Geir Campos

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Foto de Delfim Fujiwara

Paisagem  -                "por cima                       o cristal em céu                          por baixo                       o gramado em mar                          e a gente à toa na tarde                        atoamente a pastar                       o espaço                  feito um momento                 e o tempo                  feito um lugar"                 GC

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Geir Campos, um ser singular


A obra poética, a trajetória de intelectual engajado e a sua contribuição
 para a cultura brasileira foram tema da mesa-redonda "Geir Campos, 
um ser singular", realizada 5a. feira no Pen Clube do Brasil, 
quando Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos lançaram no 
Rio de Janeiro o livro, que ambos organizaram, A Profissão do Poeta & Carta 
aos Livreiros do Brasil, editado pela Imprensa Oficial do Estado. 
Nesse dia, 8 de maio, fazia três anos da morte de Geir Campos 
e 57 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, 
como lembrou o acadêmico Antonio Olinto em sua palestra.




A mesa foi coordenada pelo presidente do Pen Clube, 
acadêmico Marcos Almir Madeira e teve a participação ainda de 
Emanuel de Moraes, Gilberto Mendonça Teles, como palestrantes, 
do poeta Ivan Junqueira, representando a Academia Brasileira de Letras, 
e de Aníbal Bragança, da Universidade Federal Fluminense.

As palestras de Antonio Olinto, Emanuel de Moraes e de 
Gilberto Mendonça Teles realçaram a importância da obra de 
Geir Campos no cenário da poesia brasileira do século XX, oferecendo 
ótimas contribuições à fortuna crítica do poeta capixaba, destacando 
a necessidade da universidade brasileira, especialmente em seus 
cursos de Letras, voltarem-se para o estudo da Geração de 45, 
com especial relevo para a obra do autor de Operário do Canto, 
Canto de Peixe, Metanáutica, Tarefa, Pequeno Dicionário de Arte Poética 
("que todos os poetas, especialmente os iniciantes, deveriam ler") 
e tantas outras obras fundamentais.

Após a mesa fez-se a sessão de autógrafos do livro 
A Profissão do Poeta & Carta aos Livreiros do Brasil. O livro, além de 
textos já editados e outros inéditos de Geir Campos, conta com ensaios 
e depoimentos de Affonso Celso Nogueira Monteiro, Aldomar Conrado, 
Aníbal Bragança, Israel Pedrosa, Jayro José Xavier, João Baptista Herkenhoff, 
Marco Lucchesi, Marcos Almir Madeira, Mauro Campos, Pedro Paulo Colin Gill, 
Sávio Soares de Sousa, Theodoro Barros e Yeda Gappo, sobre a vida 
e a obra do poeta que é considerado um dos expoentes de sua geração.

Esteve presente no Pen Clube seletíssima platéia que lotou 
seu auditório, podendo destacar-se figuras como 
Luiz Felipe Baêta Neves Flores, Nora Rónai (viúva de Paulo Rónai), 
Afonso Felix de Sousa, Antônio Carlos Villaça, Astrid Cabral, Waldir Ribeiro do Val, 
Aidyl de Carvalho Preis, Robert Preis, Heloisa Maranhão, Helena Ferreira, 
Renato Augusto Farias de Carvalho, Gabriela Campos (neta de Geir Campos), 
Ernandes Fernandes, Reynaldo Valinhos Alvarez, Dora Sodré e seus filhos 
Eduardo e Marcos Sodré de Castilho, Manuel Lourenço Neto, Maria José Latini 
de Carvalho e Mello, Leda Mendes Jorge, Irma Boschi Pinto, Léa Boschi, 
Flora de Paoli Faria, Hermínia Fróes Bragança, Amélia Sparano, 
além dos co-autores Israel Pedrosa, Jayro José Xavier, 
Afonso Celso Nogueira Monteiro e Sávio Soares de Sousa.

Na ocasião foi lançado o abaixo-assinado a ser encaminhado 
à governadora Benedita da Silva dando apoio à sugestão feita por 
Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos para que seja dado o nome de 
Geir Campos à Biblioteca Estadual de Niterói, da qual o poeta foi diretor 
nos anos 1961-1962, período que é considerado o mais brilhante 
da história da Biblioteca, como centro cultural, e que recebeu apoio 
unânime dos presentes.



 

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Marear  -                    "onde termina                     se acaso termina                       ou principia                      se é que principia                        este oceano                      todo de energia                         universal                       do qual eu não                     serei senão                           um grão                           do sal"                          GC


Síntese biográfica de Geir Campos



Nascido em 28 de fevereiro de 1924 em São José do Calçado (ES), 
foi piloto da marinha mercante e recebeu o título de ex-combatente civil 
na Segunda Guerra Mundial. Bacharel em Direção Teatral 
(FEFIERJ/MEC, hoje UNI-RIO), mestre e doutor em Comunicação Social 
pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 
da qual foi professor adjunto.

Incluído pela crítica na famosa Geração de 45, que renovou a poesia 
brasileira sob "um estatuto ambíguo de tradicionalismo e modernidade", 
é considerado por Alfredo Bosi "um dos ‘virtuoses’ de sua geração". 
Um "habilíssimo artista", assim o definiu Manuel Bandeira.

Participou da União Brasileira de Escritores, foi um dos fundadores 
do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro e da 
Associação Brasileira de Tradutores, ABRATES, hoje, 
Sindicato Nacional de Tradutores, do qual foi presidente.

Relações públicas e secretário executivo do Sindicato Nacional de 
Editores de Livros, na gestão de Ênio Silveira.

Pertenceu ao Pen Clube do Brasil, à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), 
à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) e ao 
Grupo de Amigos do Livro, hoje Grupo Mônaco (Niterói). Tentou, 
em 1980, a Academia Brasileira de Letras, sem êxito.

Um dos organizadores, com Moacyr Félix, Ferreira Gullar e 
Reynaldo Jardim, dos volumes Violão de Rua – Poemas para a Liberdade, 
da série Cadernos do Povo Brasileiro, editados em 1962 pelo 
Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional de Estudantes (UNE) 
e Editora Civilização Brasileira, o poeta esteve sempre engajado, 
como intelectual, nas lutas políticas de seu tempo.

Chegou a tentar a política partidária, quase sendo eleito vereador em Niterói, 
pela legenda do Partido Socialista Brasileiro (1962). Em campanha eleitoral, 
sofreu sério acidente automobilístico (dias antes da eleição), que o deixou 
gravemente enfermo, tendo chegado a circular a notícia de seu falecimento. 
Além do noticiário da imprensa (nacional e regional) que registrou suas 
repercussões, o acidente de que foi vítima Geir Campos inspirou 
Carlos Heitor Cony a escrever, para sua coluna "A arte de falar mal" no 
Correio da Manhã, uma página de rara sensibilidade e fraterna amizade, 
e ao fluminense Hugo Tavares, crítico e poeta,
uma singela e delicada 
antologia a que deu o título de "Poemas Acidentados", inédita.

Jornalista, colaborou em revistas literárias e em alguns dos jornais 
mais importantes de Niterói e do Rio de Janeiro, como o Diário Carioca, 
Correio da Manhã, Última Hora, O Estado, Diário de Notícias, Para Todos, 
Letras Fluminenses e Jornal de Letras e, também, durante um período, no 
semanário A Ordem, de São José do Calçado (ES), sua terra natal.

Radialista, apresentou na Rádio MEC o programa Poesia Viva 
por mais de vinte anos.

Editor, com Thiago de Melo, das Edições Hipocampo, em Niterói, 
na década de 1950.

Diretor da Biblioteca Pública Estadual de Niterói (1961-1962), 
transformou-a num verdadeiro centro cultural.

Autor da letra do hino oficial de Brasília, 
musicado por Neusa França.

Autor de cerca de trinta livros de poesia, contos, peças teatrais, 
obras de referência, literatura infanto-juvenil, ensaios e teses, 
além de obras inéditas e dispersos.

Recriou em nosso idioma obras de Rilke, Brecht, Kafka, Herman Hesse, 
Walt Whitman, Shakespeare e Sófocles, e escreveu importante obra 
ensaística sobre tradução.

Faleceu aos 75 anos, em 8 de maio de 1999,em Niterói, RJ, cidade 
onde esteve radicado por mais de cinqüenta anos, tendo sido sepultado 
no cemitério da Arquiconfraria de Nossa Senhora da Conceição, nessa cidade.

De seu casamento com Alcinda Campos, deixou dois filhos, Mauro Campos, 
analista de sistemas, e Carlos Augusto Campos, arquiteto e 
professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

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Presença de Geir

Antonio Olinto

Poetas de 45. Estamos em 1945, a guerra terminara em 8 de maio. 
Não sabíamos que ela ia terminar. Mas, no fundo, sabíamos. 
Sabíamos porque desde o fim de abril um grupo de
jovens poetas preparava uma "Exposição de poesia". Isto mesmo: 
uma exposição de poesia. Datilografamos poemas em folhas de papel, 
emolduramo-los como se quadros fossem, e penduramo-los nas 
paredes da sala de entrada da Escola Nacional de Belas
Artes na Rua Araújo Porto Alegre, no Rio de Janeiro. 

Pertencíamos ao grupo Antonio Fraga, Luciano Maurício, 
Aladir Custódio, Ernande Soares, Hélio Justiniano e este que vos fala. 
Conseguimos imprimir um catálogo, para qual escrevi uma apresentação, 
com um poema de cada expositor. Inauguramos a mostra em 
10 de maio de 1945. Era a primeira demonstração pública da geração que
viria mais tarde a ser chamada de "Geração de 45". 

Verdade é que, antes dessa data, Nelson Rodrigues lançara o seu 
"Vestido de noiva", Clarice Lispector publicara "Perto do coração selvagem" 
e Guimarães Rosa ganhara prêmio, em 1936, com os contos de 
"Sagarana", só publicados mais tarde. 

Em todos eles havia a marca dos novos tempos. Que veio a ser afinal 
a "Geração de 45"? Terá sido simplesmente a negação da "Semana de 22"? 
Apenas a "Semana de 22" já havia feito o que tinha de fazer, 
já havia conquistado o que tinha de conquistar. Mais importante 
ainda, entre 22 e 45 houvera uma nova guerra mundial e uma tecnologia que
mudava por completo o equilíbrio político das nações. Nunca se deve 
esquecer que João Cabral de Melo Neto publicara em livro em 1944.

Era natural que a poesia de 45 abandonasse o poema-piada, que fizera 
parte do protesto de 1922. Tivéramos um holocausto e uma verdadeira 
matança que reduzira a população de muitos países. 
Passáramos por uma ditadura de 15 anos. O ano de 1945
surgia como o início de uma libertação. 

Estávamos prontos para a mudança. Foi então que um jovem poeta, 
nascido no Espírito Santo e residente no Rio de Janeiro a partir dos 11 anos, 
com experiência de vida no mar, como 2º piloto da Marinha Mercante Brasileira, 
apareceu com seus poemas na face do País. Era uma voz nova. 
Geração de 45? Pelo calendário, sim - mas não só e nem tanto. 
Seu lugar em nossa literatura era muito pessoal para ficar assim adstrito. 

Antes de tudo, Geir Campos escreveu sob um primado ético. 
Estaria mais perto da poesia dos sucessores de 22, o Jorge de Lima 
dos sonetos, Jorge e Murilo de "Tempo e eternidade" e o Carlos Drummond 
de "Claro enigma", publicado um ano depois do livro de estréia de Geir. 

Depois da famosa e infeliz classificação de José Guilherme Merquior, 
chamando-a de "dege(ne)ração de 45", muito poeta desejou afastar-se 
da categoria, tornando-a com isto, pouco atraente. Houve, sim, 
uma geração de 45, em que estiveram Tiago de Melo, Lêdo Ivo, 
Paulo Mendes Campos, Antonio Rangel Bandeira e o injustamente esquecido
Nilo Aparecida Pinto, entre muitos outros. 

Aconteceu que a referida geração acabou espremida entre a maré 
da "Semana de 22" e a eclosão do movimento concretista de meados 
dos anos 50, em que Merquior estava inserido. Nada disso, porém, 
tem muita importância. A poesia de Geir Campos é de uma
clareza tal que se destaca, no período de sua vida, como das coisas 
mais sérias que a literatura brasileira teve. Suas palavras são as de todo dia, 
seu ritmo escorre com facilidade, seu significado fica na memória. 
Eis os oito versos de seu poema "Tarefa":

"Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis ...
E quando em mitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar - 
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano." 

A partir das 18 horas de hoje, haverá no PEN Club do Brasil 
(Praia do Flamengo, 172, 11º andar), uma homenagem à memória de 
Geir Campos (1924-1998) em que falarão Marcos Almir Madeira, 
Gilberto Mendonça Telles, Emanuel de Moraes e o autor deste artigo, com
o lançamento do livro "A profissão do poeta" , editado pela 
Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, organizado 
por Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos. 

Participam desse volume com artigos e ensaios os escritores: 
Affonso Celso Nogueira Monteiro, Aldomar Conrado, Aníbal Bragança, 
Israel Pedrosa, Jayro José Xavier, João Baptista Herkenhoff, Marco Lucchesi, 
Marcos Almir Madeira, Mauro Campos, Pedro Paulo
Colin Gill, Sávio Soares de Sousa, Theodoro Barros, Yedda Gappo.


Antonio Olinto é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.
Matéria publicada na Tribuna Bis,Tribuna da Imprensa, Rio, 08/05/2002.

Geir Campos autografa Operário do Canto, tendo ao lado Moacyr Félix (de óculos) autografando O Pão e o Vinho
As obras foram editadas pela Antunes (RJ), em 1959. 
Foto de autor não identificado do arquivo da família Geir Campos, é de 1959 ou 1960.

 Todo material foi fornecido gentilmente pelo professor Aníbal Bragança
anibalbraganca@terra.com.br

Os poemas foram retirados do livro A profissão do poeta & Carta aos livreiros do Brasil
Organizado por Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos
Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro

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