
Jorge Roberto Martins

Por todo o tempo
minha amada é dos janeiros temporais
dos fevereiros fogosos
dos marços gentis
chega abril e ela se arruma toda
pra ser dama em maio
imaginando-se lua em junho
ou em julho dos seus arrepios infantis
dos seus pelos juvenis
em agosto, minha amada tem pressa
tem outros planos, outros outubros
tão desatenta e sem setembro
logo ela, primavera no olhar
minha amada, se bem me lembro,
escreveu no meu coração - eu te amo.
aconteceu em novembro.
no vizinho seguinte, eu, exausto
ainda festejo novos desejos
amando além da paixão,
além dos dezembros.

Delírios II
inquieto
te imagino fogosa nas palavras
aconchegante nas sílabas
absoluta nos significados
sôfrego
te espero nos vãos da angústia
te busco onde não estiveres
pra ter certeza de tua ausência.
febril
te deliro sem pudores
me farto com teus suores
sem nexo, me inconformo.
demente
te excomungo nos missais
te esconjuro beatamente
e te louvo contrito.
amante
te gosto nos cheiros
te gasto nos gritos
te galgo em pelo.

Se eu soubesse
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Se eu soubesse, com precisão, que o tempo me reservaria um tempo do teu gozo e de todos os teus prazeres; se eu soubesse, arfante, que a saudade me lembraria a delicadeza do teu olhar e a revolta da tua despedida; se eu soubesse, com emoção, que a razão nublaria meus olhos e secaria o teu choro de tantas manhãs; se eu soubesse, loucamente, que a minha paixão poderia resistir à todas as incertezas do nosso vai-não-vai; e se eu soubesse, por ilusão, que me avizinharia ao máximo da tua alma e nela me instalaria para me viver, se eu soubesse... eu não saberia nada de amor.
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Resedás
árvores que brincam com as nuvens, roçando
suas pontas
bicicletas antigas descansam no meio-fio à espera de uma volta
janelas carentes cobertas de colchas insinuantes e cheiros sedutores
olhares felinos por trás das sombras imaginam-se galantes
olhares gentis por trás dos óculos veem-se luzeiros
cadeiras preguiçosamente recostadas em si mesmas
na ponta da esquina, no ventre do beco
e aquela transparência de amarelo me sonhando a vista
um menino de joelho esfolado passa gritando ais
o vendedor de amendoim pega quatro ventos,
três para a eficácia do produto, um para o seu barato
o rapazola cofia pelos enrugando lábios
ela dá de ombros, olha pelos ombros,
arrepia-se nos ombros, finge indiferença
seu irmão valentemente estufa o peito protetor
e aquela transparência de amarelo me sonhando a alma
no número 35, logo após o 31, ou 33, nem bem sei
sei que alguém festeja a tarde, silenciosamente, como brisa
sei porque a sinto passar por mim sussurrando, a brisa,
sei porque quatro casas adiante, ali perto da tamarineira
ali onde os galhos desenham momentos e significados
ali onde os bancos bem quietinhos se oferecem
aquela transparência de amarelo sempre se recolhe
me anoitecendo os dias, me amarelando a calma.

Trevas
Bebo o vinho ensanguentado da orgia urbana;
nos sinais, nos morros, nos casais,
nas periferias frias da insegurança;
nos becos e nos desertos, nos choques
e nos retoques combinados; bebo
o que houver de vulnerável e exposto
na alma penada do poder;
bebo a esperança dos notáveis humanos,
pois ela, mesmo assim, continua infinita;
eles continuam notáveis.
Bebo, com asco, o sangue do porão e do patrão perdido,
aí me humanizo.

Abandono
Ela tem veias gordas, incolores,
parecem trilhos de estações abandonadas
ferrugem e madeira seca de solidão
teias, terras e taras densas pelo abandono
Ela tem o descaso dos observadores
o gesto pio dos infantes arrependidos
o medo insensato dos que se afastam sem tempo
o horror corrosivo dos que hibernam na irrelevância
Ela tem ombros e peitos cavernosos
que ocultam sombras em sua alma fria
em sua calma demente e póstuma
exposta à caridade comprometida, mas fugidia
Então constrói seu templo
templo-fantasma assombrando pássaros
esconderijo, fronteira poço sem fundo
que lhe garante a miséria assumida
que lhe corta a carne um dia solene
que lhe invade o desejo que um dia gritou
que lhe rouba o dia que um dia luziu
que lhe protege as lágrimas que um dia...
um dia estas lágrimas correram suaves
escorreram suaves do seu rosto juvenil

Confissões Íntimas
Tem vezes que o corpo lateja
a veia explode
o sangue derrama
então bebo os suores
Outras, me contento com a ausência
a cabeça viaja
o olhar escurece
então apalpo o possível
Mas quando o tempo se entrega
o peito reage
as pernas se associam
então armo o bote

Ignez
Era cheia de não me toques.
Um dia, no que seria um sarro, engravidou.
Ignez, ah, Ignez!
Que filho gerastes na imaginação?
Que filho não tivestes?
A partir de então, ofertava-se no ar
seus pelos, sua pele, seus cheiros.
Até que um dia apaixonou-se.
Incompreendida, não resignou-se. Matou-se.
Deixou histórias porque esqueceu de levá-las.
Guardara-as no baú de suas tralhas.
Das muitas, poucas se pode contar.
Estas têm adornos – flores, do campo e da cidade;
fugas e retornos; conciliações e abandonos;
traições e donos; sonos e olheiras.
Ignez fez, se fez e se desfez.
Seus olhos choveram e sua alma sertanejou.
Virou número na conta da rapaziada
que não cresceu nem se soube além,
que nem de Ignez entendeu ou gozou.
As outras histórias, as incontáveis,
nem baú nem nada,
nelas não se toca,
como
Ignez... que era cheia...

Contatos com o autor através do e-mail:
martinsrj@globo.com
As imagens foram obtidas no site wikipedia, na seção sobre Paquetá, cidade onde nasceu o escritor.
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