
Antônio Carlos Secchin
Autoria
Por mais que se
escoem
coisas para a lata do lixo,
clipes, cãibras, suores,
restos do dia prolixo,
por mais que a mesa imponha
o frio irrevogável do aço,
combatendo o que em mim contenha
a linha flexível de um abraço,
sei que um murmúrio clandestino
circula entre o rio dos meus ossos:
janelas para um mar-abrigo
de marasmos e destroços.
Na linha anônima do verso,
aposto no oposto de meu sim,
apago o nome e a memória
num Antônio antônimo de mim.
Confessionário
Não posso
dar-me em espetáculo.
A platéia toda fugiria
antes mesmo do segundo ato.
Um ator perplexo misturaria
versos, versões e fatos.
E um crítico maldizendo a sua sina,
rosnaria feroz
contra minha verve
sibilina.

A casa não se
acaba...
A casa não
se acaba na soleira,
nem na laje, onde pássaros se escondem.
A casa só se acaba quando morrem
os sonhos inquilinos de um homem.
Caminha no meu corpo abstrata e viva,
vibrando na lembrança como imagem
de tudo que não vai morrer, embora
as maçãs apodreçam na paisagem.
Sob o ríspido sol do meio-dia,
me desmorono diante dela, e tonto
bato a porta de ser ontem alegria.
O silêncio transborda pelo forro.
E eu já não sei o que fazer de tanto
passado vindo em busca de socorro.
Ar
O ar ancora no
vazio.
Como preencher
seu signo precário?
Palavra,
nave da navalha,
gume da gaiola,
invente em mim
o avesso do neutro
– o não-assinalado,
o lado além
do outro lado.
Fogo
Vingo a velhice
dos verões
desmoronados, planície rigorosa
que desmente o labirinto.
Se falo, minto, e o calendário dessa hora
me faz deserto, em que viver não me demora.
Álgebra das aves em clara correnteza,
ensina ao teu cantor tua clareza.
Estreita tua trilha à minha história,
me emudece para o jogo desse dia,
resgata em prosa o que eu perco em poesia.
Terra
Não, não era
ainda a era da passagem
do nada ao nada, e do nada ao seu restante.
Viver era tanger o instante, era linguagem
de se inventar o visível, e era bastante.
Falar é tatear o nome do que se afasta.
Além da terra, há só o sonho de perdê-la.
Além do céu, o mesmo céu, que se alastra
num arquipélago de escuro e de estrela.
Água
Depois de herdar
dessa água a resistência,
alugo a meu sonho
a astúcia de meu corpo.
O que em mim se mira
é o pleno em sua ausência,
e pequeno me anoiteço
em cada hipótese de porto.

Com todo o amor...
A Waldemar
Torres
Com todo o amor
de Amaro de Oliveira.
São Paulo, 2 de abril de 39.
O autógrafo se espalha em folha inteira,
enredando o leitor, que se comove,
não na história narrada pelo texto,
mas na letra do amor, que agora move
a trama envelhecida de outro enredo,
convidando uma dama a que o prove.
Catharina, Tereza, Ignez, Amália?
Não se percebe o nome, está extinta
a pólvora escondida na palavra,
na escrita escura do que já fugiu.
Perdido entre os papéis de minha casa,
Amaro ama alguém no mês de abril.
Toda linguagem
Toda linguagem
é vertigem,
farsa, verso fingido
no desígnio do signo
que me cria, ao criá-lo.
O que faço, o que desmonto,
são imagens corroídas,
ruínas de linguagem,
vozes avaras e mentidas.
O que eu calo e o que não digo
atropelam meu percurso.
Respiro o espaço
fraturado pela fala
e me deponho, inverso,
no subsolo do discurso.

Di notte
A
Waly Salomão
tutte le parole sono
nere
tutti i gatti sono tardi
tutti i sogni sono postumi
tutte le
barche sono gelide
di notte sono
malfermi tutti i passi
i muscoli sono avidi
le maschere,
anemiche
tutti pallidi, i versi
tutte le
paure sono panici
tutte i frutti sono
pesche
e sono passeri tutti i piani
tutti i ritmi sono lubrici
tutte i gridi sono
tonici
tutti i piaceri sono santi
(Tradução de Vera Lúcia Oliveira)
La isla
Y miramos
la isla
señalada
por el gusto de abril
que el mar traía
y recorremos nuestro sueño
sobre la arena
en un barco
sólo de viento y
marejada.
Después fue a
tierra. Y en
la tierra
construida
erguimos nuestro
tiempo de agua y de
partida.
Sonoras gaivotas a domar luces
bravías
en nosotros
recrean la
materia de su canto,
y en esas alas se
desparrama nuestra
gloria,
de un amor anterior a todo
estío,
de un amor anterior a toda historia.
Y seguimos en el
camino de ser viento
donde las aves venían a
ver si había mayo,
y las marcas espalmadas contra
el frío
recubrían de blancura
nuestro rumbo.
Y abrimos velas albas que se
esconden
de los mapas de un
sueño pequeñito,
del inicio de una selva que se
explaya
en la distancia entre
mí y mi destino.
(Tradução de Yhana Riobueno)

Artes de amar
Amor e alpinismo sensação simultânea
de céu e abismo
Paixão e astronomia mais do que contar estrelas
vê-las
à luz do dia
Amor antigo e matemática
equação rigorosa:
um centímetro de poesia
dez quilômetros de prosa
Antônio Carlos Secchin
Nasceu no Rio
de Janeiro, em 1952.
É professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ,
tornando-se sucessor da cátedra anteriormente ocupada por Alceu Amoroso Lima
e Afrânio Coutinho. Doutor em Letras pela mesma Universidade.
Poeta com 5 livros publicados,
destacando-se Todos os ventos (poesia reunida, 2002),
que obteve os prêmios da Fundação Biblioteca Nacional, da Academia Brasileira de
Letras
e do PEN Clube para melhor livro do gênero publicado no país em 2002.
Ensaísta autor de 3 livros, dentre eles João Cabral; a poesia do menos,
ganhador de 3 prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL
em 1987.
Em 2001, organizou a Poesia completa de Cecília Meireles, na
edição comemorativa
do centenário de nascimento da escritora. Em 2003, publicou Escritos
sobre poesia
& alguma ficção, reunindo cerca de 50 artigos e ensaios.
Autor de mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios)
publicados nos principais periódicos literários do país e do exterior.
Sobre sua obra já escreveram favoravelmente ensaístas como Benedito Nunes,
José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo
Bosi, Antônio Houaiss,
Sergio Paulo Rouanet, José Paulo Paes, André
Seffrin, Ivo Barbieri,
Fábio Lucas e Ivan Junqueira, entre outros.
Eleito em junho de 2004, tornou-se o mais jovem membro da Academia Brasileira de
Letras.
Se você
gostou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/antoniocarlosscheccin.htm
Ou escreva para o
e-mail do autor:
acsecchin@uol.com.br
Veja também:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
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