Tudo da Melra, Testamento
Eu sou o último vestígio da
minha estirpe
disse-mo a melra, já me deu três avisos
subiu ao pessegueiro, pola do meio:
...Escreve os teus desejos antes de parar o tempo
reparte o mundo, reparte aquilo ao que já des-pertences
Onde, onde posso eu achar tão grande pergaminho
onde sem segar as almas todas dos carvalhos?
...Escreve no ar, solta livres as palavras
tu falas e eu vou movendo o vento que as leva
Mas a onde
a onde do infinito pequena amiga?
...Para mim o jardim e o pessegueiro, escreve
Isso é doado amiga vestido-preto
mas a quem deixar o peso do meu silêncio
a quem os recantos da terra que não pisei
a quem os segredos que me contou o mar
a quem as caricias das ervas do regueiro
a quem as pegadas que me leram na neve
a quem a colecção dos suspiros do loureiro
a quem os retratos da montanha na janela
a quem o deus do que descreio
a quem
a quem
diz-me a quem…
...A mim
eu sou quem fica
eu sou quem herda o mundo
tudo meu
quem te siga é estrangeiro
meu o mundo, da melra
bule
escreve
escreve
escreve
fala
diz
liberta o verbo
diz
tudo
tudo da melra...
Se Os Carvalhos
Falassem
Se os carvalhos falassem
não ficaria eu tão só
e as minhas conversas deixariam de ser
monólogos que me queimam na gorja
Se os carvalhos falassem
minha seria a dor da sua decota
meu o medo ao incêndio
e minha a capa de prata do seu tronco
Se os carvalhos falassem
meu seria o mundo dos pássaros
meus os degoiros e fantasias
minhas as pernas trepadoras de criança
e suas as minhas caricias
Se os carvalhos falassem
seus os meus ouvidos
minhas as suas queixas
meus os seus ancestros e os druidas
e as fadas do monte que há herdar meu corpo
Se os carvalhos falassem
Escutaria eu não outra fala
meu o refugio entre urzeiras e carpaços
minhas a paz e a liberdade
meu o meu destino
minha a minha pátria.
Concha Rousia nasceu em
1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza.
É psicoterapeuta na comarca de Compostela.
No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de
Marim.
Tem publicado poemas contos e artigos em diversas
revistas galegas como Agália, Lethes,
e a A Folha da Fouce. Fez parte da equipa
fundadora da revista cultural "A Regueifa".
Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro
romance As sete fontes,
foi publicado em formato e-book pola editora digital
portuguesa ArcosOnline.
Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário
Feminista do Condado.
Também em 2006 publicou em Rascunho, O Jornal
de Literatura do Brasil, o conto “Herança”

