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Argila
Nascemos um para o
outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs na carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...
Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranqüila...
É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),
Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo,
E do teu ventre nasceriam deuses...

Decadência
Afinal, é
o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...
Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente.
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...
Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...
Vai-se vivendo... e muitas vezes nem
sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobrevivente de nós mesmos!...

A hora cinzenta
Desce um
longo poente de elegia
Sobre as mansas paisagens resignadas;
Uma humaníssima melancolia
Embalsama as distancias desoladas...
Longe, num sino antigo, a Ave-Maria
Abençoa a alma ingênua das estradas;
Andam surdinas de anjos e de fadas,
Na penumbra nostálgica, macia...
Espiritualidades comoventes
Sobem da terra triste, em reticência
Pela tarde sonâmbula, imprecisa...
Os sentidos se esfumam, a alma é
essência
E entre fugas de sombras transcendentes,
O pensamento se volatiliza...

Casa Raul de Leoni
Sede da Academia Brasileira de Poesia
Transubstanciação
Esta chance em que existo há de tornar-se
um dia,
Em húmus germinal, em seiva fecundante,
Decompondo-se em Pó, há de ser a energia
De vidas que sobre ela hão de viver
adiante...
Será fonte, Princípio, a tábida apatia
De um
movimento novo intérmino e constante,
Sua ruína
será a feraz embriogenia
De outros tipos de Vida, instante para instante.
Há
de um horto florir por sobre o seu passado.
Borboletas
iriais e anêmonas olentes,
Vidas da minha Morte, eu mesmo transformado...
E,
assim, irei buscando a Perfeição perdida,
Vivendo na
Emoção de seres diferentes
Que a Morte é a transição da Vida para a Vida...

Desconfiando
Tu pensas como eu penso, vês se eu vejo,
Atento tu me escutas quando falo;
Bem antes que te exponha o meu desejo
Já pronto estás correndo a executá-lo.
Achas em tudo um venturoso ensejo
De
servir-me a verdade num gracejo.
Serias, se eu quisesse, o meu cavalo...
Mas
não penses que estólido eu te creia
Como um
Patroclo abnegado, não
De todos os excessos de receia...
O
certo é que, em rancor, por dentro estalas;
Odeias-me
quem eu sei, mas, histrião,
Beijas-me as mãos por não poder cortá-las...

Almas
desoladoramente frias
Almas desoladoramente frias
De uma aridez tristíssima de areia,
Nelas não vingam essas suaves poesias
Que a alma das cousas, ao passar,
semeia...
Desesperadamente estéreis e sombras
Onde
passas (triste aura que as rodeia!)
Deixam uma
atmosfera amarga, cheia
De desencantos e melancolias...
Nessa árida rudeza de rochedo,
Mesmo
fazendo o bem, sua mão é pesada,
Sua própria virtude mete medo...
Como são tristes essas vidas sem amor,
Essas
sombras que nunca amaram nada,
Essas almas que nunca deram flor...
Crepuscular
Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.
Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.
Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.
Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...
História antiga
No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...
Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...
Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,
E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...
Legenda dos dias
O Homem
desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...
As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...
Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;
E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...
Platônico
As idéias
são seres superiores,
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.
Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.
Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,
Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.
Artista
Por um
destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.
Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...
Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:
Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...
Decadência
Afinal, é o
costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...
Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...
Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...
Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...
Cronologia
1895 – 30 de outubro, nasce em Petrópolis, Estado do Rio, Raul de Leoni Ramos, terceiro filho do magistrado Carolino de Leoni Ramos e de D. Augusta Villaboim Ramos.
1903 – Cursa o primário
e, a seguir, o secundário, no Colégio Abílio, em Niterói.
1910 – 11 de setembro: faz a Primeira Comunhão aos quinze anos, na Capela do
Colégio São Vicente, dos padres Premonstratenses, em Petrópolis, onde se
encontra internado.
1912- Matricula-se da Faculdade Livre de Direito do Distrito Federal, colando grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, quatro anos mais tarde.
1913 – 9 de abril: parte para a Europa, indo visitar a Inglaterra, França, Itália, Espanha e Portugal. Impressiona-se com Florença, única cidade nominalmente decantada em seu livro.
1914 – De volta ao Rio de Janeiro, inicia colaboração literária nas revistas Fon-Fon e Para-Todos, colaborando mais tarde em O Jornal (1919), no Jornal do Comércio e no Jornal do Brasil.
1918 – 13 de março: é nomeado, por Nilo Peçanha, Ministro das Relações Exteriores no governo Wenceslau Brás, para ao cargo de Secretário da Legação do Brasil em Cuba, não chegando a assumir, regressando da Bahia.
1919 – Após declinar da sua nomeação para cargo idêntico, em nova Legação junto ao Vaticano, aceita ir para Montevidéu, onde permanece por três meses, para logo definitivamente abrir mão da Diplomacia. É eleito Deputado à Assembléia Fluminense. Publica seu primeiro livro de poemas: Ode a um poeta morto, dedicado à memória de Olavo Bilac.
1920 – 8 de setembro: contrata casamento com Ruth Soares de Gouvêa. Ruth morava na rua Floriano Peixoto, 93, Petrópolis.
1921 – 6 de abril: casa-se com Ruth, sendo celebrante Frei Luiz Reinke, OFM. Passa a morar na rua das Paineiras, 19, em Botafogo, Rio de Janeiro.
1922 – Publica Luz mediterrânea, e começa a colaborar no jornal O Dia.
1923 – Adoece do pulmão, abandonando o convívio de parentes e amigos, indo para Corrêas, e a seguir, Itaipava, licenciando-se do cargo de inspetor na companhia de seguros em que trabalhava.
1926
– 21 de novembro: morre, na Vila Serena, em Itaipava, Petrópolis, hoje
condomínio Alexandre Mayworm, vitimado por fimatose (invasão de ambos os
pulmões). O sepultamento ocorreu às 11 horas, sendo a missa de corpo-presente
realizada pelo Frei Luiz Reinke OFM, grande amigo da família, e por quem Raul
chamava nas suas crises mais sérias.
Informações obtidas no excelente
site da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de
Leoni
e através da acadêmica Conceição Bentes.
http://www.rauldeleoni.org
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