
Cesar de Araujo
Na alcova, apaixonadamente
Não suporto nenhum tipo de ditadura:
só a tua ditadura, amor.
Ai de mim!
Se tudo queres, tudo dou
e nem sequer pedir eu posso.
Ai de mim!
Tu me esmagas, sufocas, oprimes, me devoras.
Eu te adoro e me apavoro.
Ai de mim!
O amor apaixonado é sempre assim:
ora no céu, ora no inferno
ora no inferno do céu,
ora no céu do inferno.
Ai de mim!
Vou vivendo-morrendo assim
de amor por ti e desamor por mim.
Ai de mim!
Deixar-te? – Jamais! Perder-te? – Ai de mim!
Tomba o corpo. Seca a alma. Tudo morto.
Ai de mim, amor, ai
de mim!

Da auto-esfinge
Eu
mito de mim:
desmito-me.
Nomeado por mim:
demito-me
Esfinjo-me-interrogo:
enigmação.
Posta a questão:
decifro-me-devoro.

E tanto amava
terra vento e água
que não sabia mais
se jardinava
alguma flor
ou a própria alma.
Um beija-flor
pousou
na sua calma.

As flores foram
feitas
para florir e ser colhidas.
Salta a criança
muros e grades
levando rosas.
Não hesita colher
mesmo em jardim alheio.
O mais são pernas
e a vontade enorme
de pintar a terra.

Repara bem:
eu sempre passo
uma só vez.
O mais são flores
com seus perfumes
que ainda vês.

Seguramente serás pó
mas
diferente.
Coberto pelas flores
cultivadas
teu corpo será pólen
nas estradas.

Ao menor poema
Por fascínio, aventura
é meu dever de poeta
um canto épico, monumental.
O Brasil, afinal...
Mas esse torpor...
esse cansaço
essa letargia... enjôo
e a minha preguiça é tal, que...
Que tal um poema sem
letra
iniciado com ponto
final?

Ilustração: Guima
Vade Retro
Longe de mim
os que não falham nunca!
Enchem-me de
vergonha!

Dessonhação
Sei que nunca
escreverei
o poema que sonhei.
Sonhei sonho de
fartura.
Quem sonhasse como eu
viveria nas alturas.
“Pasárgada” era
detalhe.
“Severino” não existiria.
Coisas de sonho,
fantasia.
Na real realidade
faça prosa ou poesia,
o poema não se faria.

O numerado
Sei que sou um
número.
Que número sou, não sei.
Sei que sou um elo ao
infinito
ou de retorno ao princípio.
Se tudo for redondo,
volto.
Se tudo plano, vou.
De qualquer modo,
sou.

Indigestão
ególatra
De tanto ser mim-eu,
virei minheu.
De tanto ser minheu,
virei mineu.
De tanto ser mineu,
virei mieu.
De tanto ser meu,
virei eu.
De tanto ser eu,
mivomiteu.

Da inversão de tudo
Há dias em que as
cadeiras sentam na gente
as águas se lavam com nosso rosto
é a noite iluminando a luz.
Quem sabe a verdade
o inverso de tudo?
Inferno de inverno
encontro um homem
sorrindo verão.
Contei a dezenas
não me entenderam
não acreditaram.
Há dias em que as
coisas ficariam bem
se estivessem ao contrário:
as árvores a plantar-nos
a estrada a andar em ti
a contemplar-me o sol.
Nós frutificaríamos
darias passagem
eu amanheceria.

Parábola do
fuzilado
Era um ladrão vulgar
roubava-se a si mesmo
para não se dar.
De ódio ao próprio amor
tanto fez, que o matou
para acabar com a dor.
Preso na guarita.
Processo. Condenado
à morte pela vida.
Perpétua execução:
todo dia no peito
um tiro de solidão.

Pedra
Pedra
amo-te assim
impermeável, áspera e dura.
Amo teu silêncio
pétreo e majestoso
tua brutal essência
e aparência.
Não te chamo
flor dos concretos:
- te ajardinaria.
Não te chamo
brisa concreta:
- te suavizaria.
Deito-me em ti
à beira-mar
à beira da estrada
no meio do campo.
Frágil e pequeno
meu corpo deita:
é a forma do encontro
de abraçar um deus.
Pedra
mais planeta do que eu.

Dos pedaços de mim
Encontro-me em pedaços pelo mundo
o pé direito subindo os edifícios
a mão esquerda a exigir amor.
Nos cabelos já nasciam flores
e grandes frutos pendiam de meus olhos.
Minha boca era mar
e o sangue, fonte rubra
de onde manavam as palavras.
Os dentes mastigavam nuvens
o azul invadiu meu coração.
Me fiz maior do que sou
deslimitei as fronteiras.
Fiz do sexo sementes:
o vento se incumbiu de me plantá-las.
Jamais serei somente mim:
se morro nas montanhas
recrio-me nos vales.
Quem repartiu as entranhas
não conhece o fim.

Metamorfose
Para vergá-la precisei de usar
uma nova linguagem que não minha:
desalfabetizei-me do pensar
e do equilíbrio que a palavra tinha.
E a joguei na cama-pasto a esporear-
lhe o dorso. (Égua de mulher feminina
e doce!) Ela deixou-me ruminar-
lhe o capinzal no vale de sua tina.
E quando me sentiu seu dono e fado
"seu cavalo!" e cavaleiro, entregou-
se inteiramente à monta. Dali afora.
pôde-se ouvir por todo o imenso prado
gargalhadas de amor que relinchou.
Saímos cavalgando pela aurora.e

Retrato em carvão: Doris Homann
À beira-mar
Amar à beira-mar
incendiando a pedra
incendiando o ar
incendiando o céu
incendiando o mar
incendiando o sol
enchendo de alegria
o tímido olhar
de um caracol.

Capa: óleo s/ tela: Silva Filho
Parábola do andarilho
Pois seu destino era estender o braço
de mãos repletas do ouro da alegria
compondo a vida sobre cada passo
calcado além do chão de todo dia.
Delineou no peito o próprio traço
dos caminhos de amor que seguiria
e não se esvaziava seu regaço
pois quanto mais se dava, enriquecia.
Não tinha
tempo nem lugar descrito
para fazer cessar a caminhada
de eternidade que ele foi criando.
E compreendeu que o mundo era infinito
no tráfego de amor da própria estrada
e que chegar é sempre estar andando.

Desamorosa
A Exelda
Não se via uma flor
no seu olhar,
por mais flores
que houvesse no jardim.

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