
Affonso Romano de Sant'anna
VIDA ARTÍSTICA
Queriam escalar a montanha
como quem fugisse de um afogamento.
Mas ao invés de oferecerem os ombros
para que os pés dos outros se elevassem
puxavam para baixo tentando impedir
que os demais galgassem.
Assim a escalada para cima
era para baixo uma escalada
e os que chegavam ao topo
ao invés de se extasiarem com as alturas
e a beleza dos lugares
rejubilavam-se, por algum tempo
de não
terem sido ainda destruídos por seus pares.
PASÁRGADA
Foi preciso que um poeta brasileiro
te sonhasse
e que outro
aqui viesse
para que em ti -Pasárgada
os extremos se encontrassem.
Não careço dizer
o quanto me custou
o transe
o passe
antes que aqui
o mágico tapete
da poesia
me aportasse.
Pasárgada enfim
entreabriu-se
aos meus passos.
Poeta
aqui estou no Paraíso
que
despudoradamente
cantaste.
Mas onde supunha
um jardim de delícias
me esperasse
abriu-se uma lição de ruínas
como se Pasárgada fosse
o paraíso que pelo avesso
se ostentasse.
Primeiro visito
a tumba de Ciro
que a criou
para que das pelejas
descansasse.
-Aqui jaz “o rei dos reis”
cujo império da Babilônia à Etiópia
do Afeganistão à Capadócia
ia aonde seus arqueiros e cavalos
chegassem.
“Não lamente oh! mortal
aquele que aqui jaz
pois ele fez tudo o que fez
e reinou na guerra e paz”.
Adiante
entre ruínas
está Pasárgada.
Onde o ruído dos escudos
o atropelo das patas dos corcéis em guerra
o alarido das lanças
os sons dos instrumentos em festa
ecoando nos canais
jorrando nos jardins?
Caminho entre derribadas pedras
me atrevo entrar no Portal da Casa
na Sala de Audiências
no Palácio Residencial
e piso os quatro degraus restantes
do Altar do Fogo
com quatro homens alados em relevo.
Foi preciso
que nas mesmas planícies
em que Ciro ergueu o seu império
Alexandre irrompesse
e a tudo devastasse
foi preciso
que o vencedor
se visse diminuto
e ante a tumba do vencido
se persignasse
e pedisse a um sábio
que o que estava ali inscrito
traduzisse
e lhe explicasse
foi preciso
que a ruína e a glória
na mesma pedra aflorassem
e o amor ensinasse à morte
lições
que só na morte renascem
foi preciso
que um poeta brasileiro
te carecesse
e outro
de sobejo
te buscasse
que ao Oriente pelo Ocidente
a poesia chegasse
foi preciso
que o menino
no velho despertasse
e que de sucesso
em sucesso
o jovem fracassasse
foi preciso
provar que em Pasárgada
não se chega como conquistador
mas como quem reinando
obedecesse
e partindo
ficasse
e olhando as ruínas
nelas algo edificasse
como se a vitória
pelo avesso celebrasse.
Pasárgada
-o não-lugar
onde a poesia
(ausência plena)
reinasse.

O PAI
Procuro em meus papéis,
nos baús familiares,
um perdido testamento.
Encontro cartas, provérbios em Esperanto,
Pensamentos de Raumsol e a caligrafia de meu pai.
Homem de fé, rezava nos cemitérios.
expulsou demônios em Uberlândia
e alta madrugada enfrentou o diabo
cara a cara em Carangola.
Nenhum dos filhos a tempo o entendeu.
Mas ele, esperantista,
esperava as cartas da Holanda,
e as vacas gordas de José
e o fim da Torre de Babel.
Meu pai, cidadão do mundo,
pobre professor de Esperanto
à beira do Paraibuna.
Lia, lia, lia. Havia sempre
um livro em sua mão.
E chegavam missivas
e selos fraternais
-mia caro samideano-
Polônia, China
Bélgica e Japão.
Maçon, grau 33,
letra caprichosa,
bordava atas da confraria,
Falava-nos de bodes e caveiras,
liturgias impenetráveis
e um dia trouxe-nos a espada
que entre os maçons usava.
Aos domingos, à mesa
refestelava-se de Salmos:
lia os mais compridos
ante a fria macarronada,
Mas sua flauta domingueira
apascentava meu desejo
de pecar lá no quintal
e arrebanhava as dívidas
despertas na segunda-feira.
Esteve em três revoluções.
Não sei se dava tiros
e medalhas nunca foi buscar.
Capitão de milícias
aposentado por desacato ao superior
discutia política sem muito empenho.
Votava com os pobres: PTB-PSD.
Tio Ernesto era udenista
e cobrava-lhe rigor.
Levou-me a ver Getúlio
num desfile militar.
No bolso, uma carta
expondo ao Presidente
penosa situação:
injustiças militares,
necessidade de abono
e pedia uma pasta de livros
pro meu irmão.
Isto posto, era capaz de esperar
semanas e meses
sem desconfiar, que ao chorar
ouvindo novelas
da Rádio Nacional
era ele próprio personagem,
porque se, como diz García Marquez,
ninguém escreve ao coronel,
o ditador jamais escreveria ao capitão.
Noivo contrariado,
fugiu com minha mãe
e com ela trocou cartas, que vi,
escritas com o próprio sangue.
Brigou com o carroceiro
que chicoteava uma besta
diante de nossa porta.
E quando a tarde crepusculava,
tomava a bilha paralítica no colo
passeando seu calvário pelas ruas
do interior.
Certa vez, como os irmãos
pusessem em mim trinta apelidos
querendo me degradar
chamando-me de “guga”,
“tora”, “manduca” e “júpiter”,
certa noite, notando-me a tristeza
levou-me pro quintal
entre couves e chuchus:
mostrou-me Júpiter, a enorme estrela
e outras constelações; peixes
touros, centauros, ursas maiores e menores
tudo a brilhar em mim
estrelas que com ele eu distinguia
e desde aquela noite
nunca mais pude encontrar.
O ERRO CERTO
/têm versos demais e muitos precisariam ser reescritos.
Trechos dos Cantares de Ezra Pound são prosaicos
/e a rigor incompreensíveis.
Manuel Bandeira e Neruda tem alguns poemas, que façam-me o favor!
Os Lusíadas, às vezes, cansam,
quase viram prosa rimada,
tal como ocorre com partes da Eneida, da Ilíada e da Odisséia.
Alguns quadros e desenhos de Picasso
nem parecem feitos por um mestre.
Stravinsky às vezes aglutina sons demais em sua pauta
Mahler, como Brahms, faz música, às vezes inteligente demais
e um dia, pasme! ouvi algo de Mozart que não me comoveu.
Até Bach tem composições de pura habilidade.
como sabe qualquer atirador.
Por que não queres aceitar
a
imperfeição do meu amor?
O ANÃO DE MARRAQUESH
Em Marraquesh
há um anão
que ensandece as mulheres.
Elas vão ao banho
(dizem aos maridos)
fazer limpeza de pele
mas algo a mais
ali sucede
basta ver como depois
além do corpo
a alma
lhes vai leve.
O segredo deste anão
está guardado
na palma de sua mão
pois com seus dedos
sabe sublimar
as mulheres.
Elas vêm e ele
com silencioso gesto
pede que se dispam
-se despem.
se ele dissesse: voem
voariam, se dissesse:
dancem, dançariam
se dissesse: amem-me
-o seu mínimo corpo
amariam.
Mas pede apenas
que larguem suas vestes
e se deitem
à espera
que suas pequenas mãos
se agigantem e abram
portas janelas
desvãos abismos
na vertigem
da viagem
dentro da própria pele.
Quando se despem
despedem-se
dos maridos
e já não mais carecem
de amantes
é como se Penélope
convertida em Ulisses
nas mãos do anão
a Odisséia sentisse.
Ninguém sabe
exatamente
o que seus dedos operam.
Começa pelos pés
e algo vem subindo
devagar ao leve toque
que não toca
que roça
mas não fere
que solicita
e impera
e vai em círculos
como se o bem e o mal
se transcendessem
numa espiral
de delícias.
Os maridos e parceiros
ficam no hall do hotel
bebendo uisque
nas quadras
jogando tênis
e nunca saberão
o que ocorreu
ao leve toque
daquelas pequenas
potentes
suaves
mãos.
Finda a massagem
(nome conveniente
à transfigurante
viagem)
as mulheres reaparecem
translúcidas
caminhando
a um centímetro do chão
irrompem inalcançáveis
como se tivessem
tido uma visão.
Aos maridos não adianta
qualquer explicação.
Há na pele da alma delas
algo de que jamais
se esquecem:
o irrepetível toque dos dedos
e das mãos
do anão de Marraquesh.

A Implosão da Mentira
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país
de mentira
-diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

QUE PAIS É ESTE?
(Fragmento 2)
Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.
Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.
Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,
emeamos promessa e vento
com tempestades na boca,
sonhamos a paz na Suécia
com suiças militares,
vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia
senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,
bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,
a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,
cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,
pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas
Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais.
Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.
Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,
o salário que nos come
e nossa sede canina,
a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína,
nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina,
e nesse mundo às avessas
- a cor da noite é obsclara
e a claridez
vespertina.

EPITÁFIO PARA O
SÉCULO XX
1.Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2.Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar `a esquerda
ou `a direita
eram questões centrais.
3. Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux-vômica
4. Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado, empestado,
que enfim sobreviveu
`as bactérias que pariu.
5.Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6.Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7. Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas, sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro
a custo aproximou.
8.Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9.Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno.
Século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.
10.Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para lugar nenhum.
11.Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônicos estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tente piedade, como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum.
CONJUGAÇÃO
Eu falo
tu ouves
ele cala.
Eu procuro
tu indagas
ele esconde.
Eu planto
tu adubas
ele colhe.
Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.
Eu defendo
tu combates
ele entrega.
Eu canto
tu calas
ele vaia.
Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.

A PESCA
O anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe
a agulha
vertical
mergulha
a água
a linha
a espuma
o tempo
o peixe
o silêncio
a garganta
a âncora
o peixe
a boca
o arranco
o rasgão
aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol
aquelíneo
agil-claro
esabanado
o peixe
a areia
o sol.

A BELA DO AVIÃO
Mereço tocar em teus cabelos,
Loira e anelada mulher
Que não me conheces
E estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
Teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
E fechados os olhos viajas
Para alguém que te espera, ou não,
Sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
Em tua boca perfeita
Teu sublime nariz,
Sem saber que conheço teu corpo
Com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo , com extremado pudor,
Em peças íntimas no quarto,
Sei da ponta de teus seios
E do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
Carregar continuamente
Essa beleza
Publicamente cobiçada!
Poderia te falar
Mas te sentirias imediatamente punida
Por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
À tua passagem ,
Pois carregas o fastio da beleza
Esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
Assim te contemplou
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
Quando, sendo bela, chorares como as feias
E aviltada, quiseres morrer
Na hora da traição.
Os poemas que não tenho escrito
Os poemas que não
tenho escrito
porque
trabalhando num banco me interrompiam a toda hora
ou tinha que ir à venda e à horta
- quando o poema batia à porta,
os poemas que não tenho escrito
por temer
descer mais fundo no escuro de minhas grotas
e preferir os jogos florais
de uma verdade que brota inócua,
os poemas que não tenho escrito
porque
meu dia está repleto de alô como vai volte sempre obrigado
e eu tenho que explicar na escola o verso alheio
quando era a mim próprio
que eu me devia explicado,
os poemas que não tenho escrito
porque gritam
ou cochicham ao meu lado
ligam máquinas tocam disco e ambulâncias
passam carros de bombeiro e aniversários de criança
e até mesmo a natureza solerte
se infiltra entre o papel e o lápis
inutilizando com sua presença viva
minha escrita natimorta,
os poemas que não tenho escrito
porque
na hora do sexo jogo tudo para o alto
e quando volto ao papel encontro telefonemas e prantos
a exigência de afetos, planos e reencontros