Thereza Christina Motta   

Da matéria prima ao arte-fato,         elaboramos gloriosos modos.          O que temos, transformamos.          O que somos, é transformado."         


BELOS E RAROS

 

Felicidade é traduzir em poucas palavras aquilo que muitas não diriam tão bem.          TCM



O POETA SE CASA COM O UNIVERSO

      
Thereza Christina Motta

Deus somos nós. Com esse título, Tavinho Teixeira nos coloca direto pela bola sete.
Porque se somos Deus, como se explica o que não sabemos? Tavinho resume, à parte:

"Deus pra mim não tem mistério/ nem metáfora/ nem metafísica." "Deus pra mim é a vaga
pro carro na garagem,/ é a margem da contramão,/ é a anti-razão da existência,/ é a
essência do nada./ Deus pra mim é a vã coincidência/ e a incidência do fato./ É o coletivo
da santa ceia/ na inconsciência do ato de pendurá-la/ nas paredes das salas./ Deus pra
mim é o vazio da mala./ É o fogo fátuo./ É o vácuo do trem,/ o fiado no armazém./ Deus pra
mim é mais além." (Fiado)

Elisa Lucinda, no prefácio, preconiza: "Tavinho ama as palavras, tem intimidade com elas
e tem um olhar novo sobre todas as coisas. Isso faz dele uma criança grande e um poeta.
Quero estar vivíssima quando a poesia dele mostrar as assanhadas novidades de seu
envelhecer." Por isso Elisa não economiza para dizer: "Assim também é a poesia dele: tem
o sotaque forte, tem metrópole, tem região e tem Nova York." "O poema dele é
desarvorado, desembestado céu acima ou abaixo, um verso que resolve conflitos e cria mais
conflitos."

Concordo. E digo mais. O que é o poeta senão sua memória de dor? E o poeta vive
querendo driblá-la: "Peco por lembrar que peco./ Peço perdão porque nasci cristão./ E
perco a noção do pecado quando lembro/ que o pecado é uma invenção." (Cristão II)

O poeta se casa com o Universo cada vez que escreve um verso. Porque antes de ser o
Grande Arquiteto, Deus é poeta. O poeta ama. O poeta espera que em seu verso habite
o mundo. Que cada palavra colha a infinita bondade ou a torça para abrir uma rota de
fuga do inferno. Assim, cita Augusto dos Anjos, também da Paraíba como ele, nascido
em 1965, no mesmo dia que Fernando Pessoa, no mesmo dia de Santo Antônio,
embalados pela mesma poesia em que ambos foram criados.

De repente, Tavinho dá um salto e vira um poeta à la Garcia Lorca, enlouquecendo
numa metrópole que não é sua, uma cidade que mora nas veias de todos os cidadãos do
mundo, rasgando versos que engasguem a basbaque social: "oh coração delicatessen/
banco 24 horas/ posto select/ collect call em secretária eletrônica/ graham bell em todas as
distâncias/ toll free de todas as horas/ cartão de crédito bloqueado/ drive through pra
viciados./ estacionamento pra deficientes na paulista/ mc donald’s pra países
subdesenvolvidos/ cadeira de dentista/ música cardíaca nas salas de espera/ marca-passo
dos segundos no georges pompidou/ odisséia do século XXI/ coração destino do poseidon/
ilíada de homero/ idílio de ulisses/ coração ciclópico de netuno/ guarda noturno à paisana/
open box night and day/ chocolates after eight/ inverno em guanabara bay/ regalos hard
rock café/ ana botafogo de caixinha de música/ coração jesus de nazaré". (Celebração)

A palavra fere e se não ferir não valeu a pena. A palavra não adula, não modula, não
emoldura, não cria cicatrizes, deixa abertas as feridas e, enquanto sangra, vive.

Sua verve mundana o faz escorregar para fora do universo regionalista, colocando-o à
mercê do "easy rider" que está em sua alma, fazendo-o abandonar a tradição poética
nordestina do cordel (que ele diz arriscar de vez em quando), mas que se nota mesmo
quando não está escrita sob essa forma.

A poesia de Tavinho Teixeira é um mergulho no inconsciente, consciente de si mesmo,
depois de ter acordado em "definitivo", por causa das coisas que o arrastam para além
dele mesmo, da solidão, das lágrimas, dos abandonos, dos fardos carregados, loucuras,
felicidade, madrugadas e silêncios atmosféricos. Ser poeta está além de estar vivo. Pois,
ao pressentir a morte, entorna mais vida sobre si.

Deus somos nós (João Pessoa, 1998) inverte a ampulheta e faz com que contemos o
tempo para frente e para trás. Aonde iremos e onde fomos se mistura num sem tempo
presente que está aqui: "e agora que minha vida está beirando a lucidez/ e as horas são
pistas escorregadias/ e o vento esfria a minha alma bomba relógio/ e que a loucura é
inteligível/ e o cadarço do meu tênis deu um nó/ e a menina linda mesclou de belo/ a
imperfeição dos meus dias com poesias viçosas?" (Balada dos 30 anos)

Há vários mundos neste livro. Pousamos os olhos sobre versos que ainda esfregam os
olhos de tão novos. Seus poemas produzem um som diferente, ainda inédito. Me faz
aguçar sentidos e me coloca atenta ao que ele diz. Mesmo que não acreditemos em
deuses, eles são todos possíveis. Vestir a máscara, o anjo caído, as asas que não mais
alçam vôo, quando ainda há o sonho de voar. "A idéia de deus/ foi o que deu origem/ à
vertigem/ desse penso logo existo/ mas persisto na idéia/ de que deus é um acalanto/ pra
idéia do que somos." (pág. 49)

Seus poemas hão de ser mil vezes relidos antes de assimilados por completo, pois
sempre me deparo com mais um verso que não tinha lido direito. A poesia é assim,
sempre nova, renovada. Corre sangue novo na poesia brasileira. Corre sangue todos os
dias. Aprendemos, por ser isso o que fazemos, que há uma renovação integral, para
novas semeaduras e novos frutos. 

Como em
 

Egonauta:


tudo que escrevo, escrevo para mim mesmo

eu sou meu único objeto de desejo

eu sou a primeira pessoa do singular

eu sou minha própria cobaia particular



no meu mundo, não cabe ninguém

a não ser a mim mesmo

no meu mundo, minha solidão me basta

e o meu tesão me arrasta pro espelho



e no espelho eu vejo um deus

desconfiado da semelhança

entre o criador e a criatura

negando créditos à criação


Tavinho Teixeira diz, com seu Deus somos nós, que podemos ser deuses e humanos, ao
mesmo tempo, porque toda busca da poesia é divina, mesmo entranhada de dor,
imperdoada, ainda esperando o afago de Deus.
 

POEMA EXPRESSO, COMO CAFÉ 
para Tavinho Teixeira 


Talvez me sinta apenas nova, 

refletida neste espelho de Narciso, 

tão diminuta na imagem 

que nem sei se sou eu. 

Talvez esperasse por você a vida inteira, 

como por Godot 

e você nunca viesse. 

Como ele não veio. 

Mas você vem 

e você é esse que tinge 

as palavras de azul 

só pra ficarem bonitas. 

Seus poemas cercam a sonoridade das rimas, 

desce pelo outro lado do sonho 

e se instala onde antes havia pó. 

Sua estrada é a serpenteada fala 

de quem busca a liberdade nos passos 

e nunca volta. 

Adeus.

Seja novamente bem vindo.



Thereza Christina Motta
 

*Thereza Christina Motta é poeta, tradutora, editora da Ibis Libris Editores
e uma das organizadoras do evento Ponte de Versos, em terças alternadas,
na Livraria Ponte de Tábuas, na R. Jardim Botânico, 585, Jardim Botânico,
Rio de Janeiro. Tem seis livros publicados: Relógio de sol (1980),
Papel Arroz (1981), Joio & trigo (1982), Areal (1995), Sabbath (1998)
e Alba (2001), além de participar e editar dez outras
antologias poéticas nos últimos 21 anos.

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