ANA  PAULA  PEDRO

                                                                                             
                                                                                                                                                                                   

Mãos

 

Queria dar-te minhas mãos...

são vazias.

As linhas que marcam

não sei de onde vem.

As unhas que as protegem, roí.

 

Posso dar-te meu coração

antes guardado

tirando o bolor está quase intacto.

Posso dar-te meu ventre

vazio e virgem de teus toques.

 

Minha boca já tens

silenciando teu gozo.

Só não me peças as mãos

ao partir.


Beijo de Borboleta

 

Pêlos curvos e aveludados

como beijo de borboleta

como as curvas de nossos corpos

como pêlos que se tocam

Fecham-se.

 

Viva, projeto minha língua e sinto

Sinto muito!

o calor de tua boca

o toque de teus lábios

a força de teus dentes

pálidos como as pontas de tuas unhas

que rasgam minhas costas

tornando vermelho sangue,

a palidez da minha existência.

 

Abro meus braços

mordo meus lábios

cedo meu gozo

tremo meus olhos

treme meu ventre em busca de mais.

Ofereço-lhe o leite ao sugar meus seios.


Ah! Teu cheiro

essência de divino sabor

A água dos sedentos

Salivo

encontro de águas

Lágrima que lava meus pêlos

Abre meus olhos

Te reconheço.

Me reconheço,

Tua .

 

"Sobre a mesa da sala            lírios de plástico           falsidade das flores"

 

Primeira Chuva no deserto


Fecho os olhos e imagino a primeira chuva no deserto. 
Vejo-te sentado no estreito balcão, mudo, 
olhos vidrados no trajeto de cada gota. 
Fico ao teu lado observando esta imprevista chuva 
e após alguns instantes 
atiro-me nos úmidos braços celestiais; 
deixo a chuva lavar minha alma e meu corpo, 
entrego-me às surpresas do deserto, 
refaço-me inteira. 
Quando volto meu olhar para ti, 
vejo que, assim como o deserto, 
tu também estás a chover. 
Lágrimas que parecem não ter fim. 
Não me apiedo de ti, 
o tempo por vezes parece demasiadamente curto, 
a eternidade se encerra em um segundo, 
a vida por vezes é urgente.

Precipito meus braços em tua direção. 
Observo teu lento caminhar 
e quando finalmente estás diante de mim, 
dançamos ao som dos estalos 
do encontro da água com a areia... 
esfoliando nossas almas das dores da vida, 
vimos um novo dia raiar, 
dançando juntos 
a música que nos habita.

 

Um sítio para minha pequena


Um sítio florido

que seja perto

céu claro

sonhos são copa de árvore

raízes fincadas

sólidas

tardes da velhice

chá de pêssego

rede na varanda

cercado branco

viola caipira, flauta e violão

amanhece

cheiro de café

manteiga derretida no pão

geléias, amoras, damasco

cachorros, pássaros, gatos

tartaruga e peixes cintilantes

de repente até uma vaca

bezerro

ninguém gosta de ser só

xale sobre os ombros

lareira

memória

rugas, dragão, flores e furos

corpos que ainda se amam

dois pássaros azuis se aproximam

quartos alguns

é preciso ter família sempre perto

bons amigos já conhecem Sebastiana

sabem abrir a porteira

fumo na palha do milho

orquídeas do Itamar

é preciso ter fartura sobre a mesa

reivindico um pomar

vinho do porto se queres ser Hilda

papel e tinta

com que escrevo o amanhã.


Santa
 

Afundar sobre a quente névoa de tuas ruas

Soprar como vento em constante persistência das horas

Lambuzar-me em tuas densas águas agridoces

Escalar as falésias de tua incoerente geografia

Renascer como oásis de teus secretos redutos

Esquecer de vez o deserto que há em mim

Cobrir a memória com o tênue lençol de algodão


Antropóloga

 

explorar teus subterrâneos

desvendar teus mistérios

navegar por teus trilhos

ultrapassar teus portais

percorrer tuas curvas

conhecer tuas lendas

penetrar tuas fendas

avistar teus perigos

amar tua geografia

perder-me em ti

nesta hora

todo dia

agora

Ana Paula Pedro, 28 anos, paulista. 
É atriz, psicóloga e poeta. 
Formada pela USP, leciona expressão corporal e interpretação. 
Têm em seu currículo espetáculos teatrais 
como "Alice através do espelho" Armazém Cia de Teatro, 
curtas metragens e alguns trabalhos em televisão.
Participa da Ponte de Versos desde seu primeiro dia e 
em diversos eventos poéticos tais como 
Segundas com Arte, Sábado de Poesia, 
Quarta Capa e Terça ConVerso no Café. 


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