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Thereza
Christina
Motta |
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Morada
Tua sede é tamanha
que naufrago no cálice
em que bebes.
Tua sede, diurna,
me espreita pela noite
e me aguarda.
Nossos sonhos, perversões submersas,
a navegar silábicos mantos,
tramas, viagens, segredos.
Distâncias que nos aproximam.
Sou o princípio,
és o fim.
Me ouve, sou tua,
seja em corpo ou sem ele.
Teu prazer, alvo.
Veste-me e despe-me.
Transita por mim,
hóspede breve
e habita-me.

Amor
Respondo-te com o mesmo calor da hora,
com o mesmo entusiasmo lançando-se sobre mim.
Respondo-te com as mesmas palavras longínquas,
o mesmo ardor do tempo,
que só responde a perguntas com o silêncio.
Somos os bravios olhos da tempestade,
o vórtice do furacão,
a manhã estrelada de tantas auroras antigas
- memória restaurada com as mãos ainda breves e leves.
Respondo-te com o que sei de mais límpido e transparente.
meus cristais sobre a areia ainda úmida da manhã.
A praia que nos cerca é fronteiriça
e nos abre os limites da espera e da vida.
Toda vida está diante de nossos olhos,
como o mar que nos aguarda
se o singrarmos.
Partimos para descobertas irrealizadas,
trafegamos outros mares por descuido
e voltamos, exaustos e mudos,
à mesma praia,
à mesma origem,
ao mesmo templo diante do abismo.
somos os que avançam sobre as águas
- cortando a lâmina fina do esquecimento.
lembramos quem somos e o sabemos
- toda vida está aonde a colocamos,
vibrando a única melodia que
conhecemos:
amor.
Basta que
Basta que eu recomece atenta
Ergue-se entre ti e o tempo
a fronte séria de teu olhar
Jamais passarão sobre nós
flagrantes e inesperados.
Resta esta antigüidade próxima
uma fome maior que o alimento
sorver a pétala antes que

E porque somos
Há um sentimento de
riqueza nisso tudo,
um alheamento, um tecer de ramos,
uma fome de sombra e luz,
um esgueirar-se, um olhar furtivo,
reflexos de sol na água, tua forma, teu beijo.
Há um sentimento nobre nisso tudo,
uma alegria contida, um entremear de lábios,
um suspiro, coisa que não se sabe nem se fala.
Há tudo e não há nada: tudo está por existir e já existe;
de alguma forma, ter existido já é completo.

Sábado
É sempre
sábado
quando lembro que o tempo
passa mais rapidamente
do que conseguimos perceber.
Ainda estou sob o impacto das torres
e alabastros nos poemas de Espanha.
A paixão é uma torrente inesgotável
e só ela nos sacia os desejos.
Quando, você pergunta.
Tento responder e não me surpreendo.
Coisas pragmáticas perdem o élan.
Quando - é tempo que não descobrimos.
Temos de ser descobertos.
Isso o torna ainda mais súbito.
Como um clarão pela manhã.
Cristalina manhã.
Abismo
Nada se dissolve
em abismo.
Ora verto
descompassado
feltro
ora ouço
assimétrica
fala.
Nada te
sustenta suspenso.
És outra fria
hora
outro
longínquo olhar
outro fremir
outro ermo.
Nada te
descobriria
o réquiem
o mordiscar
de balas
a lágrima
vítrea
sobre o lábio
seco.
Nada.
E mais nada
houvesse
mais denso
serias.

[Artefato]
Da matéria prima ao arte-fato,
elaboramos gloriosos modos.
O que temos, transformamos.
O que somos é transformado.
.

Morada
Meu tempo é teu.
Mesmo que não quisesse dá-lo,
me pedes
e te dou.
Não sei que rosto está oculto,
que face tenho para mostrar.
Sou esta que vês.
.

Querer
Quisera-te
único,
existente.
Quisera-te antes da febre
do outono, das horas.
Quisera-te uma vez
e me bastar
.

Belo
Laça-me
enlaça-me
que quero
ver-te
vertido
comigo.
Laça-me
caça-me
guarda-me
porque já me tens
contigo.
Thereza Christina Rocque da Motta
Nasci em São
Paulo e logo me levaram para passear.
Vivi em Boston até um ano e meio de idade e só voltei ao Brasil
aos cinco anos, depois de ter vivido em Assunção e Montevidéu.
E morei no Rio, até os 18 anos. Daí veio o primeiro corte
transversal na minha vida, a ida para São Paulo,
deixando amigos e pessoas que tinham convivido comigo por treze anos
e comecei tudo de novo. Fiz vestibular de Direito para o
Mackenzie e entrei na faculdade em 1977.
Outro ciclo se iniciava. Já de cara me convidaram para
fazer parte da redação do jornal Análise do DCE da Universidade
e ali fiquei até 1980. Por causa dos poemas que publicava no jornal,
fundei um grupo de poetas mackenzistas, inicialmente, que logo se
expandiu, agregando poetas que fomos encontrando nos vários eventos
de poesia que pipocavam naquela época.
Até 1982 não fizemos outra coisa senão publicar livros,
organizar leituras e exposições de poesia. Isso criou o lastro
para os livros e a atividade de agora.
Lancei meu primeiro livro em 1980, já dentro do grupo Poeco – Só
Poesia,
Relógio de Sol e no ano seguinte, Papel Arroz,
também em co-edição com outros dois autores, mas em 1982,
veio o primeiro livro individual, Joio & trigo e em 1983,
o pôster com o poema Décima lua. Participei de antologias e
continuei escrevendo. Mas a formatura em 1981 deu início
à carreira profissional e estancou o processo criativo,
fazendo que todos que haviam estado juntos até então,
se separassem e fossem cuidar das suas vidas.
Somente em 1992 retomei a publicação de livros – porque parar
de escrever nunca parei. E lancei em dezembro de 1995, Areal,
reestreando assim junto com o evento que se chamou Ponte Poética,
reunindo poetas do Rio e de São Paulo. Esse foi o início
da nova fase de expansão de atividades poéticas que estamos
vivendo agora – para todos. Em 1996, começaram a pipocar as
editoras voltadas a publicar poetas. Em 1999, decidi voltar
a viver no Rio de Janeiro e dei de cara com eventos de poesia
em franca atividade, o Panorama da Palavra, o Ver o Verso,
e logo eu fundava também um grupo de poetas,
que chamamos de Os Descaravelados – em alusão direta ao
descobrimento
e ao Espaço Caravelas onde fazíamos nossas apresentações semanais
de poesia, que terminaram no final do ano.
O ano 2000 já trouxe outras novidades. Em agosto lancei uma editora,
a Ibis Libris, para dar vazão aos novos autores que queriam ver
seus poemas publicados e lancei Poesia Profana de Ricardo Ruiz
e Poemas Cariocas, reunindo 47 poetas que lêem seus poemas
nos diversos eventos que ocorrem no Rio de Janeiro,
entre eles um que coordeno, Ponte de Versos.
Em 1998, lancei meu quinto livro, Sabbath e outros poemas,
e estou para lançar mais um em julho, Alba,
que vai trazer os poemails, os poemas feitos por email
e divulgados entre a lista de poetas que circula na Internet.
Se você
gostou, escreva para:
tmotta@uol.com.br
Ou indique o endereço:
www.almadepoeta.com/therezachristinamotta.htm
Veja também:
www.almadepoeta.com/poetas3x4.htm
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