|

Infiltrado de sangue tupi
Encarnado pela alma bânto
Bafejado pela brisa insular
Ego ibérico que me segue...
Se há de elidirem
Canto para que se despeguem.
Lenda vária, nenhum gen me estraga
Sou eu sem venda
Se existe alguém em mim
Não é emenda.

SEM POESIA, NEM PORRADA
Simplesmente os recados foram dados
Que não temos nada a ver com isso
Que percorremos quase todos os ninhos
Sem nos acharmos nascidos
Que molestamos quase todo mundo
Sem obtermos calor, ou menos perigo
Que somos pó em plena vida
Sem a ele termos sido reduzidos
Simplesmente pó, sem poesia, nem porrada

POEMA SOBRE O VAZIO
Escrevi um milhão de poemas no tempo-espaço de uma vida
Sobram seis versos.
Afiei um milhão de facas nas pedras que se me interpuseram
Sobra a estrada.
Matei milhares de animais para matar minha fome
Sobra um ser de nada.
Soletrei tantos alfabetos que nem mais me comunico
Sobra a palavra amor.
Expulso do tempo, ando com um estrépito de asas no crânio
Não sei qual delas é o par da alma, nem quando
Erguer-se-á, pela janela
dos olhos, no vento que não enxergo.

Tempo esgarça, tempo não passou
Que ele é farsa, transposta a massa
E o peso dos anos, depois da evolução.
O vento da praça tem poeira
Já não encontro palavra na nevasca
Vislumbro um deus que dança sem tempo
Nenhuma mudança me basta.
Não há o que mudar, para onde
Quando o tempo é novo e a ré me embaça
Pratos cravados na areia
Comeremos o esquecimento.
Ventre digere o que caçávamos
Que vivente abatemos?
Como posso lembrar de mim com fome
Se tempo algum se insere no que fui.
Nuvem, bruma, uma espuma na fumaça
Mãos levitam numa procura escassa
Têm as unhas sujas de cavar o tempo
O que ficou foi como jaça
Rachaduras na memória que se espaça
Tempo
evanesce, inda que tempo nasça.

O AMOR "POSSO" DE CADA DIA
O amor "posso" de cada dia,
é aquele que é o que posso,
no meu caminho imprevisto...
Se amor de rei ou de poeta
só há uma forma de saber:
é ao viver, se viver, vivendo ao praticá-lo,
transbordante ao aceitá-lo,
do jeito que vier...
Se calcular o amor, medindo,
talvez não haverá machucados
nem a dor humana que reabilita,
mas o perfeito, o de encontro
talvez vá de encontro ao isto
que o aprender do ser humano
faz da vida, aqui, tal redenção.
Um amor construído talvez valha
pelo que tem de incerto e cego
pelo que erra e se refaz impuro
e ao sabê-lo nosso, e exclusivo,
montas o presépio da história
esse bem intransferível e raro...
De pecados vivemos e viveremos
de ciúme, posse, inveja, mentira,
traição, abandono, ou ofensas:
quem terá direito ao perdão?
O amor vem para curar de tudo
o homem que é feito de procura.

CANTINHO PARA A CRINA
AZUL
Te espero sem religiões
Espero ao largo do pecado, alforriado dos erros
Espero cego para o sentido de tudo
Nunca vou acertar o alvo que me obrigam
Minhas setas disparam pelo tempo
E o ar ignora todas.
Os solitários luminares pensam
As cabeças pousada sobre blocos de mentira
As hostes populares flutuam
Entre o altar, a sarjeta e a lira
Meu olhargameta de uma flor,
Mergulha com matizes anímicos
Emerge depois, trágico e em preto-e-branco.
Te espero sem dito e vontade
Trajado de um destino todo rasgado
Enquanto homens razoáveis disputam com os loucos
Um páreo de formigas contra estrelas.
Lá embaixo numa feira de tolos
Uma égua de crina azul espana o vento
E os touros esbarram em vitrais inquebráveis
Há dois olhos turvos em suas guampas
E silêncio de gente nas ventas.
O saber da desordem instala-se na via
O sangue da horda espirra nos mármores
E a vida segue pois é a vida em delirium tremens
Fatal, pura, branca e impensada
No dorso de um corcel encharcado de sêmen pluvial.

Concluo que o segredo extremo da vida
É esperar com firmeza o sol
Achando música nas gotas
E imaginando todos os pobres aconchegados.
Lembro da Marcha para o Mar, de Gandhi
E traço um movimento similar
Em direção à fonte do amor. Todo o povo
Indo em busca da doçura, em vez do sal.
A chuva desaba indiferente ao que atinge
Nas estradas do peito rolam carros-de-boi
As curvas e as retas vão chegando às retinas...
Como se minha alma fosse o destino do chão.

QUANDO E COMO
Minha alma sabe tudo sobre você
Não porque sabe, ou quer saber,
Mas pelo que não sabe, não saber
Não quer dizer que não sabemos
Só não precisamos nos esforçar
Ou correr o risco de ter juízo
Somos testemunhas do imprevisto
O amor substitui a curiosidade
Como cavalo que volta pra casa...
Quando põe de vez a meta na alma.

ESTADO
DE GRAÇA
Estou parado de amor, e já não há fibra para cantar
Não há nada além de amor para sustentar o poema:
Guerras para acender-nos o candeeiro lento da paz
Desigualdades que criem-nos a força da esperança
Segredos a serem confessados em prol da verdade.
Agora há este escândalo a abrigar-se em si mesmo
E um amontoado de textos sem alça e superpostos.
A palavra não gera riquezas, a fala aquilo que cala
Porque estou amando, e não há saída para a paixão.

O SÉTIMO DIA
Uma rua nasce em
um neurônio desencapado
um desenho tatuado
Como se fosse
um negativo de
um espelho
Onde está refletida
uma vírgula.
Uma esquina dobra como
um jota e no alto
uma calota digere
um ângulo
Onde está guardado
um olhar distante de
uma estrela decomposta
Que interfere em
um pensamento hospitaleiro.
Uma casa hospeda
uma senhora que fomos
Como a mater de
umas paixões atordoadas
Que saíram de
um sonho de papel
Onde se vê um riquixá com
uma figura desdobrada em
um sem-número de lados de
uma esfera.
Um homem bate
um martelo para pregar
uma tábua sobre
uma porta para que
um marinheiro qualquer
Que passar
um dia ao largo da barra
Onde houver
um mar de ondas se engolindo
Ler ali que não há mar mas
uma rua esperando por
um piscar de olhos entre
uma imagem e outra.
Uma libido é
um osso delicado de
um passarinho
Que está cantando em
um sonho enquanto
uma folha cai e
um pai desinfla dentro de
um coração superlotado
Onde já não vale
um pecado depois que
um dedo sangrou cosendo
um a outro os retalhos
Limpando os cacos de
uma redoma feita de
uma lágrima.
No sétimo dia
um andar acima do prazer
Onde mora
uma pomba
E de onde se vê
um teto que é o chão de
um andar ainda ou
um sótão onde flutua
um guizo dentro do qual balança
um gozo...

Santa Poesia
santa poesia escorraçada dia a dia
com versos arrestados
por dever mais do que vale
santa poesia de cor e saltimbanca
pronto sacrifício, morte em vão
santa poesia culpada
por não calar com fome
santa poesia, testemunha acidental dos medos
não conta nada, não cede, mas revela
não deixa de acordar ninguém
santa poesia franqueada
a todos e para alguém mais
(mentira!)
santa poesia coroada pelo caminhar
ungida pela briga recorrente
da borboleta com a crisálida
santa poesia encouraçada em seu vôo
pelo seu ar a terra escoa
e o espaço fende e a água à toa
reacende o fogo que tudo já queimara
santa poesia canonizada porque suou dos poros
e já não há emprego para o impuro
eu te seguro, nada nos aquilata, venha escrever
tira a manta, me absorve,
te escovo e te regenero
para reinventarmos o ser amanhecendo
te pelo, segurando o músculo
e enrijeço-te adornando-te os lados
começam os contatos, lestos,
te recupero sem sede, vítima aberta,
ímpetos, vômitos
frêmitos, tânatos,
santa poesia goma no sangue
te vou e me chegas
sono poesia
recita menino, agita o maduro,
ressuscita o poente
habita pra sempre
onde estão os pais, as mães, minha gente?
vejo cego - onde me cegas, Poesia,
é onde me alegro
santa poesia a ti nos entrego, eu punhado
à margem do sentido, já sem tato, na cova rasa do ego
não me venhas com espanto
que eu sonego o seu canto
pois não me dás solução
eu te nego!

Bruno Cattoni nasceu em
1957, no Rio de Janeiro, no bairro do Humaitá.
Poeta, jornalista e
editor de textos da central Globo de Jornalismo,
tem a seguinte obra
publicada: Figuras, Civilização Brasileira - 1983;
Conspirações e
Inconfidências de um Caçador de Meninas Gerais, Masso Ono,
São Paulo, 1992; AH!, CC&P, RJ, 1998. Kalusha, 7 letras, Rio
de Janeiro, 2002;
OSSO, na cabeceira das
avalanches, 7 letras, 2005.
Curadoria: Andrea Paola Costa Prado
Se você gostou
indique o endereço:
www.almadepoeta.com/bruno_cattoni.htm
Ou envie seu comentário para o e-mail do autor:
brunocattoni@gmail.com
Viste também:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
Poetas em Destaque







Clique na imagem acima.
home
galeria de arte
poetas em destaque
poetas 3x4
poetas imortais
colunistas
cinema
concursos
páginas pessoais agenda
poética
poetas no You Tube
fala poesia
oficina virtual
histórico
Clique e entre

Seu site de poesia, arte e algo mais...
Alma de Poeta
©Copyright 2000/2009 - by Luiz Fernando Prôa