
Afonso Félix de Sousa
traçando esses caminhos. Agora vais em frente.
Ainda que desejes parar debaixo de uma árvore,
comer de um fruto que não seja teu, deitar à sombra
que não cai do céu para todos, ou desviar-te
por outros caminhos que sonhaste e só por isso
julgas teus, irrevogáveis e mecânicos são os passos
que te vão levando, inerme, sobre a corda bamba
até a outra margem – de onde voltar não podes.
Voltar atrás não podes, é tarde, é sempre tarde,
que a cada momento a corda arrebenta atrás de ti
e arma-se de novo a tua frente para que de novo
a pises, vás em frente, chegues lá. Mas a que eira
ou beira? A que destino? Mãos invisíveis traçam
o destino; e os fios com que o trançam, tramam,
são igualmente invisíveis. E vais. Por onde vais,
sejam ou não os caminhos que sonhas teus e pisas,
em toda a água sobre que te debruces, vês, encontras
a imagem de que foges e é
a imagem que buscas.
mas nunca em meu silêncio.
Mãe-vento vem, te leva
a ilhas entre brumas,
e olhas – frágeis barcos
vogando no impossível
soçobram ante o ocaso
de mundos que não este.
Mudo amor, lábios mudos,
mas não flor a fechar-se
ao látego da noite.
O teu silêncio ... oh, nunca
o meu silêncio seja:
não seja do oceano
cansaço de procelas,
último olhar de náufrago
em flocos de saudades
que acordam no meu peito.
Onde o azul? Pobre vôo
os anjos não alcança
e sem rumo se perde,
amiga, em teu encanto.
Crepúsculos sangüíneos
tua presença apaga
e vem do mar, do ventre
do longe e das espumas,
o pranto de meu filho.
Não fora teu encanto
e acabaria a espécie
comigo, com meu sono.
Ah, fosse o mundo meu
o espaço de ternura
que há entre nós dois!

a mim – é muito pouco. Já não basta
que os gestos guardem tantas ânsias cegas
de amar, de ser. Pois a memória arrasta
o rio do passado, que não regas,
que não regaste, com a água da vasta
fonte com que me embriagas; e se negas
ser a que fica em mim quando se afasta
da carne e da poesia: hora em que tento
outros mundos criar no pensamento,
contigo, além do tempo e da distância.
Não basta dar-te o canto como preço
do corpo junto ao meu, se ainda não desço
ao abismo onde o amor
devolve a infância.
VI
Pudesse oferecer-te o que não tenho
numa palavra há muito tempo presa
nas grades do silêncio. E, donde venho
buscar-te com a minha natureza
de deus e de animal, trouxesse o lenho
que avivaria a sede sempre acesa
de aplacar tantas sedes que retenho
de ser mais do que sou, dar-te a beleza
do efêmero perdido, do que tive
de infância e de ternura, do que vive
em mim de quem mais quer e que te quer
- talvez sentisses mais que a carne pobre
que me eleva e revela, mas me cobre,
e sentisse eu em ti mais que a mulher.
VIII
Eternizar o amor que fora eterno
embora só vivesse dois instantes:
um quando ao céu me alçou – a um céu sem antes;
depois, ao acender em mim o inferno.
Banida do presente, em lago terno
voltes a me banhar e desencantes
o mar que clama em vão, de ondas cortantes
partindo do meu ser, banhando o eterno.
Eternizar o amor de um só momento
e quanto mais perdê-lo mais ganhá-lo.
E quanto mais ganhá-lo mais alento
trazer no que recordo e no que falo,
para que possa, em febre e em sentimento,
em mármore e em saudade,
eternizá-lo.
de terras, mas não esta,
onde a beleza, eterna, perderia
os homens só por vê-la,
e ouvir não fosse ouvir tantas perguntas
a medo murmuradas,
mas a que espero há muito, uma resposta
que fale mais que a música.
A vida, a que sonhamos em segredo,
palpá-la com um gesto
de fogo, de poesia, de loucura,
e mansos, em espumas,
cantassem aleluias dentro da alma
os anjos dominados.
Toquei em muitos seres, tantas coisas
por mim tocadas foram,
que, como vento, levo – mas suave –
um beijo, um arrepio.
Mas como te alcançar com mãos de pluma
se as aves são de carne?
Fugir, fugir ... de mim e desta sede,
pois fonte alguma basta,
e ser, no húmus do amor, uma semente
rompendo o escuro e o duro.
E cresçam. Crescei, árvores, milagres
em terras, mas não esta,
onde a beleza eterna seja, e a vida
ganhássemos por tê-la.

Soneto do essencial
A vida, a que não tens e tanto buscas,
terás, se te entregares à poesia;
se andares entre as pedras, as mais bruscas,
da escarpa a que te leva a rebeldia;
se deres mais ao sonho, com que ofuscas
as luzes da razão e o próprio dia,
o coração que pulsa, se o rebuscas,
no eterno ... Ou pulsa um deus que em ti havia?
Que pobre o teu sentir, se não te salvas
perdendo-te de vez nas terras alvas
que chamam da mais alta das estrelas.
Se a tanto te ajudar o engenho e arte,
ao impossível possas elevar-te
subindo em emoções, mas
por vivê-las.
guardai nosso destino
em ânforas de febre.
Ah, ser e estar na terra
e ter que ser e ter
que estar entre horizontes
preso a essas raízes,
qual se não nos bastara
colher no lodo flores
que sonham o alto e o orgulho
de altíssimas estrelas.
Não somos senão homens,
mas de nós algo sobe
em delírio e vertigem
e volta com centelhas
de sóis que jamais vemos.
E ser e estar na terra!
As emoções roubadas
vão fugindo com as nuvens
e há feras que mastigam
a beleza esmagada.
O espaço que nos sobra
é o que mais nos oprime.
E a infância? – Meigo arco-íris
partindo de meu peito
vai descer sobre as águas
de um rio que se forma
da lembrança de um rio.
De meu, que tenho a dar-vos?
No princípio era o verbo
e o verbo se fez carne
e a carne se fez caos
e o caos já se faz forma.
Ah, névoa enfim rendida!
Olhai, se vos perdestes
do farol da esperança –
olhai o cais da vida.
Eis o porto sonhado
que não é meu (é nosso)
e é quanto pode dar-vos
um bicho vil da terra
a refletir-se na alma
de altíssimas estrelas.
Inscrição
Roam, ratos da vida, roam, roam-me
o coração e o seu poder de entrega.
Um pouco será meu – e esse pedaço
faz de mim um pastor de ovelhas surdas.
É tempo de falar ... Entre montanhas
me responde meu eco, e me transvio.
É minha a voz. Nela palpitam pássaros
frustrados nos desvãos de torres mortas.
Se em mim se exila um rei que sonha um trono,
rolem, pedras da altura, rolem, rolem.
Um mar em conchas muitas, tenho o ouvido
desses índios que ao chão escutam longe.
Um cruzador que vem de entre ilhas rubras
fere o cristal de vagas represadas.
Cavalguem-me, cavalguem-me, almas áridas.
Em pouco lhes darei água da fonte.
Ah, beberemos, juntos, numa copa
que outra aurora a chegar há de ofertar-nos.
Nas árvores ao sol escolho um tronco,
gravo um nome e por baixo:
Eu te amo, ó vida!
CONTRIÇÃO
Como não tinha amor, não guardei o rebanho
para bem tarde ver que era eu o desgarrado.
Como não tinha amor, descuidei-me das flores
e é meu peito, é meu peito o jardim em ruína.
Como não tinha amor, não dei quando me davam
e este é o meu coração: a aridez de um deserto.
Como não tinha amor, fugi à voz do sonho
e a máquina de Deus mói o
cristal da vida.

Eu que abarquei auroras com meus braços
eu que me via a um tempo livre e preso
eu que subia aos céus por nós e laços
eu que embebia o amor em verbo aceso
eu que me dava a abismos como a espaços
eu que avançava impávido e indefeso
eu que arrancava flores de fracassos
eu que me arcava sob azuis sem peso
eu que projeto a luz de um deus desfeito
eu que me calo enquanto grita o peito
eu que olho a vida em ilhas e estilhaços
eu que o passado escuto em acalanto
eu que já perco as claves do meu canto
eu que abarquei auroras
com meus braços.
II
Plantamos sim, Amada, e a terra é gasta.
Agora é tarde. Agora cismas, cismo.
O mundo rui (se rui!) e nos arrasta
ou para a redenção ou para o abismo.
A música, imortal, já não nos basta
e máquinas abafam meu lirismo.
Ah, terra, terra-mãe, terra madrasta.
Vamos por ela como em ostracismo.
O que dizer num hospital? ... Dois pombos
amam lá fora e, oculta por biombos
invisíveis, cá dentro a morte espreita.
Junto de cada leito ela é quem vela
enquanto amanha os grãos, enquanto em tela
invisível projeta-se a
colheita.
III
E o resto do caminho? E o resto? E o resto?
Bússola alguma vindo em meu socorro
e a dúvida é o menos indigesto
dos pratos que rumino enquanto morro.
Que morro em ter adiante esse funesto
ter que morrer. E o resto? E o resto? Escorro
rampa abaixo, e é em vão qualquer protesto
como em vão é o uivar do meu cachorro
ou a armadura do Anjo que me guarda.
Fé, esperança, amor – e onde a certeza?
Onde Deus, que não falha, e tarda? E tarda?
E eu aqui a esperar que de surpresa,
ou não, Ele em mim entre, e arda, e arda,
última luz, última
estrela acesa.
À beira do teu corpo
IV
A noite em que mergulhas
é densa, é densa, é densa.
É de horas que não passam
por já suspenso o tempo.
É sono acumulado
no sono dos abismos.
É névoa que se forma
de todos os nevoeiros.
É túnel que vai dar
em mais profundo túnel.
É porta que se fecha
para não mais abrir-se.
É resposta em silêncio
à suprema pergunta:
Se uma Luz nos espera,
ou nos espera o Nada.
como matéria de poesia, nua e crua
Diálogo sem fim
e a esmo
entre mim
e mim mesmo.
Tudo o que vi e que vivi retomo
e ao que o destino me
negou eu somo.
Passagem das nuvens
Os montes, ei-los. O verde
onde dormíamos. Que paz!
Que impossível! Se os buscamos,
recuam os horizontes.
Detê-lo, o carro luminoso.
Inútil: o dia prossegue.
Nas mãos, na bola de cristal,
pelo avesso o que hoje
é sonho, e em tantas
direções (não a que peço
e quero ... outras)
se perde meu destino.
E penso, pálido prisioneiro,
penso. E quanto mais sobes,
pensamento, mais preso
estou à terra.
Suaves, as nuvens fogem.
Para onde? Para onde
irão, lúcidas estradas
em vôo, os pensamentos?
Baixassem, nuvens, errante
me levassem, a alma.
Quero fugir, buscar
- até que o encontre -
o que não creio,
mas quero.
Se há deuses, me chamem.
Estou cansado e mais suave
quero o sono. Tenho fome.
Dos frutos, os proibidos,
dai-me o sabor. Que sede!
Dai-me a beber o amor,
a plenitude, e antes do sono
o pensar na vida sem dizer:
merda! merda! Dai-me o vinho
com que não me esqueça, mas cole-me
asas. Pois estou cansado.
Suavemente, as horas
fogem. Quando não mais
vivê-las, as horas
ainda. E o que me espera?
Nada, o nada. Que apelos
de amor, de vida: o nada.
Incompleta é a vida, sei,
mas são tantas as águas
da eternidade, que jorram!
Dai-me a beber, ó Deus,
ó deuses. E se há deuses,
não me abandonem.

Comentário sobre o autor
Por
Antônio Carlos Secchin
A poesia de Afonso Félix de Sousa
“Aqui estou, um pássaro exilado” é o primeiro
verso do primeiro poema do primeiro livro
de Afonso Félix de Sousa e já sinaliza, de certa forma, as três grandes direções
que sua
poesia iria perseguir. De um lado, o “estar aqui” sublinha o pertencimento a um
espaço;
de outro, o “pássaro” é símbolo e repositório imemorial do lirismo; finalmente,
o exílio
aponta a perda ou a fratura de uma unidade primordial, que apenas a fé na
transcendência
promete recompor. Telúrica, lírica e mística – assim é a poesia de Afonso Félix
de Sousa.
A terra, a mulher e o divino formam o eixo em torno do qual gira a criação de
Afonso.
Abrigado pelo selo da revista Orfeu, órgão oficioso da Geração de 45, o poeta
estréia
em 1948, com O túnel. Em geral, a (má) leitura que se faz dessa Geração (
a supor que
se faça alguma...) a descreve como alienada e cultora de formas fixas. Porém,
mais do
que mero capricho de um grupo de rapazes, a recusa aos valores pragmáticos e
explicitamente políticos foi tônica de grande parte da intelectualidade
ocidental
pós-guerra, desencantada com os rumos de um mundo agressivamente cindido entre
comunismo e capitalismo. “Os acontecimentos me aborrecem” é o verso que
Drummond
colheria em Paul Valéry para servir de epígrafe a seu Claro enigma
(1951). Quanto à
prática das formas fixas, ela representou uma espécie de “classicização”
(eventualmente extremada) da linguagem poética contra o desgaste de certos
procedimentos modernistas
que se esvaíram na repetição, levada a cabo pelos epígonos, das “antifórmulas”
inventadas
pelos pioneiros de 22. É, portanto, nesse ambiente de desconfiança frente a
verdades
políticas e poéticas que o jovem Afonso pavimenta o seu Túnel. Na
primeira parte, os
“Sonetos elementares”, em versos brancos, já atestam um virtuosismo que faz o
poeta
transitar dos tetrassílabos do poema VII ao metro bárbaro do XXII. A segunda
parte, “Prolongamento”, em versos livres, força a nota lírico-erótica, de um
erotismo ao mesmo
tempo intenso e recatado ou, ainda, recatadamente exposto em sua intensidade:
“Helena a me arder no sangue/ eu trouxe lá de Goiás”.
O livro seguinte, Do sonho e da esfinge (1950) apresenta o mesmo convívio
de versos livres,
em geral longos, e de peças isométricas, a exemplo dos decassílabos dos
“Quartetos de contemplação e fuga”, que Darcy Damasceno, ao apresentar a
coletânea Pretérito imperfeito
(1976), considerou um dos ápices da poesia de Afonso. Um tom de doída nostalgia
perpassa
o poema, tecido num hábil entrecruzamento de imagens voláteis (“De pássaros
sou feito,
e quero espaços”) com outras fundamente terrestres (“Ah! flor e espinhos/
no jardim onde
o amor dorme em raízes”). Fiel a seu título, o livro exibe uma atmosfera
fluida, haurida
numa semântica do impalpável. A ausência e o vazio, como categorias-chave,
sustentam
metáforas lunares e noturnas, levando “a mundos que sentimos e não vemos”.
O discurso algo etéreo das primeiras obras cede passo à celebração sensorial e
concreta
da natureza em O amoroso e a terra, de 1953. João Cabral, quase à mesma
época, clamava
contra o divórcio entre o universo (em geral metafísico e autocentrado) do poeta
e a
realidade cotidiana do leitor, e lamentava que formas populares de poesia
houvessem
sido abandonadas em prol de uma sofisticação que conduziria a arte ao hermetismo
e à
esterilidade. Um mundo solar, ébrio de luzes, cores e cheiros, habita as páginas
dos treze
poemas desse Amoroso, que se vale dos metros da redondilha para acentuar
o teor
cantabile de versos que são pura alegria e paixão: “As noites que lá se
foram/ voltam dançando,
e a catira/ que se escuta sempre longe/ é doce – ainda que fira./ O vento dá na
roseira,
/mas meu bem, ninguém me tira”. Textos que trazem em seus títulos toadas e
abecês,
como se o poeta estivesse retornando à gramática primordial da poesia.
Recordar, de certo modo, é reavivar uma “doce ferida”. Se O amoroso e a terra
enfatizou
o adjetivo “doce”, a obra seguinte, Memorial do errante (1956), incidirá
no substantivo
“ferida”. Sim, porque Goiás não é, como se poderia ingenuamente supor, apenas um
espaço;
é, antes, um tempo, transcorrido e perdido em algum recanto da infância.
Daí ser necessário
cavar fundo na memória: não para reaver o passado, mas para confrontar-se com
seus despojos: “Como não tinha amor, não guardei o rebanho/ para bem tarde
ver que era eu o desgarrado.
// Como não tinha amor, descuidei-me das flores/ e é meu peito, é meu peito o
jardim em ruína”.
Trinta e seis sonetos ingleses compõem Íntima parábola (1960), com versos
alexandrinos
de rigorosa fatura, em que a seriedade e o tom elevado não obstam a que o poeta
rime
“Rimbaud” com “maiô”. Acentua-se o veio de uma “lírica do
pensamento”, já vislumbrada nos
“Sonetos da meditação”, vazados em rimas toantes, da obra anterior; reflexão
agora acrescida
de um tempero camoniano, claramente exposto nas peças 12 e 16, ou veladamente
esparso
ao longo do livro. O sentimento amoroso e suas armadilhas constituem o
leit-motif dessa
Parábola, que, sendo exemplar e genérica, não deixa também de ser “íntima”,
ou seja, a partir
de um amor o poeta prospecta o amor. Mas, como “tudo é matéria ao
canto”, o sentimento
humano se transmuda em amor divino, no derradeiro poema do livro: “Tua
presença é luz
que tive entre meus braços/ e , terrível, mostrou-me os meus próprios pedaços”.
Essa
divindade, simultaneamente amada e temida, é a figura lateral que, mais tarde,
ocupará o
centro do mais recente livro de Afonso (Sonetos aos pés de Deus).
Ao mergulho no passado de O amoroso e a terra responde a imersão no
presente do poeta
em Álbum do Rio (1965), lançado no ano da comemoração do quarto
centenário de fundação
da cidade, e dedicado à esposa de Afonso, a também talentosa poeta Astrid
Cabral. Mais
uma vez optando por formas de maior singeleza e comunicabilidade (de que uma
epígrafe
de Noel Rosa já era augúrio), Afonso investe na melodia do “ponteio”, da
“suíte”, da “balada”,
do “assovio”, do “madrigal” e de outras modalidades que irmanam o canto à
poesia. E, no caso,
um canto público – o poeta como voz coletiva, expressa em “discursos”,
“improviso” e “aclamação”, palavras presentes em títulos de poemas e que
pressupõem audiência múltipla e indistinta,
oposta ao intimismo da tradição lírica – , algo similar ao que, no ano seguinte,
João Cabral
de Melo Neto denominaria “poemas em voz alta”. Destaquemos que, num canto tão
polifônico,
cabe até o minimalismo rítmico do “Soneto ao bonde do jardim da Glória”, rara e
exímia composição de texto em verso monossílabo.
Chão básico & itinerário leste (1978) surge após longo intervalo de 13
anos, mediado pelo lançamento, em 1976, do já citado Pretérito imperfeito,
reunião da obra poética do autor.
A parte inicial do novo livro trata, basicamente, de perdas ( não se intitulasse
“Balanços”
um dos poemas...). Mas, para além da pungência da “Segunda glosa elegíaca”,
sobre a morte
da mãe, se destacam igualmente notas de refinado humor e sutil auto-ironia,
conforme se lê
em "A ilha deserta”, em “50 anos” (“Prossegue o jogo/ mas já de cartas
marcadas/ a ferro e fogo”)
e sobretudo na muitíssimo bem-humorada “Réplica do aposentado”. Itinerário
leste congrega
peças escritas durante a estada do poeta no Oriente Próximo, e que ora flagram
aspectos
da realidade árabe ora restabelecem os elos nativos por meio de poemas-resposta
a livros
ou mensagens oriundos do Brasil. Também no Itinerário desponta a veia
irônica de Afonso,
como no texto-agradecimento por sua nomeação para o exercício de missão
comercial no Líbano (“Nossa ou deles a oferta,/ o lucro é coisa certa/ e os
contos do vigário/ aqui não têm otário”).
No conjunto, o livro se apresenta em linguagem despojada, e com uma prática
desenvolta
do metro curto, menos usual no conjunto da obra do autor.
As engrenagens do belo, coroa de sonetos, publicado embora em 1981, é
texto de que o
poeta se ocupava desde 1952, daí guardar certa semelhança formal com livro do
final
daquela década, Íntima parábola, ambos compostos no modelo inglês – em
alexandrinos na
Parábola, e em decassílabos nas Engrenagens. Trata-se, agora, com a
mestria que se exige
para urdir as quinze “jóias da coroa” de sonetos, de celebrar o belo em suas
irrupções ostensivas
e incontroláveis, e de sublinhar a necessidade de a beleza corresponder a uma
experiência
visceral, pulsante e histórica – ainda que de uma história forjada na
imaginação- , contra a
idéia de um esteticismo sem raízes e apenas exteriormente perfeito. Outros temas
povoam
a obra, como o amor, o desejo de diálogo e a afirmação do deserto intransponível
que medeia
entre o eu e o outro. Nessa empreitada de fino lavor metalinguístico, e
francamente hostil
a um formalismo de fachada, Afonso atinge um de seus mais elevados patamares:
“O belo vem do sol do que já vimos.// Pouco nos toca o inédito e o perfeito,
/ se a perfeição se erige em templo gasto/ se o inédito a si mesmo está sujeito
/ além de ser a sua sombra e rasto”.
Qüinquagésima hora (1987) é o (até agora) derradeiro livro do autor
concebido sem
unidade temática. Tal diversidade, porém, faz-se acompanhar de uma profunda
homogeneidade
no diapasão do sentimento que a exprime: referimo-nos à inflexão arraigadamente
pessimista
que o autor infiltra em seu discurso, concebendo a existência como uma sucessão
de desencantos. Leia-se, a propósito, essa pequena obra-prima sobre a solidão e
o desencontro que é “O hóspede”. Tristeza, olvido, estranheza, aridez, amargura,
melancolia e dissipação se aliam na mais desesperançada coletânea de Afonso:
“Morte completa/ dissolve em lento/ esquecimento
/ um poeta”. Curiosamente, dois textos já contêm o substrato dos livros
subseqüentes.
O fecho do terceiro dos “Sonetos crepusculares” prenuncia a atmosfera dos
Sonetos ao
pé de Deus. E “De pai a filho” evoca um ser – o filho Giles, ainda vivo –
num poema que,
três anos depois, integrará a comovente elegia de À beira de teu corpo.
O canto fúnebre ao filho desaparecido encontra, em nossas letras, alguns
predecessores
de alta estirpe: o “Cântico do calvário”, de Fagundes Varela, no século XIX; ou,
já no século
XX, A lápide sob a lua (1968), de Abgar Renault. A esses títulos
agrega-se À beira de
teu corpo (1990), suíte de quarenta poemas, na dolorosa evocação de uma vida
e no clamor
contra a morte, e que Antonio Carlos Vilaça julga o mais belo livro de Afonso:
“
ao estreitar-te/ como se a ver-te/ num sonho,/ o que eu abraço/ é o vazio”.
Finalmente, em 1994, vêm a lume os Sonetos aos pés de Deus e outros poemas.
“Por tudo o que me dás louvado sejas,/ por tudo o que não dás sejas louvado”
é o dístico
que encerra todos os vinte e nove sonetos místicos do volume, reencenando a
figura divina como
pólo irradiador do bem, mas igualmente da privação e da provação, gerando o
misto de amor
e temor a que nos referimos. E esse encontro com Deus nos remete, também, ao
título que
o autor escolheu para sua poesia reunida: Chamados e escolhidos.
Valemo-nos do preceito
bíblico para dizer que, também no reino dos poetas, muitos são os chamados, e
muito poucos
são os eleitos. Entre esses, seguramente, se encontra Afonso Félix de Sousa.
Cronista,
dramaturgo, impecável tradutor de Villon, Donne e Garcia Lorca, mas sobretudo
poeta
- por tudo o que nos deu louvado seja.
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