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Enigma
sou
este ponto de espanto
no entra-e-sai – no vai-e-vem
metade de mim é quando
a outra metade é quem
parte em mim é desespero
outra parte desencanto
só sei ser múltiplo inteiro
quando eu amo – quando eu canto
tento juntar os pedaços
passos, pessoas passadas
não sei onde estão meus rastros
meu retrato mais exato
entre estes cacos e restos
nem perfil nem biografia
se me perdi nos meus versos
um dia viro poesia

Graça
pela poesia que vi
pelos sonhos que sonhei
pelas coisas que curti
pelas mulheres que amei
pelo que dei e perdi
por ti e por quem nem sei
por tudo até agoraqui
o que sofri e cantei
pelo sim e pelo não
a vida não foi em vão

Celebração
hoje é sempre melhor
do que ontem,
porque hoje é hoje,
esta coisa mágica,
única, surpreendente,
que se acaba de repente.
hoje é melhor
do que amanhã,
porque hoje é hoje
e estamos vivos
e plenos de tanto,
até não se sabe
como e quando.
hoje é sempre
melhor que sempre,
porque o hoje foge,
amanhã é um mistério
e ontem é só memória,
história, já era.
hoje é sempre
o maior presente,
porque a vida é agora,
esta hora de som
e luz e festa,
e este instante é tudo
o que nos resta.
Quintanar
nada mais dura:
tudo é pressa pura
tudo se acaba
e
se perde:
as pedras, prédios, impérios
tudo o que perdura
são as nuvens
o arco-íris e os vaga-lumes
das noites de primavera
o mais é literatura

Tomografia
ninguém imagina
que sou deprê, tenso,
e trago uma dor
constante, no peito.
ninguém desconfia
que eu sofro de insônia,
que sou muito louco
de excesso de sonho.
ninguém acredita
que eu guardo uma surda
tristeza, lá dentro.
tão forte, tão funda.
porque eu levo um riso
debochando sempre
do que me tortura
e bem escondidas
de mim e do mundo
as marcas das feridas
e das fraturas.

In Extremis
Quero
que venhas,
cheia de desejos,
com a alma nua,
a me cobrir de beijos.
Quero que entres plena,
tragas mil carícias,
sede por lascívias,
fome de prazer.
Quero que chegues
como quem vai matar.
E que fiques,
como quem vai morrer.
Cais do Caos
inspirado em
Cristiane Brito
Quero qualquer cara
que me queira inteira,
assim como sou,
do jeito que estiver.
Quero um homem
que me coma,
que me ame como
uma mulher.
Quero ser descoberta,
desbravada,
como uma estrada
que leva ao cais do caos.
E viver destroçada,
de paixão em paixão.
Depois ficar só,
chorar, doer, sangrar.
E morrer de tesão.

Qualquer
Cenário
Tanto faz, numa cama
linda,
com lençóis de seda
e almofadas, em colchão macio,
como no chão duro e frio
de um quarto pobre,
numa velha casa de subúrbio,
ou até mesmo ao ar livre,
na grama ou na areia,
debaixo de qualquer céu.
Tanto faz, tanto faz...
eu quero é ficar contigo,
assim nós dois nus, em paz,
totalmente entregues,
um dentro do outro,
curtindo tudo o que nos apraz.
Cantor do Amor
Eu queria ser o poeta
dos sem-terra e dos sem-teto;
servir, como um anjo da guarda,
aos tristes e deserdados;
ser o arauto dos sem-voz,
dos loucos, perdidos e sós;
dos feios, fracos, falidos,
sem porra nenhuma, na vida.
Eu queria ser o poeta
de todos os que não deram certo;
sem deixar, por um instante,
de ser o cantor dos amantes.

Último Poema
Esta noite eu tomaria
todas as drogas do mundo,
beberia todos os oceanos
e transaria homens e mulheres
até morrer, dilacerado de dor.
Esta noite eu faria qualquer coisa,
por mais louca e absurda que fosse,
pra não sentir este vazio broxante
e esta puta angústia, velha e avassaladora.
Eu me converteria e cometeria todos os vícios,
sobretudo os que aprendi no hospício,
e mergulharia fundo na depravação,
igual a que praticávamos na prisão.
Depois, poderia morrer, sem pressa nem tristeza,
porque experimentei o inferno e o paraíso
e me redimo em ter feito com o corpo
os mais belos poemas que não ousei compor.
Por fim, me entregaria a deus e ao diabo,
perplexo como o menino que fez arte
e jamais conseguiu ser um artista
ou o artista que esqueceu de ser menino
e de repente descobriu que é tarde.
Transbordamento
a inspiração às
vezes
cai, às vezes, ai,
nem bem vem, passa
perto e, na hora, vupt,
voa, vai embora.
como a vida que se esvai,
um dia esta pálida página
há de ficar vazia.
agora eu tô por fora
e não tô prosa
nem poesia.

Vate em
Transe
poema só se faz poesia
se emitir mensagem
se tiver magia
se for viagem
(o poema não é um monte
de palavras vomitadas:
é um vírus visceral
revolucionário)
e um poeta só será poeta
se for fundo, inteiro, intenso
e viver sempre entre
a vertigem e a voragem

Dúvida Cruel
para
Thereza Christina
não sei se
fico
na internet
liga a tevê
vejo a net
não sei se saio
pinto o 7
enfrento o trânsito
e pivete
ou faço amor
tête-à-tête
aqui em meu kitsch
kitchenette
não sei se vou
pro Tibet
ou corto os pulsos
com gilete
PEQUENO GORJEIO
para Octávio Paz
Canta a passarada
e não sabe o que canta:
tudo o que conta
é a sua garganta.
Canta a passarada
sem porquê, nem por quem.
É seu canto, mais nada,
e tudo bem.
Canta passarada
de graça, na boa.
Só ouve quem vive.
E quem voa.

Pileque de Palavras
entro no poema sem pedir licença
sem medir limites – livre e sem pudor
entro de cabeça entro inteiro dentro
desnudo e em espasmo mergulho me perco
me afogo e me engasgo – susto transe surto
quase sofrimento quase-quase orgasmo
saio do poema como quem renasce
tonto e muito louco – quase sangro sempre
quase sempre gozo y sempre morro um pouco

Exílio
Com você, me sinto
imenso,
qualquer encontro é sempre muito intenso:
me transportam a outras dimensões
quaisquer gestos, mínimos momentos.
Com você, a vida é uma loucura:
eu viajaria por qualquer lugar,
embarcaria em qualquer aventura
no inferno, na terra ou no meio do mar.
Com você, eu ficaria para sempre,
em silêncio e prazer, alheio a tudo.
Junto a você, eu poderia até morrer.
Aos apaixonados não faz falta o mundo.
A um apaixonado não faz falta nada.
A não ser o outro. Junto.

Resalva
a praça é do povo
com exceção do palanque
e do microfone
Práxis
à Luana Trindade
mãos
à luta!
depois, a gente curte, colhe
e come a fruta.
Relatividade
Tudo é diferente
quando acontece
com a gente
Outono
as folhas caem
eu desmorono
Epifania
ruas, rios, céus, e
sóis...
tudo existe só
por mim, por ti pra nós.
Identidade
O poeta
& a puta
são iguais
em tudo:
ela sorrindo,
na luta;
ele sangrando
a cada canto.
O poeta
& a puta
são irmãos
na vida:
ambos morrem
se entregando.

Dupla do Prazer
Memorabilia
guardam-se
em memorandos os quês,
os quens, os quandos.
entre flashes perdidos no tempo,
desenha-se
incerto esboço:
sonhos, sombras, rostos, nomes, toques, gostos.
recriam-se as cenas, os planos-seqüência.
carrega-se
nas tintas, apagam-se alguns traços,
ganham vida personagens.
vestem-se as imagens,
engendrando gestos possíveis da engrenagem.
congelam-se
momentos
e se auscultam cérebro, coração e células.
abre-se
o foco ao máximo
e se deixa ir o pensamento em liberdade pela página,
pela mão, por improváveis cenários,
até
alçar vôo nas asas do imaginário.
consultam-se agendas antigas,
velhos álbuns de retratos,
cartas extraviadas, vídeos,
vestígios velados nos desvãos do esquecimento.
revela-se,
quadro a quadro,
o abismo entre memória e passado.
Labirinto
preso a meu corpo
preso a meu peso
preso a meu porto - meu endereço
preso a meu nome preso ao presente
a meu telefone - meu desespero
preso a meu ego preso a meu preço
ao que carrego e ao que careço
preso ao pesares preso aos prazeres
preso ao prosaico a pressões preconceitos
preso a prazos horários agenda
conta bancária - quanta corrente
preso a números e documentos
preso ao desprezo que sinto por eles
detento de tantos, exilado em mim mesmo
sou refém e carcereiro
tenho as chaves e as algemas
e entre grades que eu invento
me liberto
no poema

Comentários
sobre o Poeta
A poesia de Cairo Trindade
é uma fusão entre o rigor estético,
a liberdade criativa e a ousadia política. Essa trindade de
técnica,
inventividade e coragem desobediente está unificada
em seus poemas com a mais pura "simplicidade".
Eduardo Guerreiro
Cairo Trindade, gênio erótico, é um poeta de inspiração divina.
Victor Giudice
Cairo consegue captar a alma feminina, como Chico Buarque de Hollanda.
Olga Savary
Uma poesia-pulsão. E em permanente movimento de prazer.
Marcus Vinicius
coisa espantosa:
nos versos de cairo
a língua portugoza.
Carlito Azevedo
Poeta de vastas inquietações, capaz de dizer teatralmente seus poemas,
ainda que alguns sejam visuais.
Gilberto Mendonça Teles
Cairo Trindade, em sua proposta fundadora, imprime estética ao sexo.
Faz performances onde os movimentos são
da melhor expressão corporal.
Alvaro Sá
Professor/escritor que usa os obstáculos do aprendizado
para extrair o melhor dos freqüentadores de sua Oficina Literária.
Nei Leandro de Castro
Ótimo poeta que é, Cairo de Assis Trindade acredita no poder da Poesia.
Tanussi Cardoso
A obra de Cairo Trindade tem este dom único de intensidade,
coragem e leveza. Um prazer de ler e sentir.
Regina Garbelline e Décio de Mello
A poesia
do Cairo mais do que pulsa nas veias, une a carne à essência.
Dilacera com toda e qualquer indiferença.
Luiz Fernando Prôa
Entrevista
concedida a Mônica Montone
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Se você
gostou, escreva para:
cairotrindade@gmail.com
Ou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/cairodeassistrindade.htm
Veja também:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
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