesmo
escondida nas obviedades,
nas tônicas, nos termos,
nas vírgulas, na sintaxe,
uma pulsação que exala
o mistério das sensações,
uma alguma outra fala
que salta de formas e sons.
Sentidos muitos se tramam
em teias, em redes, impulso
onde o que nos humana
goza ao
tocar o oculto.

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Boas
Boa poesia é música
mas não só
Boa música é matemática
mas não só
Boa matemática é lógica
mas não só
Boa lógica é malandragem
mas não só
Boa malandragem é poesia
o resto é
pó



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Limite
Para Mario Peixoto e Jane Duboc
I
Tudo que é
fechado
é pequeno
Tudo que tem
tamanho
é fechado
Tudo que se
percebe
é tamanho
Tudo
Fechado
Tudo
Pequeno
Tudo
Tamanho
II
Todo pequeno
é enorme no seu mistério
todo grande
é mínimo na sua simplicidade
O mistério da simplicidade
é o ponto cego
da compreensão
nó
ponto em nós
a simplicidade do mistério
é o ponto
nós


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O
Rascunho
contém um poema
que o poema
impresso
não tem
O testemunho
na lenta rasura
na pressão do punho
na linha da letra
O cunho
Aquilo:
o que a palavra
nem

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Inescapável
Para Marcus Vinícius
Não escolho o que vou fazer
não posso
Fantasio só
qualquer tentativa redunda
no mais redondo fracasso
Não decido o que escrever
me esforço
Por escrever só
Então escrito
respiro coragem
pra aceitar
o que decifro
Na folha
o que foi
minha
escolha




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Currículo
soneto sincopado
Já soquei tijolo já virei concreto
Já comi do bom e já pastei sem teto
Já passei vazio já sonhei repleto
Só me falta chorar pra ser completo
Já banquei o bobo me julgando esperto
Já fechei a porta e inda restei aberto
Já comprei a banca - já fui objeto
Só me falta chorar pra ser completo
Já plantei a dor tentando ser correto
Já tive razão mesmo sem estar certo
Já me fiz sublime - já fui abjeto
Já clamei por voz em um pleno deserto
Já me atrapalhei com tudo que é afeto
Só me falta chorar pra ser completo

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Sonetilho
Pro Pessoa
Como Pessoa, eu não sei
se penso o que sinto ou
se não sinto o que pensei
confusão bem portuguesa
de quem não sabe o que é
come sal à sobremesa
escreve usando talher
só, ocupa todo o espaço
ao encolher-se de medo
não sabe que é o cansaço
que não o deixa dormir cedo
Já que não sei o que sinto
como Pessoa eu direi
toda verdade é que eu minto


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Hedonismo
À minha frente à esquerda,
A minha frente, esquerda.
Imagem invertida,
apenas um duplo,
amor limitado,
coisa pouca.
Espelho só se pode beijar na boca



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Wit
pro Elliot
As coisas não são o que vemos
As coisas nem são o que são
Toda certeza que temos
É vaidade:
Qualidade
do que é vão

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Clã
papai papa papaia
mamãe mama mamão
vovó vive na vaia
titio tenta tantão
prima pra mim é praia
filho e filha filão

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I
Deixar correr pelo papel a mão
solta
sem ciência
sem direção
curtir mais
a cor da tinta
a curva da linha
o sentido do traço
Que
o sentido do troço
o ângulo do logo
o brilho da oclusão
Deixar pelo papel correr a mão
II
Deixar pelo papel a mão correr
e ver depois
se desenhos
ou palavras
se riscos
ou recados
Lembrar sempre
que desenhos são palavras
palavras são desenhos
e todos são riscos
todos são recados
Depois respirar fundo
mergulhar na inspiração
até calar a Babel
então ao expirar
Deixar correr a mão pelo papel
III
Deixar pelo correr a mão papel
e que a mágica se repita
mil e tantas e muitas vezes
até que a mão se solte
ligando-se assim à fonte
à cascata do aguadeiro
que generosa se derrama
levando o que é vivo a brilhar
até ser capaz
de passar a luz adiante
Deixa

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Singularidade
- Alumbramento -
Para Manuel Bandeira
Abriu-se um espaço no tempo
Abriu-se um tempo no espaço
Deu-se um silêncio no vento
Deu-se inequívoco passo
O espaço de tempo que é tempo
Bem antes de ser espaço
Expandiu um ponto lento
Pulsando tornou-se “eu faço”
E fez-se o universo imenso
E fez-se o
calor do abraço

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Poemas do Livro

Eduardo Tornaghi

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Biografia
Se você
gostou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/eduardo_tornaghi.htm
E envie seu comentário para o e-mail do autor:
eduardotornaghi@yahoo.com.br
Blog: http://papopoetico.blogspot.com/
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