
Afonso Estebanez Stael
Poesia
Obras do Autor
Perfil Biográfico
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Eu sei quando tu vens
Não preciso sondar os pensamentos
nem consultar meu vasto coração
para saber os dias e os momentos
em que me vens trazer consolação...
A mim me basta olhar pela janela
e abraçar a manhã no meu jardim,
pois sei que a claridade que vem dela
é a luz do teu amor dentro de mim...
Deixo a brisa tocar a minha face,
ouço as aves que vêm me visitar
e sei de cada rosa que renasce
o teu mágico instante de chegar...
Converso com o vento no telhado
onde o tempo costuma te esperar
de um futuro presente antecipado
por anjos que me vêm te anunciar...
No canteiro de beijos e jacintos
o odor suave de uma flor qualquer
inflama de desejos meus instintos
famintos de teu corpo de mulher...
Então eu sempre sei quando tu vens
sem que precises avisar-me quando...
O amor proclama quando tu me tens
e me prepara quando estás chegando.

Aquele tempo era de açúcar
Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será que não verás país
nenhum como este?
Houve um tempo em que a escola
era uma casa de aprendiz de amor à pátria.
Os muros eram feitos de melado e rapadura.
A professora tinha lábios de sorvete de morango
e o hino nacional era cantado à marselhesa
ao pé do mastro onde a bandeira tremulava
como um troféu entre as muralhas
da Bastilha.
O chão da minha rua era de açúcar
as calçadas torrões de chocolate
e a chuva no telhado
era baunilha...
Não havia entrelinhas na cartilha
e cada herói jazia em seu lugar.
Nossos pais, de bem pouco suspeitavam
nem a Voz do Brasil nada informava
sobre trilhas e ardis de vis tropeiros
caminhos das Bandeiras de piratas
e Capitães d’América e Mandrakes trapaceiros
fazendeiros vestidos de jagunços de gravata
lobisomens de araque e coronéis aventureiros
garimpeiros do Conde de Assumar...
Ah, nas crinas prateadas dos canaviais
a lua não se casa mais com o luar...
O vento deu lugar à brisa peregrina
fugitiva da fornalha das usinas
tocadas pelos braços servis
dos samurais.
Não têm nome de heróis os bóias-frias.
Nas galerias os heróis são generais...
A História apelidou de Tiradentes
o mártir solitário de certa Independência
de quem jamais ouviu falar Coimbra cujo nome
não consta nos compêndios
da Sorbonne...
Aqui onde nascemos e vivemos
a História dá nome às avenidas
mas os becos-sem-saída
não têm nome...
Porque este é o Mundo de Marlboro!
O cavalo furioso de fundo de quintal
o alpinista penial em spot-light
o cacoete do nacionalismo alcoólico o cigarro top-model
e o sexo oral...
O manifesto cívico e moral
do arquivo oficial da ditadura
nas entrelinhas da cartilha descartável
das aulas de melado e rapadura...
O chão da minha rua era de açúcar
as calçadas torrões de chocolate...
A praça da matriz de caramelo
iluminada com bolinhas
de sorvete...
Criança,
ama com fé e orgulho
a terra em que nasceste!
Será, será que não verás país
nenhum como este?

Em
tempo de Lótus, Lírios e Acácias...
Jamais perder o momento
de encontrar na boca
um sorriso...
Jamais perder a esperança
de encontrar na curva
um caminho...
Jamais perder a certeza
de encontrar no muro
uma porta...
O lótus pode ser
o momento de glória
da lama...
O lírio pode ser
o encontro da paz
na esperança...
A acácia pode ser
a certeza da vida
na morte...

Canto de Abrição
(Folia de Reis)
Tempo haverá em que
o canto ficará
completamente mudo.
A lágrima será como semente
da palavra salgada
que os olhos plantarão
entre os lábios.
Meu senhor dono da casa
escutai prest’atenção
vinde abrir as vossas portas
pra esse nobre folião...
Devastarão casa por casa
cada palmo de chão será salgado
arrancarão todas as portas
e janelas dos sentidos
como o corpo num ritual
de sucessivos fluxos menstruais.
Sempre a história se repete
como a fábula inventada
por um rei que tem de tudo
e um povo que não tem nada...
Mas eu atirarei minha canção
no telhado da minha casa
e a chuva arrastará meus versos
pelas calhas esgotos e canais
e os desaguará em mar aberto
como barcos que despertam
na restinga da manhã...
As noites se perderão
para sempre de seus dias
mãos cheias virar-se-ão
sobre o chão das mãos vazias.
Transmitirei meu canto
boca a boca
como flor que germina
pelo olhar.
Espalharei meus barcos no vento
e minhas asas no mar...
No banquete solidário
da miséria consentida
só não morre quem não come
porque a fome é dividida...
Cada grito renascerá
no som do apito de fábrica
cada pranto reprimido
será chuva derramada.
Meu pai se chama João Caco
minha mãe Caca Maria
juntando Caco com Caca
sou filho da cacaria...
De verde as folhas lavadas
nos arbustos das colinas
aos pingos encharcarão
as ramagens de resina...
A sobra que cai de cima
não se bebe nem se come...
Como água não mata a sede
como pão não mata a fome...
Nossa voz terá o calor da luz
no interior de uma choupana
na floresta.
A chuva correrá por claros vales
como fios de lã levados pelo vento.
Os pássaros imigrarão de seus mistérios
e as flores da manhã se regozijarão
como sinos diáfanos de luz
que não se ouvem senão com o coração...
Não quero toda a farinha
somente um pouco do pão
com que vossa mãe Maria
esposou meu pai João...
Os pés dos pequeninos pisarão lá fora
não como as botas que hoje pisam
a relva da esperança
fecundada pelo orvalho...
Eles terão o seu itinerário certo
como as reses os sulcos dos campos.
Quem sobreviver verá
em passos desencontrados
o diabo passar no rastro
sob as cinzas dos reisados...
Todos entoaremos
uma canção que não se ouvia mais.
Os olhos verão coisas inacreditáveis...
E os homens se tornarão
mais unidos pelo amor
como irmãos num só rebanho
pela voz de um só Pastor!
Nosso ódio não tem mais ira.
Andamos de pés trocados
festejando os desmomentos
dos remates acabados...
Meu senhor dono da
casa
escutai prest’atenção...
Vinde abrir vossa loucura
pro meu canto sem razão.

O último dia de trabalho
do pôr-do-sol no mar
(ou do penoso ofício de sonhar)
Havia o mar na sombra do horizonte
havia o pôr-do-sol na água sombria
havia o porto e a encosta do mirante
e os corpos dos amantes na mortalha
da água fria...
Havia as naus no dorso dos destinos
e a brisa que saudava a volta ao cais
com os corais dos cantos peregrinos
das harpas e violinos dos noturnos
vendavais...
Havia como um repousar do mundo
nos profundos jardins das enseadas
havia vasta ausência no mais fundo
das almas insepultas que sonhavam
acordadas...
Havia o céu de estrelas rutilantes
e havia o mar de ninfas reluzentes
e a corrente de espumas flutuantes
das errantes escunas entre luzes
fluorescentes...
Havia como um êxtase em preparo
talvez a luz em seu estado impuro:
mais parte escura do seu lado claro
do que mais parte clara do seu lado
escuro...
Agora onde era o mar há o oceano
o poente sem sonhos naufragados...
Jaz agora no cais em ritmado sono
o pertencido amor dos navegantes
afogados...
Ainda há aves mortas no convés
e há naves ancoradas sem destino
o declínio de auroras dispersadas
pelas marés da saudade em pleno
desatino...
Ficou uma canção de marinheiro
e um canto rústico de pescadores
o pôr-do-sol no doloroso encanto
de renascer, sonhar, depois morrer
sem dores...

Lisa
Nos ciprestes quem dança
é a toada perdida
se é o vento quem canta
e quem chora é a brisa.
Chuva fina no rosto
e entre musgo escorrida
nas penugens do corpo
descoberto de Lisa...
No lençol de alvo linho
uma rosa imprimida
em sudário de cio
sob lua precisa.
Da janela do quarto
ouço vaga cantiga
de algum anjo em compasso
com os passos de Lisa.
E na rua quem vaga
é a flauta partida
da canção acabada
na toada indecisa...
Nos ciprestes quem mora
é a flauta perdida
se é o vento quem chora
e quem canta é a brisa...

Pastoreio
Depois que aqui for deixado
e todos tiverem ido
vou ser vento libertado
pelas mãos dos desvalidos
espalhando flor e pólen
no solo fertilizado
com o pranto dos oprimidos...
Vou soltar as estribeiras
cavalgar nuvens em pêlo
e aboiar as corredeiras
de meus rios represados...
Vou montar a liberdade
fingida das carpideiras
com pena dos condenados.
Sob os lábios comprimidos
dente por dente calado
olho por olho cerrado
na masmorra dos sentidos...
Vou virar redemoinhos
e girar pelos caminhos
como pássaros banidos.
Meus sonhos pagens de ninfas
luzes sombras sobre os lagos
prado em flor de claras tintas
de mistérios desvendados...
Vou apascentar meus mortos
na paz de ovelhas famintas
entre lobos saciados...

O Inferno do Céu
Em parte somos feitos mais de sonhos
em parte mais de morte e pesadelos...
Em parte entre conselhos de serpentes
que mentem como a face dos espelhos.
Flores não sangram sob seus espinhos.
Rosas nem sabem quando vão morrer...
Calam-se os ninhos quase indiferentes
se é para sempre quando amanhecer...
Amor é dom que não celebra a morte
são flautas gêmeas da canção da vida
que suaviza como o êxtase das almas
acalma o coração que ainda agoniza...
Não há inferno onde um grão de amor
viceja em forma de uma flor qualquer...
Ah, luz do arco-íris dos portais do céu!
Oh, véu da flor de quando o amor vier!
Inferno é a dor que queima sem amor.
Amor é fogo que arde sem queimar...
Amor que amarga e dói e permanece
chama que a alma aquece sem tocar.
Malgrado tudo existe essa esperança
de que o sonho de luto dos enfermos
seja apenas lembrança desse inferno
que
jaz eterno dentro de nós mesmos.

Livro de viagem ou do depoimento
PRIMEIRO
que tudo aceito a tirania da saudade
que levo como prova de amor envergonhado:
minha gente submetida da América deBaixo
é a mulher rendida da América de Cima.
As gaivotas negras da paz estão pousadas
nas sombras das pedras machucadas pelo tempo
– a decidir caminhos que vão não sei pra onde
gritando liberdade de não sei o quê.
O que humilha mesmo é essa guerra de muletas
onde a vergonha da derrota nos obriga
a colher restos de louro jogados pelo chão.
Acostumamo-nos a estender as nossas mãos estradas
e os nossos braços trilhos às locomotivas
que colidem todo o dia com o nosso coração.
E vamos passando em nós uma cidadezinha antiga
onde o Rei um dia prometeu passar...
– E não passou!
Não sei onde arranjei essa coragem de dizer
que nossas guerras são de auroras
renascentes na paz do sangue verde matutino
da criança que ainda acordará dentro de nós...
SEGUNDO
a prova do tempo
o irmão cosmoascencionário
não tem ódio nem amor...
Apenas curte a cobiça
do enteu bdélio e formal
– o degas imperador.
Morra a flor, mas guerra é guerra.
Nos bate-bocas da paz
make tecnic of love!
Desde que inventou a fome,
das primas virgens não há
uma só que ele não prove.
Fora, faz praças de sangue
para mostrar na cozinha
aos irmãos que é o mais forte...
No momento da partilha,
se quiser levar a vida
que leve também a morte.
Fraternidade promíscua!
Faz pensar que o beijo seja
a arma com que se apossa...
No entrevero da conquista,
desfralde a sua bandeira...
Mas nunca defraude a nossa!
TERCEIRO
mundo ou planeta
ou cortina de montanhas
onde as mãos que não semeiam
tiram flores das entranhas...
Onde o canto se constringe
com mil facas na garganta
que pra viver em que ouve
precisa matar quem canta.
Ninguém sabe a leite ou mel
estrangeiras ilusões
sob a terra prometida
as sementes dos canhões.
Torne ao chão o que é do chão
cada um tem seu processo
e ninguém condene a falta
quando peca por excesso...
Terras, máquinas, nem sempre
põem coroas em quem vence...
Pelo homem haja quem faça,
não haja nunca quem pense.
A semântica da língua
é reserva do senhor...
– Amados, não sejais mudos,
envenenai-vos de amor!
QUARTO
de família. Odor de gasolina na floresta.
Mulheres cheirando a flor de arroz
chapéus-de-palha na cabeça.
Ah, crianças morrem
porque não sabem que há flores
que são napalms.
Os homens voltam dos pântanos
os alvos dentes camuflados
pelo silêncio premonitório da família.
Quando estiverem todos dormindo
o profundo sono da tragédia
os passarinhos inventarão a guerra...
QUINTO
milênio de paz e mistério
nos alvos vultos de voláteis vestes
onde vem leve o vento flautear.
Na pachemina em sândalo na seda
que vão cantando músicas de vidro
purificando os dedos no tear.
Um rebanho se move lentamente
como um rio tangido pelo canto.
Nos braços da mãe um anjo levita...
Ouvem-se passos de velhos amigos
e tece em silêncio toda a família
o pão de amor com que se comunica.
Sáris brilhantes teares incenso...
Aurora policrômica de um deus
que nos fala como antigo parente.
É o segredo da paz que não sentimos
quando nós sem amor lhe desvendamos
o mistério da fome que não sente.
SEXTO
continente sem amor amado
comprado a peso de ouro
no mercado inflacionário dos brancos.
Os guetos são o sexto sentido
da liberdade currada.
Os mercadores da guerra acreditam
que o amor odiado morre com a morte.
Mas o preço do ódio vendido
é ser vermelho o sangue dos negros...
– Livre, há de querer provar o quanto é forte!
CIRANDA
cirandinha
vamos todos cirandar
nossa paz saiu de casa
mas um dia vai ficar...
ou foi dar uma voltinha
para nunca mais voltar...

Um Soneto Natalino
Se se tem que ser hoje aquilo tudo
que em vida não se foi, podendo ser,
seja esse sonho mudo ainda mais mudo
enquanto for eterno até morrer...
Se se tem que pedir, que sobretudo
seja a doce ilusão de merecer
ao menos a esperança como escudo
de que sonha algum dia receber.
Peça-se amor que mais amor reclame,
prazer de desejar só dor menor
em sofrer o prazer que se viveu...
Senão com grande amor não se desame
ou se ame com amor ainda maior
essa dor que tão grande se doeu!

Meestria a Leonora de Proença
Um dia brisa no campo
um dia a asa no vento
enviei-te o pensamento
ferido de desencanto.
Leonora, Leonora,
ess’amor assi non fora
qu’outro bem me fora tanto?
Uma vez brisa soprada
uma vez asa partida
minha ilusão tan velida
voará desencontrada...
Leonora, min tormenta,
non torn’ess’amor qu’eu senta
em coita tan desamada!
Leonora, eu cuidaria
dess’amor com tal desvelo
que outro bem pra merecê-lo
de ser mor que o meu teria,
Mays se vós vísseis, Senhor,
com tal coita mia dor,
dess’amor vos morreria...
Quanto mais a dor doesse
mais
esse amor viveria!

DESTINO
Eu quero seguir
teus passos
palmilhados
entre espinhos
colhendo as rosas
que deixas
como pedras
em meus caminhos...

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