
Bilá Bernardes
Corais
Corais colhidos na areia
partidos pelo mar deixados
corais que a gente nem nota
alheia a como são lindos
à beira da praia caídos
corais que a menina pega
empilha, forma castelos
e sonha reis e rainhas
dragões e príncipe belos
Não sei qual mais singelo
a cor no corado da menina
ou o coral que o mar traz pra ela

Amigo Oculto
No fundo de uma caverna
onde brotam samambaias
margaridas, fonte d'água
é lá que o coloquei
Num regato cristalino
que se oferece ao menino
onde barcos de papel
levam mensagens de paz
esse amigo oculto está
mas se mostra sem temor
pois cavernas e riachos
são caminhos de amor

Vinho Poético
O vinho que bebi em Bento
é mais saboroso
que os vinhos
que já bebi em Minas
e eu que não gosto de vinho
aprovei
e me embriaguei de poesia
Também os vinhedos de Bento
são regados a rima?

Permanência
que queres cancelar?
o encontro com o amor;
a viagem do amanhã;
o compromisso consigo?
o que queres visualizar?
a mesma estrada trilhada;
o mesmo ar que te envolve;
os mesmos seres que éramos?
não há como submeter
o mundo ao desejo teu
o tempo ainda segue
há vida pra se viver
o futuro se anuncia
não negue o movimento

Tecituras
Quero tecer minha vida
Com
novos tecidos
Mais
leves
Coloridos
Com
muitos reveses
De mais
deslizes
Quero
tecer minha vida
Com
outros momentos
Juntos o
fora e o dentro
Mais
contentes
Sem
correntes
Mas com
laços

Inexplorado
meu coração
não traz pegadas
nem marcas fundas
nenhuma seiva
que o alimente
Meu coração
agora é ilha
espera um náufrago
trago no vento
buscando abrigo
Meu coração
espaço aberto
de acolhimento

Ensinanças
Deixar que meu saber
apareça
e o outro
o conheça
Escutar do outro
o saber
entrelaçá-los
tecer
informes novos
meus e deles
Retornar com
outros saberes
num vai-vém
de aprender

Leituras
Escuto o silêncio
Pássaros
gorjeiam
Carros
transitam
Ouço meu
coração
Alguém
mexe na cozinha
Ouço
meus pensamentos
Um cão
late ao longe
Ouço o
meu interior
E
escrevo - me inscrevo
E me
aprendo

Andanças
O carro corta a estrada
Janelas
abertas
vento no
rosto
me
acerta
O verde
se descortina
penetra
a retina
descansa
o olhar
do cinza
na capital
O espaço
revela
proximidade
de
caminhos
Seguimos
em busca
de
descanso
Ir é tão
bom
quanto
chegar

No Espelho
Meu espelho reflete
paisagem que procurei
escolhi
Meu espelho me mostra
belezas que encontrei
reconheci
Meu espelho retoca
um tempo em que chorei
vivi
Em meu espelho os riscos
de sonhos que sonhei
construí
No espelho as marcas
de tempos em que muito amei
senti
Percebi no espelho
que a vida não só passava
ela entrava em mim

Crepúsculo
Há um incêndio surgindo
por
detrás das nuvens
Há um
fogo no céu
escondendo o azul
Há
reflexos de ouro
nos
prédios à frente
É o sol
no poente
das
tardes de Abril

Sensibilidade
Pele sensível
dos
lábios
toca
outra pele sensível
Se
sentem
se
conhecem
se
penetram
se
dominam
e perdem
o domínio

Para Aprender
Para Aprender
alfabeto
ou qualquer outro
dialeto ou objeto
não basta estar alerta
não basta o concreto
Para Aprender
e transformar
conhecer em saber
não basta decreto
muito menos resolve
ficar quieto
em atitude correta
Para Aprender
qualquer coisa
que lhe afete
marque, transforme
e se construa projeto
há que circular
o afeto

Adornos
um leque colorido
cobre um
canto
da
mesa-de-canto
fotos em
um porta-retratos
um
baralho
que
reúne amigos
às
quintas
nos
jogos de buraco
objetos-lembrança
de
momentos alegres
presença
do ausente

Bilá Bernardes
Maria Angélica Bernardes dos
Santos - nasceu em Santo
Antônio do Monte - MG. Tem três filhos e três netos.
Em 1970 mudou-se para Belo Horizonte onde trabalhou
como professora, tendo se aposentado em 2005.
Desde 1995, atua também no atendimento clínico
psicopedagógico.
Participou das antologias no XIV e XV Congresso
Brasileiro de Poesias,
em Bento Gonçalves, RS, (2006 - 2007) e no Belô Poético
(2007).
Seu poema Saber Hiperativo foi publicado na
revista EPSIBA,
em Buenos Aires(2006).
Em Janeiro de 2008, publicou seu primeiro livro solo:
FotoGrafias de DesCasamento.

Tem outros três livros organizados. Sua poesia circula
entre amigos,
poetas e sites da Internet.
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