
Carmen Moreno
Ainda
Dizer urgente do amor
Ao amante
Antes que se quebre
O tempo
E os ouvidos –
Dissolvidos na terra
Não apreciem mais
A carícia das sílabas
Antes que as mãos
Tímidas de dar
Cessem de vez
Os movimentos
E todos os gestos
Virem ossos
Dizer urgente ao amigo
O valor do vínculo
Que só o amigo costura
Só o amigo cozeduras
Cozimentos cerziduras
Que só o amigo estanca
Os sangramentos
Dizer urgente do amor
Sem resistências
Antes que a língua
De súbito se cale
E o amor –
Preso por reticências
Maledicências
Medos mágoas
Role pelos ralos
Antes que o amor
Quedado pela foice
Faça da palavra não dita
Eterno açoite

Grutas
A mulher que mora em mim
Tem tantos mundos
Que todos os homens sou eu
Sou eu todos os músculos
E a leveza que move as saias
Que ninguém de mim nada espere
Nem amarre em minha fronte
Qualquer nome
Pois que o susto
É o Deus que me consome
A mulher que mora em mim
Tem fálicas reentrâncias
E ao amor sempre se lança
Num suicídio insaciável
Cede à beleza como a um assalto
E busca sempre no Ser - o salto
Não lhe bastam seus contornos visíveis
As formas fixas que a natureza pariu
Sua alma abarca seres insondáveis
Bichos de pântanos e aves raras
Desertos férteis de gente
E há surpresas nos seus seios fartos
De mel e de sementes
A mulher que mora em mim
Ontem quis outra:
Também homem também bicho
Também rara
Dela quis mais que o beijo
– a dor incrustada
Mais que o corpo
– a história
Mais que o sexo
– o que de si mesma nem ela traduz
Sombra e luz
Mas o desejo não é pontual
Como as manhãs e os desastres
Nem sempre uníssono
Como o canto dos pássaros
Não retorna certeiro
Como um grito na caverna
E a mulher que eu quis ontem...
Não me quis
Sorte é que o desejo
Também muda de objeto e de cena
E a mulher que eu quis ontem
Hoje virou poema.

Amparo
Meu pai e sua cela
Cotovelos cravados no mármore: vislumbrava o já visto.
Vistas revistando a vida como um inspetor insone.
Nos ombros, o norte o não e a culpa.
Meu pai: calvície e calvário.
Frases verticais: chicotes sobre minhas certezas.
Meu pai morava no desamparo.
Sorte que a casa amparava sorrisos nas frestas da cal -
Nas tréguas do caos.
E havia alegrias resistentes nos cantos dos quartos, nas rosas das janelas...
E havia o movimento dos irmãos,
E as mãos da mulher partindo pedaços de pão
Para não perdermos o caminho.
E havia a vida, avessa à loucura, sendo urdida para nós,
Por minha mãe.

A sua parte
O mundo está em guerra
Qual a sua palavra bélica?
Onde o seu amor emperra?
A guerra começa na sua terra
Na casa do cotidiano
No quintal do seu pensamento
Insano
Depois vira fala
E cresce em ato mesquinho
E você atira sem bala
No inimigo seu vizinho
O mundo está em guerra
Qual o seu verbo que mata?
Qual o seu gesto que enterra?

Com Tanussi Cardoso
a palavra costura, ou aparta-me do próximo.
No papel, deitada sobre a página,
deflagra-me o Universo.
O meu e o do outro.
No livro, a palavra não é ímpeto,
como no improviso da fala.
No livro, revisada, escolhida,
oferece-me apenas o perigo da beleza.
Que já é bárbaro!
O perigo de me impelir à ousada viagem de ver.
Ver-me, ver aquele que me escreve,
ver aqueles que são criados por quem me escreve.
O perigo de ver os mundos fervilhados nas folhas...
E não ser mais a mesma.
No livro, a palavra só ameaça
porque me convida a sair do lugar - a mover-me.
A palavra, estirada na página,
só pode me oferecer o risco do vôo.
E o risco de toda viagem,
por mar, terra ou verbo, é sempre o vôo.
Portanto, a palavra burilada do poeta,
a verve vertida em sílabas, do escritor,
é sempre bem-vinda, mesmo quando ameaça.
Sobretudo quando ameaça!
É brinquedo, mesmo quando bélica.
Plástica, mesmo quando revela a feiúra do mundo.
Salvadora, mesmo quando mata.
A palavra, pregada nas páginas dos livros,
em aparente imobilidade, está viva.
Contudo, proferida, às vezes agrupa-se tão ágil
que não há tempo de retocar-lhe o rosto.
E a verdade brota, abrupta.
E a mentira enfeita-se, convicta.
Quando proferida, sua ameaça tem natureza diversa
da que deleitamos no leito da página.
Falada, a palavra encorpa-se, cálida ou bélica.
E é carícia ou desamparo.
No entanto, uma vez expelida,
segue seu curso reto, irrevogável.
E atira, sem revólver, talha sem sangue...
mata sem vestígios.
Mas também tem o poder de socorrer,
com sua saliva salvadora,
qualquer um de nós que, na dor,
encontre alguém com o dom de usá-la como abraço.
Qualquer um de nós
que saiba valer-se de sua sonoridade
para adoçar a língua e salvar alguém.
Para salvar-se.
A palavra quando fala,
expulsa da boca um corpo invisível.
Quando fala, a palavra é carne, é gesto.
Mas quando cala, também é forma viva.
Disfarçada de silêncio, no fundo do pensamento,
às vezes grita seu medo de exprimir-se, parir-se.
Grita seus segredos, seu lixo orgânico e suas benfeitorias.
Viva, no caos do pensamento, a palavra inventa o futuro,
retoca o passado, e ensaia o presente - para vivê-lo.
Mas neste trajeto do falar ao ouvir,
pode gerar breu ou brilho,
conforme o berço preparado para acolhê-la.
Quem ouve é sempre co-autor do que é dito.
A tradução de quem ouve,
seu universo de significados e imagens,
sempre ajuda a escrever paz ou guerra.
No entanto, há de chegar o dia em que,
libertos de escrúpulos e medos,
domados pelo afeto,
usaremos bem mais a palavra como beijo

Quase cinqüenta
O amor roçou no tempo até esgarçar-se
de vez - por excessos
Quando caminho as coxas roçam uma na outra - por excessos
Cortar gorduras é exercício estóico (às vezes esmoreço e espreguiço)
Mas tenho apreço pela assepsia da alma:
Limpo desde menina o lixo entranhado na história
Há que se enxergar a dor com lupas
Sangrá-la até libertar o sorriso soterrado
Sorte: o sol é exercício diário
Disciplino a fé - que o medo tem recantos insondáveis
Crescer não é uma linha reta
Recaio e aprumo os cabelos a cada ventania
Minha mãe há noventa anos me ensina que aprende
Apronta-se apenas para o instante
O presente é seu presente
Rega as plantas e tece bordados com mãos firmes
Teço palavras para salvar meus jardins
Que a seca é perigo iminente
Aprendo com minha mãe a brotar sementes podar folhagens
E espanar a fuligem que encobre os sonhos
Tenho quase meio século
Imprescindíveis tornaram-se os óculos para leitura
Mas prescindo de intérpretes para almas
Leio entrelinhas como nunca!
Venho esquecendo datas e nomes
Mas tenho lembrado de perdoar
Que o tempo não seria apenas a erosão dos neurônios
E o despencar dos músculos
Há que se gozar os ganhos da dialética:
Escondo a barriga sem lipo
Mas a alma –
renovada - mostra a cara.

Indagações sobre o começo do fim
De que recanto do amor o pássaro da morte
Levou no bico o teu beijo?
De que célula adoecida alastrou-se, sorrateiro, o desencanto,
– o cancro?
Quando teu olhar nublou os raios que acendiam nosso quarto,
E a ascensão do fogo rendeu-se à gravidade,
Qual balão apagado em queda lenta?
Em que subterrâneos do fim, o cinismo tecia
Seu golpe absoluto?
Que atávicos ruídos neguei ouvir, curvando-me à cegueira?
Em que átimo de tempo, o rumor do silêncio apartou nossos corpos?
Quando o chicote da língua roubou das palavras o afago?
Em que instante invisível, a semente apodrecida alojou-se
Sob os tacos da casa,
Rompendo a liga dos tijolos, a proteção das telhas,
O ânimo dos abraços?
Quando, em tuas veias, o gotejar do tédio
Virou sangramento interno,
E a verdade internou-se na ala dos doentes terminais?
Quando, a mentira, adornada de afeto,
Deformou o primeiro traço do teu rosto?
Com que barro o artista barroco erigiu, na praça do meu peito,
Tua máscara verossímil - tão bem talhada -
Tombada, de súbito, no chão do deserto?
Quando (analfabeto de mim) não pude ler nos teus gestos
A sílaba traiçoeira?
Quando o bafo do abandono mudou o hálito das bocas,
E a mudez (ora implacável)
Lançou nas
salivas o gérmen do último verbo?

Com Tanussi, Márcio Carvalho e Glória Nunes.
Passagem
(para Márcio Carvalho)
Tantos que se apartam de mim
O peito apertado desprende o choro
Que a tarde apreende
Perder um amigo não se aprende a pouco preço
Apresso-me a aceitar que todos vão
O coração em vãos fatiado
Aos poucos muitos partem
Para planos luminosos – ao longe
De perto nos espiam com seus apreços de espíritos
A tarde traz a aragem árida da saudade roçando...
Sem prévio aviso o coração infla o amigo por dentro
Com seu corpo de nada
Aceso e vivo como deus
Deus me roubou outro bem
Na sua gula de engolir amores
Ânsia de reaver os filhos
Deste quintal
provisório

Com Mano Melo
Do Divino
Minha mãe é o tempo
Templos tendas todas as casas:
Asas sobre nós
Relíquias de alegrias
Repartidas no gesto e na voz
Moram mundos
Em seu coração de bronze
Que se estilhaça e se refaz
Em incansáveis curas
Orixás restauram o chão
Sob seus pés
A cada desventura

Com Delayne Brasil
Ciclos
Tenho um desejo sob a sola do meu sapato.
Caminho sobre ele – que é desejo que não se amassa.
Empoeirado sobre o solo, súbito se ergue, enganando eras...
Um desejo jogado no árido –
Como o poema que cresce sem apuros de trabalho,
Sem imagens lapidadas,
Como tudo que robustece sem leite de mãe.
Tenho um desejo que floresce, tolo:
Não rego, não noto, não provoco flor.
Quando olho, no meio da ramagem seca,
Tem nova ameaça
de amor!

Mensageiro
(para Tanussi Cardoso)
O dom vem de deus
Dádiva - desce da luz
Bruto
Estende tua mão
Trabalha tua mensagem
Talha tua palavra até o sangue!
Deus descerá um pouco
A cada verso
Disfarçado sob teus signos
Disseminado no ventilar
De tuas páginas

Silvio R. de Castro, Bruno Candéas, Bianca Ramoneda,
Cabelo, Tanussi e Carmen.
O Passado
O corpo do ex-amor não tem carne.
Ergue-se nos sonhos, dublê do real.
Réplica desfeita na aridez da aurora.
O corpo do ex-amor, fóssil raro na tela da alma,
Não mais se move pela casa.
Que outros cômodos guardam seus gestos?
Que novas terras atraem seus pés?
Trajes de que cor vestem o corpo do ex-amor?
O corpo do ex-amor, inerte ao tato na tela da mente,
Hoje para quem mente?
Inodoro, invenção, despe-se agora para outras mãos.
O corpo do ex-amor,
Antes íntimo, hoje mágoa,
Prédio histórico tombado,
Esmaecida dor.
Inútil o corpo do
ex-amor.

Carmen Moreno
Escritora carioca, recebeu prêmios em
diversos gêneros literários.
É contista, romancista, poeta e dramaturga.
Concluiu os cursos de Bacharelado em Artes Cênicas e Licenciatura em
Educação Artística, ambos pela UNI-RIO. Leciona na área de sua formação.
Publicou
O Primeiro Crime, (romance policial), inserido na coleção Elas São de Morte, ed. Rocco, 2003; Diário de Luas (romance), finalista da 5ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, ed. Rocco, 1995; Sutilezas do Grito (contos), ed. Rocco, 1997; O Estranho (contos), ed. Fivestar, 2006; De Cama e Cortes, poesia, ed. UERJ, 1993;
Seu trabalho integra diversas ANTOLOGIAS, entre as quais, a coletânea de contos Mais 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, org. Luiz Ruffato, ed. Record, 2005.; Antologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary, ed. Hipocampo, 1992; Revista Poesia Sempre (nº 21), ed. Biblioteca Nacional, 2006; A Erosão de Eros (dramaturgia), ed. RioArte (Menção Honrosa no Concurso Literário Stanislaw Ponte Preta), 1996. O texto participou de ciclos de leituras em teatros da cidade do Rio de Janeiro, e foi encenado em 2004;
Principais premiações
Prêmio Casa da América Latina (Concurso de Contos Guimarães Rosa 2003), promovido pela Rádio França Internacional, Paris;
Bolsa de Incentivo ao Escritor Brasileiro, categoria poesia, pelo
livro
Língua de Mulher, MINC/ Fundação Biblioteca Nacional, 1994;
Prêmio de
Desenvolvimento de Roteiros Cinematográficos de Longa-Metragem
(1ª fase: Argumento), MINC/ Secretaria do Audiovisual, 2001 - o roteiro A
Delicadeza das Facas é uma adaptação, realizada pela autora, do romance
Diário de Luas, acima citado.
Mestrado
A obra da escritora foi tema do mestrado de Lilian Gonçalves de Andrade: "Diário de Luas: um Künstlerroman no universo literário de Carmen Moreno", sob orientação da Profª Drª Eliane T. A. Campello, da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG), RS, 2006.
Poemas
encenados
Espetáculos Amor Feminino Plural, protagonizado por Maria Pompeu e dirigido por Mônica Alvarenga (2002 - 2005) – Ambulâncias na Contramão; O Último Bolero, 1995 e Palavra de Ator, 1993 – dirigidos por Márcio Vianna.
Palestrante
XlV Congresso Brasileiro de Poesia e XIV Encontro Latino-Americano de Casas de Poetas, Bento Gonçalves/ RS ; Forum de Ciência e Cultura, UFRJ, RJ; Encontro Nacional de Poesia, BH, Minas Gerais; Bienal Internacional do Livro (XII e XIII), evento Jirau de Poesia, Rio/ RJ, A palavra e a imagem na criação literária, Centro de Artes Calouste Gulbenkian/ Prefeitura do Rio de Janeiro, SME, 2007, entre outros.
Recitais
A escritora participa, desde a década de 80, de recitais de poesia em inúmeros espaços culturais da cidade do Rio de Janeiro, tais como: Poesia na Praia, Posto 9, Ipanema; Poesia no parque Lage; Arte Contemporânea na ABL; Forum Poesia, UFRJ, Terça ConVerso no Café, Teatro Glaucio Gill, Jirau de Poesia, Bienal do Livro, entre outros.
Algumas
referências à autora
Enciclopédia da Literatura Brasileira,
Vol.II (Afrânio Coutinho J. Galante de Sousa), 2ª ed., Coord.: Graça Coutinho e
Rita Moutinho - MINC/ Fundação Biblioteca Nacional/ DNL. São Paulo, 2001.
Quem Conta
um Conto: Estudos sobre contistas brasileiras estreantes nos anos 90 e 2000,
Org. Helena Parente Cunha, ed. Tempo Brasileiro, 2008.
Sites
www.klickescritores.com.br
www.acd.ufrj.br/pacc
www.rocco.com.br
www.kuhner.com.br/catalogo/ (Colaboradora
do
Catálogo de Autores e Obras Teatrais, idealizado e
coordenado por Maria Helena Kühner)
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gostou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/carmen_moreno.htm
E envie seu comentário para um dos e-mails da autora:
carmenmoreno@oi.com.br /
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