Anibal Beça

Foram 7 os meus desejos                    7 vezes consagrados                    que a vida só vale a pena                    levada nos seus pecados.



Constatação

Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.

Não digas nada.

Longe não deslindas um som que te freqüentava.

Não aguces os ouvidos.

Na gruta passam por ti como se te não vissem.

Não esfregues os olhos.

Caminhas pela campina e teu pés nada sentem.

Não troques de passo.

A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.

Não fales nada.

 

No universo transverso desse tempo

Na contramão de versos claudicantes

Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.

 

 
Autografando Banda de Asa



Há sempre um nó encordoado

à espera de que alguém o dedilhe.

 

Para cada marinheiro um acorde

retesado pelos ventos da distância.

 

Há um sol encurvado nas águas

afogando horizontes longínquos.

 

O viajante sabe quando o cais

sola a melodia do impulso.

 

A rota não é de fuga, mas de fogo,

aventura de busca sem bússolas.

 

Nesta noite em que navego lençóis

recostado a um tombadilho de plumas

 

Falta-me um par de remos, mastro e velas soltas.

 

Embora a voz remota insista por meu nome.

 

 

Nossa língua
Para o poeta Antoniel Campos*


O doce som de mel que sai da boca

na língua da saudade e do crepúsculo

vem adoçando o mar de conchas ocas

em mansa voz domando tons maiúsculos.

É bela fiandeira em sua roca

tecendo a fala forte com seu músculo

na hora que é preciso sai da toca

como fera que sabe o tomo e o opúsculo.

Dizer e mal dizer do mel ao fel

é fado de cantigas tão antigas

desde Camões, Bandeira a Antoniel,

este jovem poeta que se abriga

na língua portuguesa em verso e fala

nau de calado ao mar que não se cala.

 

*Autor dos belos versos:

“Filiu brasilis, mater portucale,

Que em outra língua a minha língua cale.”

 

 

Profissão de fé

Meu verso quero enxuto mas sonoro

levando na cantiga essa alegria

colhida no compasso que decoro

com pés de vento soltos na harmonia.

 

Na dança das palavras me enamoro

prossigo passional na melodia

amante da metáfora em meus poros

já vou vagando em vasta arritmia.

 

No vôo aliterado sigo rumo

dos mares mais remotos navegados

e em faias de catraias me consumo.

 

É meu rito subscrito e bem firmado

sem o temor do velho e seu resumo

num eterno retorno renovado.

 

 
Anibal Beça com a amiga e escritora Astrid Cabral e Raul (seu filho), na Ac.Amazonense de Letras - 2006

Para que serve a poesia?

De servir-se utensílio dia a dia

utilidade prática aplicada,

o nada sobre o nada anula o nada

por desvendar mistério na magia.

O sonho em fantasia iluminada

aqui se oferta em módica quantia

por camelôs de palavras aladas

marreteiros de mansa mercancia.

De pagamento, apenas um sorriso

de nuvens, uma fatia de grama

de orvalho, e o fugaz fulgor de astro arisco.

Serena sentença em sina servida,

        seu valor se aquilata e se esparrama

        na livre chama acesa de quem ama.

 

 

Poema cíclico

A trave dos meus olhos

é pólen de crisântemos:

                               farpas cronológicas.

Metro a metro a seta ideográfica

abre aspas ao vento:

                               mandala vertical.

        Quem me confere

estas asas nubladas

de arcanjo do limbo?

 

Ah tempo adiposo

a marca do teu risco

        esferográfico

abre mais uma estrada

        (sem acostamentos)

paralela às estrias do sono.

 

Eis que a pálpebra de palha

se apresenta:

                        dos meus olhos saltam

pássaros ariscos      

prontos a deflorar begônias

                        em setembro

e 38 ponteiros

(rubis ciclotímicos do silêncio)

acupunturam poros fóbicos:

 

Calendas

        a fala do espelho

        (espectador anônimo)

mostra-me por inteiro:      

                               vital conselho

entre o sudário que

                               me hospeda

e a angústia que

                               me habita.

 

A miração flutua narcisicamente

o rastro da sílaba

e                     

o grão onomástico sussurra:

                               Aníbal.

 

Quão particular este silêncio

(viés oculto)

que me sabe desnudo

despudoradamente nu

encalhado num atol:

                               leito circunscrito

às algas do meu avesso.

 

Sem embargo

trago sempre no alforje

um fardo de estrelas:

                               sei-me estivador

desse cais agônico:

atarefado Sísifo.

 


Com a esposa, Dra. Eugênia Turenko

Senhora

No calmo colo pouso meus segredos

senhora que sabeis minhas fraquezas.

Convoco só convosco o que antecedo

na lira ensimesmada da incerteza.

 

Não sei se o vero verso do degredo

vem albergado ou presa de represa

das frias águas íntimas do medo

levando o frágil lado da tristeza.

 

A depressiva face não mostrada

esplende em vosso espelho que me abriga

lambendo o  sal dos olhos da geada.

 

Águas que são do orvalho da fadiga

de recorrentes gotas espalhadas

regando as vossas mãos de amada e amiga.

 

 
Com as amigas Candoca e Denisoca

Águas da saudade
Para Dirson Costa que o musicou


Sou apenas um homem na paisagem

na tarde de silêncio e de mormaço.

Só o vento me anima na passagem

deixando no seu rosto o seu compasso.

 

Sou apenas um poeta na viagem

olhando pelo olhar dos olhos baços

a distância que abriga vaga margem

das águas da saudade nos meus passos.

 

Bem me quis esta vila que me habita,

e bem me dei de encantos nos seus becos.

Contudo, não cantei sua desdita.

 

Dessa Manaus distante, restam crespas

pegadas, chão de rugas; minha pista

banhada em banzeiros do Rio Negro.

 

 
Com a amiga Mirley Garganta

Poema para uma casa que mudou de alma
Para meus avós Aníbal e Mercedes

velho Alfredo e Tia Maria do Céu, in memoriam

                              
Nessuna cosa muore
                                            Che em mi non viva

                                                                        Salvatore Quasímodo

A casa permanece casa.

Está lá à mesma rua:

Dr. Almino, número 73.

Mas apenas a casa física

limpa, bem cuidada até,

na cor cinzenta de sempre.

 

A casa continua grave

de arquitetura austera

aura que habitava a casa

de fachada grave:

                               a cara de vocês.

 

Vocês se foram

a casa ficou

mudou de dono

perdeu a anima

perdeu-se de mim

perdi-me dela.

 

Eu que em suas janelas

me achava solto

me fazia vento

me danava em chuva

respingando sonhos

partilhando as águas

do suor dos poros

com primas alegres

de sonoros corpos

pelo velho sótão.

 

O sótão ainda me envia poeira

                               vez em quando

com cheiro de sótão

particular a todos os sótãos

ciosos da função de guardadores

                               de cuidar de trastes

                               móveis & utensílios

                               sem mais serventia.

 

Nisso sou igual aos sótãos

teimoso em  guardar velhos papéis

sem nenhuma serventia

(a não ser os do mausoléu da família

que um dia abrigará esse esqueleto).

 

Na gaveta de guardados

me guardo a mim

de mim me guardo

achado entre os perdidos.

 

II

 

Sei que a marcenaria

no fundo da casa

onde vô Aníbal

construía coisas

para a própria casa

e também pinochios,

pequenas cadeirinhas,

banquinhos e piões,

para alegrar os netos

já não está mais lá.

 

Sei que os móveis

as pias de louça

os santos barrocos

as velhas bengalas

os velhos retratos

já não estão mais lá.

 

Dos livros consegui alguns

raspa de uma herança anunciada

em vida quando era viva a fala

do vivo que me afagava

com promessas claras

para testemunhas vivas.

 

Já vi meus livros prometidos

andando por aí

em bibliotecas nobres

estáticos

em estado de vitrine:        

                        ninguém os lê.

 

Em compensação

eu escrevo livros

de inútil serventia

para quem não lê:             

                        assim ficamos

empatados

                        e na conversa

resolvidos.

 

III

 

Um dia leio que a casa

vai virar museu

noutro

biblioteca infantil.

Menos mal

para alegrar a alma

dessa casa morta.

Menos mal

para alegrar a alma

da inditosa tia

que não teve filhos.

 

Mas aquela casa

com vocação de casa

não volta:

                morreu com vocês.

 

 
Posse na Academia Amazonense de Letras

Canto a continuidade perdida

Canto a continuidade perdida

das vilas perdidas na floresta.

 

Pequenos arruados de casebres,

onde vago tempo esvazia sonhos

em vôo cego adivinhando nuvens.

 

Por todos os cais dessas freguesias,

são cães famintos que dão boas vindas;

e o código das águas, das leiras,

decifra-se no rastejar dos cães.

 

Essa arquitetura de ossos fracos

dos cães de costelas em ogivas,

concha acústica, música vazia,

finca-se na paisagem da fome:

palafitas de quatro patas.

 

Cemitério aquoso de cal cauixi,

fogo-fátuo de brasas na caieira,

ardente hausto de subviventes;

cunhas oferecem o sexo em cuias,

mulheres doam sangue às sanguessugas

no ritual diário de lavar a juta.

 

A saliva de mel das jandaíras,

alimenta vermes nas entranhas,

ruído roendo rotas repetidas

de cavidades intumescidas;

lua crescente, buchos de crianças,

aceirando a parca mesa parca

desses viventes ribeirinhos.

 

 

Picadeiro

Estava sossegado lá no fundo

Do meu eu e de mim sem muita pressa

Nesses momentos calmos que circundo

Roteiro e enredo em ato que começa

Minha descida ao palco do meu mundo

Que venho e represento a farsa dessa

Comédia que é de arte em que aprofundo

A pena desgarrada em vã promessa

De bem cantar somente o mais fecundo

Sonho sonhado sem a cor expressa

Que a vida vai me dando num segundo

O desempenho em títere da peça

Neste papel de doce vagabundo

Que me faz rir da dor doída à beça.
 

 

Em Paris durante a bienal de 1999

Zarzuela cigana para rabeca

Guizos, pandeiros e violões


O cão da caravana acoita sarnas

pelos pêlos tragados de suor

que encarnam carnaduras já de cor

a salteada costa descarnada

 

O cão da caravana esconde as armas

o fogo e a cinza dessa cauda cor-

rente ao dorso de estrelas apagadas

se acendem cimitarras para a dor

 

Ao relho e aos ossos pó entre mil noites

dita a desdita escrita: Maktub!

E o cão se assenta dócil para o açoite

 

Mas lhe aguarda a tarefa de quem ladra

e exorciza a baraka dos impuros

enquanto a vida caravana passa

 

 
Com o amigo poeta Antonio Carlos Secchin

Ária para tenorino e flautim

O gato aparece à noite

com seu esquivo silêncio

de passos bem calculados

num jogo de paciência

as garras bem recolhidas

na concha de suas patas

 

O gato passeia a noite

com seu manto de togado

como se fosse um juiz

de presas resignadas

a sua sentença de sombras

seu apetite de gula

 

O gato varre essa noite

facho de suas vassouras

vermelhas de olhos ariscos

e alcança nessa limpeza

o movimento mais presto

o guincho mais desouvido

 

Mais que perfeito no bote

(tal qual Mistoffellees de Eliot)

do pulo que nunca ensina

tombam baratas besouros

peixes de aquário catitas

ao paladar sibarita

 

Nada à noite falta ao gato:

nem a presteza no salto

nem a elegância completa

do seu traje de veludo

para o baile dos telhados

roçando as fêmeas no cio

 

O gato é ato em seu salto

e a noite luz do seu palco

ribalta luciferina

lunária ária da lua

na réstia de seus dois gozos

é felix feliz felino

 

Guardei a sétima estrofe

para o canto do mistério

das sete vidas do gato

e seu tapete aziago

nas noites de sexta-feira

há provas do seu estrago

 

 
Com o amigo poeta Gilberto Mendonça Teles

Dionysio

Ungido para o fado e a nova festa

Meu carnaval profano já celebra

As quarentenas dívidas da carne

Na cela de costelas das mulheres.

Como devasso réu, confesso fauno,

No vinho das delícias me declaro

Sem culpa e sem pecado original

Pois nessa pena sou igual a tantos.

Já disse certa vez em cantoria:

De nada me arrependo e reconfirmo

Agora que o meu tempo é só de gozo.

A vida que me dou não dá guarida

Nem guarda desalentos de tristeza

Somente na alegria é que me morro.

 


Com o parceirinho Célio Cruz, comemorando o prêmio do Festival de Roraima

Bolero das águas

O passo no compasso dois por quatro

acode meu suplício de afogado

afastando de mim sedento cálice

em submerso bolero de águas tantas.

A sede dança seca na garganta

curtindo signos, fala ressequida

para a língua de couro, lixa tântala,

alisando palavras rebuçadas.

Quanto alfenim no alfanje que se enfeita

para montar as ancas de égua moura.

Lábia flamenca lambe leve as oiças,

é rito muezim ditando a dança:

no dois pra cá me levo em dois pra lá,

nas águas do regaço vou-me e lavo-me.

 

 
Posse da presidência do Conselho Municipal de Cultura


Amor tecendo o amor

      a morte sendo o amor


Quantas vezes subi com a pedra às costas

para depois descer com o mesmo fardo

torneio em que sou alvo do meu dardo

próprio, a sangrar nas távolas de apostas.

 

Não me sei vencedor. Tampouco guardo

as dores, ou fraturas mais expostas.

Sei que vou quando chego e não me tardo.

Lição que é nascitura e de ocasos

 

na transversal em curva me celebro

o vencedor, o torto sem atrasos.

Eis aí a certeza derradeira

 

que chega inevitável sem ter prazos:

vivi todas subidas e descidas

amortecendo o amor sem as feridas.

 

 
Com a amiga cantora Élida


Folhas da selva
(7 haikais)

Jogando a tarrafa

caboclo desfaz a lua -

pesca estrelas de escamas

 


Com o netinho Aleksei


Noitinha na várzea –

com a lua na garupa

búfalos regressam.

 


Astrid e Anibal, com a neta e o filho do autor, no Sesc Manaus (2006)


Girassol na tarde

se curva em reverência:

o sol se vai.
 

 

Posse na Academia Amazonense de Letras


Broca no bambu

deixa furos vazados:

o vento faz música.
 

 

Anibal e Astrid no FLIFLORESTA, dezembro de 2008

  

Na calma do lago

um bufo entre canarana -

Peixe-boi respira.
 

 

 

Sai da catléia

e vem adoçar o chá –

abelha jandaíra.
 

 

Anibal com os netos Anna Theresa e Aleksei

 

Sede de verão –

O mormaço bebe orvalho

nas folhas de tajá.

 

Poemas extraídos do livro 50 poemas escolhidos pelo autor,
recentemente publicado pela editora Galo Branco.
 


 


Palavra parelha,
reunião ímpar

  

Se com Filhos da várzea  Anibal Beça incorporou-se de maneira definitiva à literatura do Amazonas, desde Suite para os habitantes da noite passou a figurar entre os poetas mais importantes da literatura nacional contemporânea.

Tal conceituação decorre da confluência de vários fatores. Apontaria, em
primeiro lugar, ao lado de extraordinária versatilidade, a total consciência
criadora, que preside a elaboração de cada trabalho de sua autoria. 
Não resta dúvida de que, em todas as épocas, o escritor, e sobretudo o poeta 
(artista por excelência do verbo), esteve voltado para os meios e recursos da enunciação, atento, pois, não só às idéias expressas, mas também aos elementos musicais e imagéticos que as acompanham. No entanto,  nos dias em que vivemos,
essa consciência formal adquiriu um relevo ímpar, extrapolando o campo literário.
Há 40 anos Mac Luhan já detectava a tendência da forma sobrepor-se
aos elementos puramente referenciais. Ao declarar que “the medium is
the message” assinalava a importância fundamental que o veículo adquiririu,
passando de simples condutor a integrante da informação, fenômeno
que conquistou, com muita ênfase, a área da publicidade.  Assim, mais que
nunca, o culto da forma, e em particular da palavra, se instaurou e se 
estabeleceu de maneira impositiva e hegemônica.

O fato é que, a obra de Anibal, ao lado da emergência de grande leque temático, distingue-se por seu envolvimento apaixonado com a  linguagem e a metalinguagem,
em particular com os aspectos musicais da poesia, não fosse ele também
compositor premiado e reconhecido na área da mpb.

Sem ser um simbolista anacrônico, pois sua cosmovisão está impregnada também
da aguda percepção da realidade circunstante, e não apenas das inefáveis
iluminações, da atmosfera etérea e misteriosa, típica da torre de marfim, não
se pode ignorar o extraordinário peso do elemento musical em todo o seu trabalho.

Pode-se afirmar que a criação poética não constitui para ele apenas práxis,  inesgotável atividade de experimentação, mas é sobretudo o grande motivo
sobre o qual debruça o pensamento, diria mesmo o tema axial de toda a sua obra. Realidade de que tem absoluta consciência e que o faz declarar:  a poesia é
quem me rege
  e  Minha meta é a linguagem derramada.  E ao dizer derramada
diz, sobretudo, manifesta de maneira fecunda e constante.

Veja-se a imensa produção de sua lavra, onde a eloqüência dos poemas longos
(em que o referencial enfrenta o risco de se esgarçar e a emoção de se diluir) alterna-se com a extrema concisão dos haicai, em  total fidelidade ao expresso
em “Profissão de fé” : Meu verso quero enxuto mas sonoro. Aliás, esse soneto
é basilar na apreensão de sua arte verbal. Nele, Anibal menciona  não só a importância dos elementos melodia e harmonia, como também os vínculos 
pessoais com a tradição, pois ...sigo o rumo/dos mares mais remotos navegados,
e mais adiante, sem o temor do velho, para encerrar resumindo seu fazer
num eterno retorno renovado.
Renovado sim, pois o poeta, ainda que
reverencie grandes poetas antecessores, através de  constante diálogo
com eles, transcende erudição e convenções com liberdade e ousadia.
Basta lembrar de passagem os poemas “Rastafala”, que fecha a Suite para
os habitantes da noite,
e “Rabo de foguete” de  Ter/na colheita.

Em 1998, Aníbal Beça, em  bela coedição da Biblioteca Nacional com a
Editora Sette Letras, reuniu cinco livros de poemas sob o título Banda da Asa
Desta vez, após pequeno intervalo de tempo, novamente consolida outros
cinco livros, em  eloqüente sintoma de fecundidade. Trata-se  agora de Palavra Parelha e outros poemas, que eu diria outros livros (a saber : Cinza dos minutos,
Chuva de fogo
, Lâmina Aguda e Colheita de cabeceira), pois não estamos diante
de composições avulsas, e  sim de conjuntos coesos, organizados em torno
de propostas temáticas e estéticas bem definidas, excetuando-se
apenas o conjunto intitulado Lâmina Aguda, onde se constata
certa fragmentação da unidade.

Palavra parelha  estrutura-se em  sete cantos, o que  logo  nos remete a
aspecto fundamental do poeta. É que, para Anibal Beça, a palavra poética
é sobretudo canto/canção. Note-se que a relevância da categoria poundiana da melopéia não se evidencia somente na elaboração de textos ricos em recursos 
sonoros (ritmos, rimas, aliterações, anáforas etc).  Surge também, explícita,
na definição de cada peça verbal, no decorrer da reunião:  berceuse, ópera, cançoneta, balada, cantiga, pavana, bolero, toada, sonatina, chorinho, baião,
cantaria, canto, ciranda, pentacanto, etc. Toda uma sequência classificatória
reitera, aqui, a variada nomenclatura musical que presidiu a composição da
Suite para os habitantes da noite
. Creio que, na poesia brasileira,
só na obra de Cecília Meireles ocorre essa constante ênfase na
concepção da poesia como música verbal.

Palavra parelha é um poema cosmogônico. Aborda a criação, o parto da palavra,
não na esfera diminuta do individual, e sim na esfera mais ampla da espécie humana. Suprindo a ignorância que temos dos acontecimentos fundadores pelo poder imaginativo, pela  invenção da mente, o poeta rememora o passado genesíaco da criação do primeiro casal, da comunicação entre eles e finalmente da instituição
da palavra. A aventura da parelha humana/ se dá pela ventura da palavra. O desdobramento narrativo, em cima de fatos abstratos, apoia-se no lastro da
tradição bíblica (Lilith/Eva) e, secundariamente, da helênica, imbricando-se na paisagem natural concebida e descrita pelo poeta. Estamos diante de um
tema solene, de imensa magnitude, e o modo pelo qual Anibal atenua tanta
distância temporal e cognitiva é pela escolha de versos curtos (redondilhas e hexassílabos), capazes de neutralizar o sentimento de desproporção e introduzir
um pouco de intimidade, facilitando o acesso  para o leitor. Após os 7 cantos ,
os 5 poemas que constituem a “Síntese”, mencionam o aparecimento da palavra potável/ do cavalo patável que rega a sede do verbo.

Cinza dos minutos, cujo  título nos remete à cinza poética bandeiriana,
inicia-se com o emblemático poema “Anúncio”, onde a temática metalinguística
se entrelaça com a amorosa, introduzindo, portanto, os dois veios que serão
explorados no livro. Segue-se belíssima série de oito sonetos em torno da
amada e amiga
, a quem convoca ajuda para viver a vida por inteiro e em quem
vê a chama /pluma de pássara renascida/vinda com teu fogo e não com cinzas.
Aí, lê-se também as quadras em que confessa o motivo pelo qual escreve e onde o pessimismo aflora em manifesto nihilismo : vivo e escrevo o nada do nada.  Após reconhecer a própria ignorância, nunca me soube de mim, chega, pela análise, a identificar a contradição pessoal  que lhe rege o ser solto de amarras preso atormentado. De qualquer modo rejeita ser menestrel choroso e assume,
no magistral soneto “Picadeiro”, totalmente inconsutil, sem pausa do primeiro
ao último verso, o papel de doce vagabundo/ que me faz rir da dor doída à beça. Afinal, apesar dos pesares, como já declara no poema “Paso doble com Valéry”,
a vida vale a pena.

Chuva de fogo, o livro seguinte, impõe-se pelo erotismo assumido de modo
dionisíaco. Como devasso réu, confesso fauno / no vinho das delícias me declaro. Estamos diante de um canto pagão que recusa a interdição bíblica, como é tranquilamente expresso em “Cantiga de sábado”:

Foram 7 os meus desejos

7 vezes consagrados

que a vida só vale a pena

levada nos seus pecados.

O poeta, afastando  sentimentos de culpa e remorso geradores de tristeza,
faz a opção pela alegria, cuja intensidade pode até conduzir à morte: somente
na alegria é que me morro.,
verso que parece aludir à sensação de morte característica do êxtase amoroso.

Lâmina aguda  se ressente da falta de unidade. Aí se encontram variados
temas e formas: poemas longos, ode, sonetos, formas orientais de haibuns e renga.
Mas é seguramente, o mais pungente de todos os livros. O  tom é sempre cortante
e doloroso, como sugere o titulo, salvo nos poemas em que se ocupa da reflexão
sobre o formal  e que se destacam pela originalidade. Refiro-me a: “Dois pontos” ;
“O ponto”; “A vírgula”. Os elementos da pontuação linguística são avaliados,
sinal da atenção do poeta  voltada, também, para o contraponto do silêncio
que  habita as pausas.

Em Lâmina Aguda, Anibal Beça comparece conectado ao mundo contingente, inventariante da contemporaneidade. Lembro as composições  “Do cinematógrafo
ao bug do ano 2000” e a “Ode ao Cyberpoeta”. No entanto, o sentimento de
nostalgia prevalece sobre o de celebração. O poeta se debruça sobre a sina
da morte  (o prestamista virá com seu alfanje/cortar a prestação da hora) e
produz “Berceuse da morte cronológica”, comovedor encadeameneto de reflexões
e evocações.  Outra composição que se destaca pelo forte teor emotivo,
é aquela em que o poeta rememora a casa dos avós paternos, intacta apenas
na aparência exterior, pois já não passa da ruína de um mundo desmoronado,
e de impossível reconstrução fora da memória.

Colheita de cabeceira é o último dos cinco livros. Reúne poemas em torno
de autores, verdadeira galeria de vultos literários. A lista é bem longa e vai
dos modernistas brasileiros mortos, capitaneados por Dummond, até
representantes de gerações mais próximas, com especial destaque para
o irmão maior Mário Faustino que se foi nos Andes nas asas rijas/ Metálicas/
de um condor de mala suerte.
O circuito nacional amplia-se para incluir Camões, Pessoa, Bashô e Rimbaud , mais um grupo de hispânicos, liderados por Juan Carlos Galeano.  Estudiosos da  poesia de Anibal disporão de farto material de pesquisa sobre a cultura literária de que se nutre o poeta, bem como de sua intensa
rede de afetos,  sua efusiva ternura.  Em perfeita simbiose, louva cada um,
na dicção poética típica do homenageado.  Mais que poemas dedicados,
são poemas desentranhados da vida e obra de companheiros,
tanto em aspectos referenciais quanto formais.

Cerca de 10 dos poemas, que encerram esta colheita, distingüem-se pelo forte
acento amazônico.   Menciono “Ciranda manauara”, “Toadas de boi-bumbá”,
“Águas de Manaus”. O “Pequeno oratório para São Jorge de Lima”,
ao fim da coletânea, realiza em prosa poética uma espécie de sincretismo
entre a figura do popular São Jorge e os lances oníricos  sobre cavalos
mágicos da Invenção de Orfeu.

Na recente reunião de  Palavra parelha,
encontramos a retomada do mítico
que estruturou a “Balada do desespero”, mas não o intenso experimentalismo tipográfico espacial, de herança concretista, que se observa em algumas
composições de Banda da asa, nem  tampouco a emergência do dramático,
através das polifônicas vozes que surgem nas baladas finais da “Suite para
os habitantes da noite”. Há, porém, um  sensível adensamento de cosmovisão,
fruto de inegável maturidade, um aprofundamento filosófico face à
condição humana e à ineroxabilidade do destino. Em meio às intensas
preocupações estéticas, desponta, vigoroso, o  pungente depoimento
do ser que não veio beber/ mas imolar-se na sede.

 

                        Astrid Cabral *

* Poeta, ficcionista, tradutora e cronista.


Astrid e Anibal
no lançamento na B.N. de Banda da Asa e De déu em déu, em 1998.

 

 

 

 
Biografia


Aníbal Beça, amazonense de Manaus, nasceu a 13 de setembro de 1946 e faleceu a 25 de agosto de 2009.
Poeta, compositor e jornalista, desde muito cedo colaborou em suplementos literários nacionais e internacionais.

Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social pela UFRJ. Dos anos 60 aos 80, atuou como repórter, redator, colunista, copy-desk e editor nas redações de todos os jornais de Manaus.

Foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas, do Sindicato de Escritores do Amazonas e ultimamente do Conselho Municipal de Cultura, onde desenvolveu trabalho ímpar, promovendo importantes prêmios e publicando dezenas de obras.

Envolvido com teatro e artes plásticas, destacou-se principalmente como compositor, letrista e produtor de espetáculos e discos. Em 1968 venceu o I Festival da Canção do Amazonas, colecionando a partir daí mais de 18 primeiros lugares em festivais nacionais e internacionais. Em 1969 representou o Brasil no VIII Festival de Joropo, na Colômbia, país aonde mais tarde veio a participar
como poeta do famoso Festival de Medellín.

Tem músicas gravadas por dezenas de artistas brasileiros. Ângela Maria defendeu sua música “Lundu do Terreiro de Fogo” em 1970 no Festival Internacional da Canção.

Aníbal Beça, além de artista, foi profissional multimídia tendo sido produtor e animador cultural de grande destaque.

Em 1994, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite conquistou, na categoria poesia, o 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira dentre 7.038 concorrentes.

Foi membro de importantes instituições culturais,
em âmbito local e nacional, a saber, o Clube da Madrugada, entidade renovadora do campo artístico amazonense, a Academia Amazonense de Letras, a União Brasileira de Escritores e a ONG Coletivo Gens da Selva.

 

 

Curadoria: Astrid Cabral


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