
Augusto dos Anjos
(1884/1914)
Saudade
Hoje
que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.
E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,
Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
Versos íntimos
Vês!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na
ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os
velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...
E
erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Psicologia de um
vencido
Eu, filho do carbono e do
amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
AO LUAR
Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro
a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!
Vozes da morte
Agora,
sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!
Ah!
Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
Não
morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na
multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!

O morcego
Meia-noite. Ao meu quarto me
recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Último credo
Como ama o homem adúltero o
adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro - este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanha vença
O homem particular eu que ontem fui!
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto
agora á morte de um inseto!...
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No
hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel á alma cenobial!...
Rasgo
dos mundos o velário espesso;
E em tudo igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

Versos a um cão
Que
força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!
Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.
Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...
E irás assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angustia hereditária dos teus pais!
Insônia
Noite. Da Mágoa o espírito
noctâmbulo
Passou de certo por aqui chorando!
Assim, em mágoa, eu também vou passando
Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo...
Que voz é esta que a gemer concentro
No meu ouvido e que do meu ouvido
Como um bemol e como um sustenido
Rola impetuosa por meu peito adentro?!
- Por que é que este gemido me acompanha?!
Mas dos meus olhos no sombrio palco
Súbito surge como um catafalco
Uma cidade ou mapa-múndi estranha.
A dispersão dos sonhos vagos reuno.
Desta cidade pelas ruas erra
A procissão dos Mártires da Terra
Desde os Cristãos até Giordano Bruno!
Vejo diante de mim Santa Francisca
Que com o cilício as tentações suplanta,
E invejo o sofrimento desta Santa,
Em cujo olhar o Vicio não faísca!
Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,
Depois de embebedado deste vinho,
Sair da vida puro como o arminho
Que os cabelos dos velhos embranquece!
Por que cumpri o universal ditame?!
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Por que não evitei o precipício
Estrangulando minha carne infame?!
Até que dia o intoxicado aroma
Das paixões torpes sorverei contente?
E os dias correrão eternamente?!
E eu nunca sairei desta Sodoma?!
À proporção que a minha insônia aumenta
Hierógrafos e esfinges interrogo...
Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo
Toda a alvorada esplêndida se ostenta.
Vagueio pela Noite decaída...
No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus
Vai projetando sobre os campos largos
O derradeiro fósforo da Vida.
O Sol, equilibrando-se na esfera,
Restitui-me a pureza da hematose
E então uma interior metamorfose
Nas minhas arcas cerebrais se opera.
O odor da margarida e da
begônia
Subitamente me penetra o olfato...
Aqui, neste silêncio e neste mato,
Respira com vontade a alma campônia!
Grita a satisfação na alma dos bichos.
Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.
As árvores, as flores, os corimbos,
Recordam santos nos seus próprios nichos.
Com o olhar a verde periferia abarco.
Estou alegre. Agora, por exemplo,
Cercado destas árvores, contemplo
As maravilhas reais do meu Pau d'Arco!
Cedo virá, porém, o funerário,
Atro dragão da escura noite, hedionda,
Em que o Tédio, batendo na alma, estronda
Como um grande trovão extraordinário.
Outra vez serei pábulo do susto
E terei outra vez de, em mágoa imerso,
Sacrificar-me por amor do Verso
No meu eterno leito de Procusto!
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Nasceu no
engenho Pau
d'Arco, Espírito Santo/Paraíba, 1884.
Precoce o
poeta brasileiro compôs os primeiros versos aos 7 anos de idade. Foi educado
nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser
professor em 1908.
Lecionou literatura no Liceu Pernambucano e no Rio
de Janeiro, geografia, na antiga Escola Normal e no Colégio Pedro II. A nota
predominante em sua temática é a morte, a morbidez, o pessimismo; seus versos,
vazados em forma lapidar e de metrificação disciplinada e musical, encerram, por
vezes, extravagâncias vocabulares até então inusitadas, em que enxameiam termos
técnicos, alguns intrincados e antieufônicos, valorizados, porém, pela
expressividade trágica que lhes comunicava o poeta.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na
Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910, casa-se com
Ester Filiado.
Sua família vende o Engenho Pau d’Arco. Sem conseguir
licenciar-se, demite-se do Liceu Paraibano e embarca com a mulher para o Rio de
Janeiro. Hospeda-se em uma pensão no Largo do Machado, mudando-se em seguida
para a Avenida Central. Termina o ano sem conseguir um emprego. Em 1911, Ester,
grávida de seis meses, perde a criança. Augusto é nomeado professor de
Geografia, Corografia e Cosmografia no Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro
II). Nasce sua filha Glória. Muda constantemente de residência. Em 1912,
colabora no jornal O Estado. Em 1913, nasce seu filho Guilherme Augusto. É
nomeado diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, para onde se transfere. Doente
desde 30 de outubro falece às 4 horas da madrugada de 12 de novembro de 1914, de
pneumonia, em Leopoldina MG. Segundo Ferreira Gullar, entrou
em contato com leituras que iriam influenciar sua visão de mundo,
expressa em
sua poesia. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento
da vontade de viver é a única saída para o ser humano. Essa filosofia, fora do
contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da
realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção
pré-capitalista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria
representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a
no nascimento e na morte.
Bibliografia
Augusto dos Anjos é autor de
um único livro, "Eu" (1912), que, a partir da 2.ª edição, póstuma, se publicou
com o título de "Eu e outras poesias" (1919).

Obra Poética
A poesia
brasileira estava dominada por simbolismo e parnasianismo, dos quais o poeta
paraibano herdou algumas características formais, mas não de conteúdo. A
incapacidade do homem de expressar sua essência através da “língua paralítica”
(Anjos, p. 204) e a tentativa de usar o verso para expressar da forma mais crua
a realidade seriam sua apropriação do trabalho exaustivo com o verso feito pelo
poeta parnasiano. A erudição usada apenas para repetir o modelo formal clássico
é rompida por Augusto dos Anjos, que se preocupa em utilizar a forma clássica
com um conteúdo que a subverte, através de uma tensão que repudia e é atraída
pela ciência.
A obra de
Augusto dos Anjos pode ser dividida, não com rigor, em três fases, a primeira
sendo muito influenciada pelo simbolismo e sem a originalidade que marcaria as
posteriores. A essa fase pertencem Saudade e Versos Íntimos. A
segunda possui o caráter de sua visão de mundo peculiar. Um exemplo dessa fase é
o famigerado soneto Psicologia de um Vencido. A última corresponde a sua
produção mais complexa e madura, que inclui Ao Luar.
Sua poesia
chocou a muitos, principalmente aos poetas parnasianos, mas hoje é um dos poetas
brasileiros que mais foram reeditados. Sua popularidade se deveu principalmente
ao sucesso entre as camadas populares brasileiras e à divulgação feita pelos
modernistas.
Hoje em
dia diversas editoras brasileiras publicam edições de Eu e Outras Poesias.
Curiosidades Biográficas
Um
personagem constante em seus poemas é um pé de tamarindo que ainda hoje existe
no Engenho Pau d'Arco.
Seu amigo
Órris Soares conta que Augusto dos Anjos costumava compor "de cabeça", enquanto
gesticulava e pronunciava os versos de forma excêntrica, e só depois
transcrevia o poema para o papel.
De acordo
com Eudes Barros, quando morava no Rio de Janeiro com a irmã, Augusto dos Anjos
costumava compor no quintal da casa, em voz alta, o que fazia sua irmã pensar
que era doido.
Embora tenha
morrido de pneumonia, tornou-se conhecida a história de que Augusto dos Anjos
morreu de tuberculose, talvez porque esta doença seja bastante mencionada em
seus poemas.
Memorial Augusto do Anjos

Inaugurado no dia 11 de maio de 2006, o Memorial de
Augusto dos Anjos, instalado na antiga Casa da ama de
leite Guilhermina e restaurado com recursos do Fundo de
Incentivo a Cultura Augusto dos Anjos, recebe visitantes
de todo o Brasil e até do exterior. Na obra, foram
aplicados R$ 200 mil, através da Coordenadoria de
Estudos Histórico-Culturais do Instituto de
Desenvolvimento Municipal e Estadual da Paraíba - IDEME.
O projeto foi aprovado em 2004, na primeira edição do
FIC. No memorial, o visitante poderá encontrar uma
biblioteca com cerca de 100 livros sobre o poeta, uma
videoteca, contendo depoimentos gravados sobre a vida e
obra do poeta e um auditório com capacidade para
aproximadamente 70 pessoas, além de documentos e livros
raros. Localizado em terras da Usina Santa Helena
(antigo Engenho Pau D'Arco), o memorial tem uma
administração conjunta do Governo do Estado e da
Prefeitura de Sapé.
Referências:
Sites - Memorial Augusto dos Anjos, Vidas Lusófonas e Klick Escritores.
Pesquisa realizada por Vera Sarres, no Google.
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